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19/11/2019 | domtotal.com

Sustentabilidade na construção civil - o bambu como material construtivo

Na arquitetura, querido por profissionais conceituados, o bambu proporciona projetos arrojados merecendo a atenção da engenharia

Em todo o mundo o bambu contém aproximadamente 1641 espécies e 120 gêneros descritos
Em todo o mundo o bambu contém aproximadamente 1641 espécies e 120 gêneros descritos (Pixabay)

Luciana Nunes de Magalhães*

Com intuito da preservação ambiental e interação harmônica com a sociedade, a construção civil deve buscar a execução de suas obras com a utilização de materiais e processos construtivos selecionados a observar características de sustentabilidade. Os materiais que apresentam baixo consumo energético para sua obtenção, que geram o mínimo de resíduos em seu processamento, bem como os de procedência renovável ou reciclável, são considerados sustentáveis.

Diversos estudos têm sido realizados pelo grupo de pesquisa em questão, com objetivo de adquirir um olhar crítico sobre os parâmetros que envolvem de fato a sustentabilidade nesses materiais da construção civil, resguardando-se de oportunismos em relação as propagandas de produtos ou processos sustentáveis apresentados pela mídia. Dentre os selecionados para avaliação está o bambu que, além de apresentar essas condições, possui potencial de reduzir custos, oferece nível de qualidade compatível ao das tecnologias convencionais e pode inclusive, vir a colaborar na construção de habitações de interesse social. Assim, os estudos estão objetivados em difundir suas possibilidades de utilização, bem como suas potencialidades e particularidades, aqui comentadas à comunidade.

O bambu é uma gramínea pertencente à subfamília Bambusoideae e em todo o mundo, contém aproximadamente 1641 espécies e 120 gêneros descritos, mas a cada ano novas espécies vêm surgindo e este número tende a aumentar. No Brasil, encontram-se cerca de 256 espécies nativas, sendo a maioria nas regiões Sudeste e Norte, devido ao favorecimento do clima e áreas para o seu cultivo. Segundo o Instituto Estadual de Florestas (IEF) – "Uma das vantagens da plantação do bambu é o rápido crescimento dessa espécie e o fato de não haver necessidade de replantio. Se for feito o corte adequado, ele cresce novamente, convivendo com matas nativas e auxiliando na sua regeneração".  

Países como Colômbia, Peru, Equador, Indonésia e Índia possuem estruturas centenárias projetadas e executadas utilizando o bambu, que ainda são habitadas e não apresentam patologias estruturais consideráveis. O arquiteto colombiano Simón Vélez, na década de 1980, criou uma técnica de uso do bambu como elemento estrutural difundindo a técnica em seu país; várias são as obras apresentadas por ele, reconhecidas internacionalmente como o imponente pavilhão do Hotel do Frade, em Angra dos Reis (RJ).

Entretanto, o bambu apesar de ser um material que possibilita o uso de diferentes formas e em conjunto com variados materiais, como concreto, tijolo, vidro, aço e biomateriais, este material também apresenta suas limitações.

“Pós e contras”

A vantagem do bambu em relação às suas características físicas é a leveza, apresentando ótima relação entre resistência à tração na direção de suas fibras e sua massa específica, comparando com o aço, por exemplo, possui resistência similar, mas sua densidade é 90% menor. Já em relação à resistência a compressão, apesar de ser menor, seu valor é satisfatório. Sendo muito versátil e podendo ser utilizado em várias formas na construção civil, destaca-se a baixa energia consumida em sua produção, estabilidade, resistência e versatilidade.

Por outro lado, analisando a estrutura do bambu, através de revisão de literatura acadêmica, vê-se que colmos de um mesmo feixe de bambu podem apresentar propriedades mecânicas diferentes, o que traz dificuldades no uso pela falta de padronização, assim como seu diâmetro e espessura. O teor de umidade e temperatura do meio ambiente onde se encontra o material podem causar mudanças em sua estrutura, como rachaduras que abrem espaço para o ataque de fungos. Por esse fato, faz-se necessário tratamentos preservativos para sua utilização.

Sendo elemento proveniente da natureza, o bambu pode ser influenciado por ações climáticas e patológicas, vindo de organismos vegetais ou animais. Sua durabilidade está em torno de 15 anos dependendo do seu modo de armazenamento, espécie, plantio e outras condições, mas com devidos tratamentos sua durabilidade pode ser aumentada. Para sua utilização adequada, encontra-se recomendações sobre corte segundo a idade e natureza, cura, secagem e tratamentos preservativos contra fungos e insetos. Esses tratamentos podem ser feitos em dois métodos, naturais ou químicos, em que a escolha deve ser feita através da consideração do estado do material coletado e o tempo de corte.

Para utilizar o bambu na construção civil é ideal que a espécie alcance uma altura de pelo menos 20 metros e somente algumas espécies apresentam características de resistência mecânica adequada para uso em estruturas. As espécies mais utilizadas para construção são: Dendrocalamus giganteus (bambu gigante), Dendrocalamus asper (bambu-dragão), Phyllostachys pubescens (bambu-mossô), e Guadua angustifolia (taquaruçu) que é a espécie mais empregada para estruturas devido à sua versatilidade, leveza, flexibilidade, resistência e fácil manuseio.

Entretanto, o desconhecimento geral sobre essa matéria prima, faz com que o maior problema de sua utilização, apesar dos requisitos apresentados, seja o preconceito associado as características de fraqueza e de baixo custo, fazendo com que ele seja muitas vezes escolhido apenas para construções de veraneio e detalhes arquitetônicos.

“Um universo de possibilidades”

Quanto as possibilidades de aplicação, inúmeras se encaixam na utilização do bambu na construção civil, elementos estruturais como pilares e vigas, elementos de cobertura, fechamento de paredes e painéis de vedação, além de acabamentos de pisos, forros, portas e janelas. Quando o bambu é combinado com o concreto, o material em alguns casos é considerado até mais resistente que o próprio aço, devido à sua grande resistência à tração. O bambu consegue erguer de dois até sete pavimentos, quando unido com outros materiais e pode trazer redução de custos de até 50% em obras estruturais.

No que diz respeito a parâmetros de cálculo, existem algumas normas internacionais que fornecem informações sobre o uso de elementos de bambu com função estrutural, de forma única ou em conjunto. Entretanto, é muito difícil estimar valores mínimos e determinar parâmetros para esse tipo de elemento, pois devem ser diretamente proporcionais à espécie utilizada e aos sistemas estruturais empregados.

Na arquitetura, querido por profissionais conceituados, o bambu proporciona projetos arrojados merecendo a atenção da engenharia. Infelizmente, a falta de mão de obra qualificada, no Brasil, ocasiona obras com um potencial de acabamento muito menor do que se poderia alcançar. Padrões estéticos que tornam o bambu verdadeiras obras de arte pode ser vistos em Belo Horizonte, a Cozinha Escola Nestlé de Rosenbaum, no Mercado Central, apresenta uma estrutura curva e entrelaçada de bambu que proporciona transparência e cria um ambiente interno acolhedor, ainda a estrutura central do Restaurante Udon na Região Centro-Sul da cidade, bem como o portal da Loja Tetum são amostras de uma nova referência para a sustentabilidade e a inclusão definitiva do bambu como elemento de destaque para a arquitetura, engenharia, mobiliário e design.

Assim, várias são as pesquisas feitas com bambu na engenharia, alguns estudos com objetivos bem amplos outros bem específicos. Trabalhos de análise de propriedades físicas, como o de Khosrow Ghavami, que tem como proposta apresentar aos profissionais que estão iniciando e até mesmo aos que possuem experiência, a possibilidade de usarem essa matéria-prima como elemento estrutural, apresentando resultados de uma riqueza surpreendente, tensões de flexão, tensões máximas de tração, compressão, cisalhamento, entre outros, para a espécie Guadua angustifolia, que permitirão aos engenheiros e arquitetos uma boa base em seus projetos. Pode-se citar ainda a contribuição de Vitor Hugo Silva Marçal, com o Uso do bambu na construção civil, que apresenta de forma esclarecedora o sistema de tratamento, características positivas e vantagens, patologias e intervenções que surgem em estruturas feitas de bambu com o passar do tempo visando viabilizar o uso desse material em detrimentos dos outros.

Pelo exposto, o bambu constitui uma proposta alternativa considerada sustentável, com potencial para alcançar excelentes resultados na construção civil, portanto deverá continuar ser objeto de estudos, pois ainda necessita de muito incentivo e pesquisa para superar seus obstáculos e se tornar material normatizado com o devido controle de qualidade para uso na construção civil.

Este texto constitui parte dos resultados das investigações do grupo de pesquisa de Sustentabilidade na Construção Civil da EMGE que pretende, além de dar continuidade aos estudos com bambu, analisar outros materiais com valores que visam colaborar com a construção civil voltada para a sustentabilidade.

Hotel do Frade RJ Simón Veléz                                                                   Loja Tetum BH



                                                          Cozinha Escola Nestle de Rosenbaum -Mercado Central BH

* Luciana Nunes de Magalhães é professora da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Grupo de Pesquisa Científica Sustentabilidade na Construção Civil: Arthur Microni Bezerra, Ana Carolina de Almeida Cardoso, Carla Afonso Rodrigues Silva, Jonatas Israel Silva de Lima, Stephanie Caroline Godinho Silva

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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