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23/11/2019 | domtotal.com

Joca Reiners Terron ficciona a destruição da Amazônia

Autor descreve a busca de um antropólogo traumatizado por uma tribo isolada em 'A morte e o meteoro'

Joca Reiners Terron narra uma aventura cheia de reviravoltas surpreendentes
Joca Reiners Terron narra uma aventura cheia de reviravoltas surpreendentes (Todavia/Divulgação)

Jovino Machado*

“Cada segundo que passa é um milagre que jamais se repete.” Este é o bordão que o personagem Boaventura ouvia em sua juventude, ao final da programação noturna da Rádio Relógio, emissora de ondas curtas do Rio de Janeiro. Boaventura era adolescente quando descobriu, através do programa Você sabia?, que ainda existiam povos indígenas isolados na Amazônia. Ele ficou surpreso, pois imaginava que os índios estavam todos aculturados ou mortos.

Foi nessa época que ele alimentou planos de estudar antropologia na universidade e trocar o mundo dos brancos pela vida “selvagem”. No fundo, ele desejava apagar seu sobrenome e ser um “selvagem” como aquele que o feriu com a sua flecha, detalhe muito importante ao longo da narrativa de A morte e o meteoro, mais recente romance do escritor Joca R. Terron.

Este é um pequeno perfil do sertanista que lembra um pouco o Darcy Ribeiro ou os irmãos Vilas Boas. Numa floresta totalmente devastada, a tribo dos kaajapukugi se resume a 50 índios que vinham sendo caçados com determinação pelo Estado e pelos seus agentes de extermínio: garimpeiros, madeireiros, latifundiários e seus capangas habituais, policiais, militares e governantes. A saída foi levá-los para as montanhas perpétuas de Huautla.

Terron diz que “o livro não foi planejado, mas nasceu da urgência de tratar de temas cada vez mais trágicos e necessários e que a história de Boaventura espelha a de nossa sociedade que insiste em atribuir aos indígenas um comportamento que não é deles”. Os kaajapukugi são livremente inspirados nos suruwahas, comunidade que vive em quase total isolamento no Amazonas. No texto anti-utópico a floresta está totalmente destruída. As árvores estão sendo calcinadas pelo sol. Índios, árvores e animais estão morrendo. O futuro não existe. O futuro nunca existiu. O passado passou e a única alternativa no presente é pedir para a tribo o asilo político em outro país.

A aventura de Boaventura passa a ter um clima de filme de suspense, mistério e terror, na medida que ele se entranha na selva inacessível ao homem branco, que é considerado o “Grande mal”. Depois de conhecer o rito sagrado do consumo de tinsáanhán, que ocorria numa ilha coberta de neblina, ele se envolve com a única mulher da tribo e uma série de abusos como cárcere privado, ameaças e estupros passam a ser uma coisa natural na vida deles. A índia fica grávida de um menino que é devolvido a tribo, como forma de recompensar os nativos pela morte dela.

A trama se desenvolve pelos rios, clareiras e um pequeno povoado onde o protagonista se envolve com traficantes e uma velha prostituta cafetina. Se vicia em jogo e cocaína e para pagar a dívida prostitui a mãe de seu filho. Os rituais e costumes da tribo são narrados com uma impressionante riqueza de detalhes num vídeo que Boaventura deixou gravado pouco antes de morrer.

O anti-herói nasceu em São Paulo, o pai desapareceu na Guerrilha do Araguaia, a mãe se matou na madrugada do primeiro dia de 1980. Essas informações preciosas fazem da narrativa de Terron uma mistura indigesta de desespero e desesperança somada ao sonho do sertanista, que, com a sua sede de conhecimento, tem como principal objetivo ser o primeiro a registrar informações que atravessaram séculos sem sair do pequeno círculo de uma comunidade totalmente isolada e que recusava contato com o grande inimigo homem branco.

As cicatrizes da flechada que atravessou o rosto de Boaventura é uma grande metáfora para denunciar todas as injustiças cometidas contra os índios desde 1500, quando o Brasil foi invadido pelos portugueses e, aos poucos, foram roubando suas terras, suas vidas e suas almas. O suicídio dos membros da tribo do romance são uma triste realidade, principalmente entre jovens, nas aldeias que ainda resistem e lutam para sobreviver. Há pouco tempo uma tribo do Mato Grosso foi vítima de um fazendeiro que enviou seu avião – usado para jogar agrotóxicos nas plantações – para jogar veneno sobre eles.

O que é justo e o que é injusto é uma discussão que persiste e se aprofunda entre os ativistas dedicados à luta ambiental, cada vez mais necessária num país que insiste em queimar sua maior fonte de riquezas, que são as nossas florestas. É interessante pensar que A morte e o meteoro nos leva a muitas reflexões sobre a distopia vivida nesse triste início de século 21.

Melhor romancista de sua geração (é clichê dizer isso, mas é preciso situar o escritor no seu tempo), Joca Reiners Terron nos brinda com uma narrativa vertiginosa de cento e poucas páginas, uma fábula que toca fundo na ferida de um povo maltratado, acuado e injustiçado ao longo de toda uma vida. Um povo que sempre sonhou e lutou por um futuro que nunca existiu, porque foi abortado, mutilado, golpeado, rachado, rasgado e anulado pelas forças obscuras dos poderosos de plantão.

A morte e o meteoro dialoga com os versos que fiz quando o índio Galdino foi assassinado em um ponto de ônibus de Brasília, depois de participar de uma manifestação pelos direitos de seu povo. Reproduzo aqui o poema na íntegra:

ANTENA

meu pai era galdino
livre
foi queimado
meu avô era zumbi
guerreiro
foi castrado
meu bisavô era pessoa
bardo
foi ignorado
eu sou sambista
PS: o meu samba continua triste.


A MORTE E O METEORO
De Joca Reiners Terron
Editora Todavia
120 páginas
R$ 49,90 e R$ 29,90

*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

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