Religião

21/11/2019 | domtotal.com

Ética do cristão: louvar o Senhor sem amar o próximo é hipocrisia e perda de tempo

A ética cristã é uma ética prescritiva do amor ao próximo

O cristão é seguidor de um Deus crucificado, seu símbolo maior é uma cruz
O cristão é seguidor de um Deus crucificado, seu símbolo maior é uma cruz (Pixabay)

Élio Gasda*

Ética do cristão: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai (Mt 7, 21). Fazer! O dinamismo do fazer cristão, inspirado pelo Espírito, é um fazer para o outro. A ética cristã é uma ética prescritiva do amor ao próximo. É coerência entre o que se reza, o que se crê e o que se faz. Os cristãos vivem em um mundo marcado pela injustiça, sofrimento e morte. Deus que abraça o sofrimento humano em Cristo, espera que o seguidor de Jesus faça o mesmo.

A ética desenvolve a essência do cristianismo. A ação de Cristo celebrada na Eucaristia não suprime a responsabilidade humana com os rumos da sociedade. A libertação da escravidão do pecado reivindica a libertação das escravidões históricas de ordem cultural, econômica e política, pois elas são obstáculos que impedem à pessoa viver segundo sua dignidade enraizada na imagem e semelhança de Deus. A ética une liberdade e responsabilidade na transformação da sociedade. A presença do cristão na sociedade e na política tem como principal finalidade a defesa da dignidade humana.

Por isso, nunca se deve recuar diante da perversidade. É isso que Francisco espera dos cristãos ao instituir o Dia Mundial dos Pobres, que esse ano tem como tema “A esperança dos pobres jamais se frustrará”. Identificar, compreender e contribuir na superação do mal que sustenta sistemas violentos é tarefa cristã. Todo sistema injusto deve ser confrontado em sua totalidade. Quase metade da população mundial vive na miséria. Apenas oito homens possuem a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade (Oxfam, Uma economia para os 99%). “O grito dos pobres se torna mais forte a cada dia. E a cada dia é menos ouvido, porque é abafado pelo barulho de poucos ricos que são sempre menos e sempre mais ricos” (Papa Francisco).

A justiça exige o reconhecimento de pessoas e grupos discriminados em sua identidade. O injustiçado não é apenas econômico, mas também pode ser o negro, o indígena, a mulher, o gay, o idoso, os deficientes físicos e intelectuais... Francisco cita as “muitas formas de novas escravidões”, como famílias obrigadas a deixar a sua terra, órfãos, jovens em busca da realização profissional, vítimas de tantas formas de violência, da prostituição à droga, os milhões de migrantes instrumentalizados para uso econômico. E pessoas famintas em busca de comida nas periferias. “Tendo-se tornado eles próprios parte de uma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo”, ressalta o pontífice. Os pobres são carne de Cristo (Mt 25,31-46). Como nos lembra Francisco, “na Escritura, o pobre é o homem da confiança! É precisamente esta confiança no Senhor, esta certeza de não ser abandonado, que convida o pobre à esperança. Sabe que Deus não o pode abandonar”.

Estruturas sociais e seus mecanismos são os geradores de sofrimento, injustiça e violência. O pecado não é um mal abstrato e socialmente inofensivo. Não há como escapar da responsabilização das injustiças. O mal pode ser verificado na política, na economia, na cultura, nas instituições do Judiciário, na religião, na educação, na mídia. Embora a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da política, a Igreja não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça (EG, n.183). A justiça exige reconhecer o outro como sujeito de direito (ou pessoa) e como membro da comunidade.

Como fazer para atender ao apelo do papa e chegar a ser um bom cristão? Simples: fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Não é um compromisso leve ou superficial, pelo contrário, só pode ser praticado com a força do Espírito Santo, que liberta do egoísmo, da preguiça e do orgulho. A riqueza corrompe o coração. A inimizade, a cultura da vingança e do ódio, as murmurações, feito por pessoas que se dedicam a criticar e destruir, não constrói a paz. A vida tem sentido quando socorremos o outro na sua aflição. Quando a “fome e sede” de justiça torna-se instinto de sobrevivência. Não haverá paz enquanto não houver respeito pelos direitos humanos. Ajudar os outros, perdoar e compreender é ter misericórdia. “O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles” (Mt 7, 12).

Em sua mensagem, Francisco ressalta que os pobres “precisam simplesmente de amor” das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão.

A caridade cristã baseia-se unicamente no fato de todo ser humano ser criado à imagem e semelhança divina. O Amor cristão é espontâneo e gratuito, sem motivo, sem interesse e justificativas. Deus não nos ama em função do que somos. O cristão é seguidor de um Deus crucificado, seu símbolo maior é uma cruz.

A ética do cristão é um ato de religião: “amai-vos como eu vos amei” (Jo 13,34). Quando amamos de verdade, já não somos apenas nós que amamos, mas é Deus amando em nós. Louvar o Senhor sem amar o próximo é hipocrisia e perda de tempo.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).



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