Religião

15/11/2019 | domtotal.com

A religião como memória ética da política

Se profetas denunciavam a injustiça, o cristianismo deve apontar o Reino como parâmetro ético

Pacto das Catacumbas pela Casa Comum é exemplo de fé que se desdobra em ética, um ato político e religioso
Pacto das Catacumbas pela Casa Comum é exemplo de fé que se desdobra em ética, um ato político e religioso (Guilherme Cavalli/ Cimi)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

A sociedade moderna, movida pelos ideais de uma razão que se preocupa tão somente com a necessidade de ligar meios a fins, acabou por dissociar a política da ética. E, assim como Platão, que para construir a sua república utópica expulsou da cidade os poetas e oradores, a modernidade, com sua razão instrumental, expulsou da praça pública os profetas, destituindo, assim, a religião de sua cidadania na “cidade dos homens”. Parafraseando Nietzsche, podemos afirmar que a política moderna assistiu a “morte dos profetas”. Porém, se a essência da política é a busca do bem comum, o serviço à cidade, os profetas, como guardiões da justiça e do direito, jamais poderiam ser excluídos da praça pública, pois eles são a memória ética da política.

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Quando se trata da relação entre política e religião há sempre uma desconfiança. Porque, tanto o Estado laico quanto as igrejas, têm medo de perderem sua identidade e autonomia. Porém, a religião deve ser memória ética da política, e fazer do Estado uma extensão das igrejas. Desse modo, precisamos superar duas maneiras errôneas de pensar a relação entre religião e política. Se, por um lado, há indivíduos e grupos religiosos que pensam que a política é “coisa suja” e, por isso, não é lugar para a pessoa de fé, pois a religião deve se envolver tão somente com as “coisas de Deus” e deixar o homem livre para pensar e agir nas “coisas temporais”; há, por outro lado, pessoas e grupos que querem transformar o Estado numa nova “teocracia”, fazendo da política, palco de suas ideologias.   

Esses dois modos de pensar a política não condizem com o evangelho de Jesus. Pois, negar a participação dos cristãos na coisa pública, transformar a fé numa espécie de “fantasia espiritual” intimista e individualista, dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da Encarnação. Como nos recorda o Concílio Vaticano II: “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes 1,1)

Por outro lado, transformar o Estado numa espécie de religião é pensar que o Reino de Deus se identifica com essa ou aquela ideologia, e, portanto, já se plenifica aqui, coisa que o próprio Cristo tratou de alertar aos seus discípulos, ensinando-os a rezar ao Pai pedindo que venha o seu Reino, numa manifestação clara de que o Reino de Deus se difere do reino dos homens. Noutras palavras, fazer do Estado de direito uma religião, é ideologizar a fé e transformar a religião numa “ONG piedosa”. Nesse sentido, uma certa “secularização” da política é positiva para a vivência correta da fé cristã, porque a religião deve se envolver com a política, sem, porém, confundir-se com ela. E a política precisa dialogar com a religião, sem, no entanto, perder a sua autonomia.

Assistimos, atualmente, uma crise da política. Uma vez que esta foi dominada pelo o economismo, pela busca do poder e pelo desejo de levar vantagens indevidas para acumular riquezas... Mas essa não é a política no seu sentido primeiro. Porque a política é a arte de promover o bem na sua forma mais exigente, porque visa ao bem público e não apenas de um indivíduo. Fazer o bem a uma pessoa é importante, porém, quando fazemos um bem à cidade, principalmente neste contexto de globalização, realizamos a mais bela obra do ponto de vista ético e, do ponto de vista cristão, a forma mais perfeita de caridade.

Para nós cristãos, a política é um campo que não podemos negligenciar. Ela é um espaço importantíssimo para exercermos a caridade, para testemunharmos os valores do evangelho, mediante a promoção da justiça e do direito à vida e à dignidade para todos. Por isso, desde muito cedo, os cristãos procuraram manter o seu lugar na cidade, como afirma a Carta a Diogneto, (séc. I) “os cristãos não se distinguem dos demais nem pelo lugar em que vivem, nem por sua linguagem, nem pelo seu modo de vida... Vivem em cidades gregas e bárbaras, seguem os costumes dos habitantes do país tanto no vestir como no estilo de vida... habitam em sua própria pátria, mas como forasteiros; participam em tudo como cidadãos, mas suportam tudo como estrangeiros, toda terra estranha é pátria, mas estão em toda pátria como em terra estranha... se casam e geram filhos como todos, mas não os abandonam (...). Compartem mesa, mas não o leito (...), obedecem às leis estabelecidas, mas as superam pelo seu modo de vida... amam a todos..., são pobres, mas enriquecem a muitos...”.

Reivindicar, porém, um lugar na praça pública para a religião, não significa necessariamente a criação de um “partido religioso”. Faz-se necessário ampliar o nosso conceito de política para além das urnas. O papa Francisco fala de uma nova forma de participação dos cristãos na política que parte da valorização do povo e dos movimentos populares. “Fazer política inspirada no Evangelho a partir do povo em movimento pode se tornar uma maneira poderosa de sanar nossas frágeis democracias e de abrir novas instâncias representativas de origem popular”.

Sanar nossas frágeis democracias, a partir do povo em movimento. Essa recomendação do papa é muito válida para esse momento de instabilidade política no Brasil e em toda América Latina. Pois as chamadas democracias representativas, muitas vezes, não representam o povo, pois estão dominadas por grupos ideológicos que estão empenhados em defender seus próprios interesses, enquanto que as necessidades básicas do povo são deixadas em segundo plano. Daí a importância da participação efetiva dos cristãos nos Movimentos Populares, nos Conselhos de Direito, na luta do povo por Políticas Públicas de qualidade, etc.

Desta forma, o envolvimento da religião na política terá sempre um viés profético de compromisso com a vida do povo e a justiça social. Pois nós cristãos não podemos agir como Pilatos lavando nossas mãos diante da coisa pública. Isso não significa tomar uma atitude condenatória diante dos nossos governantes. Claro que existem muitos erros e devios que precisam ser corrigidos. O cristão, porém, inspirando no Evangelho, não somente denuncia as injustiças e pecados, mas também aponta novos caminhos. Porque “é fácil dizer que a culpa é dos outros... Mas eu, o que eu faço? Isto é um dever! Trabalhar pelo bem comum é um dever do cristão” (Papa Francisco).

É bom que o povo nos veja como companheiros em suas angústias, lutas e esperanças; como profetas da justiça e do direito, como guardiões da vida e da dignidade humana para todos... Pois  “o lugar das Igrejas é onde Deus está atuando, Cristo está sofrendo e o Espírito está cuidando da vida e resistindo aos poderes destrutivos. As Igrejas que se mantiverem distantes desse lugar concreto de Deus Trino e Uno não podem afirmar que são Igrejas fiéis” (Conselho Mundial de Igrejas). A religião, portanto, para cumprir a sua missão profética no mundo, não pode se eximir da resposabilidade ética e política. A praça pública também é lugar de testemunharmos a nossa fé.

*Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo, Belo Horizonte - MG

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