Religião

15/11/2019 | domtotal.com

A república desproclamada pelo fundamentalismo religioso

A pretensão de tomada de poder para a 'cristianização' da política é antievangélica

Deputado pastor sargento Isidório segura bíblia durante reunião da CCJ da Câmara dos Deputados destinada a votar o parecer da reforma da Previdência
Deputado pastor sargento Isidório segura bíblia durante reunião da CCJ da Câmara dos Deputados destinada a votar o parecer da reforma da Previdência (Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

Felipe Magalhães Francisco*

O Brasil é um país cristão! Essa é uma frase que costumamos ouvir com insistência, sobretudo nesses tempos de falso patriotismo, amparado num fundamentalismo religioso absurdamente nocivo. A maneira como compreendemos essa frase diz muito sobre nossa visão de mundo. Que o Brasil seja um país formado por uma maioria que se confessa cristã, sim; que o Estado brasileiro seja cristão, felizmente não! É preciso insistir: felizmente, o Estado brasileiro não é cristão. Primeiro, porque a laicidade do estado é garantia de que haja liberdade e respeito para com todas as fés, inclusive a cristã; segundo, porque a tentação de união dos poderes religioso e político não estava incluso na pretensão de Jesus, mas da religião cristã bem posterior.

Jesus anunciava o Reino de Deus. De político, esse anúncio abarcava um sentido que extrapola até mesmo a melhor de nossas noções de política, tal como a busca pelo bem-comum. O Reino de Deus é um estado existencial no qual o bem é comum a todos e todas? Sim! Mas é mais que isso! Tão logo, é preciso compreender que o Reino anunciado por Jesus não se assemelha a qualquer modelo político que conhecemos. É papel dos cristãos e cristãs, unidos a Cristo por sua vida-morte-ressurreição e por sua causa, anunciar e tornar possível o Reino em nossa história. Contudo, esse Reino não deve se impor sobre a sociedade, ele é dom, é gratuito. E mais: esse não foi o caminho adotado por Jesus, caso contrário, não teria sido suspenso na cruz da execração. O Reino de Deus é Deus mesmo, soberano sobre nossa vida e sobre a vida do mundo. É, pois, absolutamente diverso de nossas pretensões religiosas de poder.

A missão cristã de serviço ao Reino não é uma tomada de poder. Os poderosos do mundo dominam e oprimem. A perspectiva de Jesus para seus discípulos e discípulas é clara: entre vocês não deve ser assim (Mc 10,43)! O lugar ético-religioso dos cristãos e cristãs, na sociedade, é do testemunho do Reino de Deus; testemunho, este, que se manifesta como serviço de vida, de justiça e de paz. Se, pois, tanto no passado, com o catolicismo, quanto no presente, com o neopentecostalismo fundamentalista, houve e há a pretensão de uma tomada de poder, para a “cristianização” da política, tal realidade é manifestadamente antievangélica!

De tudo isso, pois, urge que destaquemos três pontos fundamentais: devemos compreender a laicidade do Estado como uma verdadeira bênção; o papel dos cristãos e cristãs, politicamente, é viver de modo ético e profético na sociedade; e, por fim, uma fé verdadeiramente cristã busca romper com todas as pretensões teocráticas fundamentalistas. É, justamente, a respeito disso que discorre, respectivamente, nossos três artigos do Dom Especial desta semana: o primeiro, Estado democrático de direito e religião, de autoria de César Thiago do Carmo Alves; em seguida, A religião como memória ética da política, de Rodrigo Ferreira da Costa; e, como arremate, Questões sobre fé, democracia e república, de Fabrício Veliq.

Boa e crítica leitura!

EMGE

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