Religião

22/11/2019 | domtotal.com

Sínodo acabou. E agora, o que o papa dirá?

Estamos em novembro, e é bem provável que um esboço do documento sobre a Amazônia, escrito pelo papa, já esteja em fase de construção

Mirticeli Dias de Medeiros
Mirticeli Dias de Medeiros (REUTERS / YARA NARDI)

Mirticeli Dias de Medeiros*

“Terminará o sínodo e a Amazônia será esquecida de novo." Uma colega jornalista acabou prevendo o que iria acontecer. Se não fosse pelo papa, o tema certamente não pairaria de novo pelos ares dos “sagrados palácios”. Há quase um mês do encerramento da assembleia de bispos que tratou da região amazônica – realizado em outubro deste ano –, começa a expectativa para a publicação da chamada Exortação Apostólica pós-sinodal. O documento, escrito pelo papa meses após a realização de um sínodo, expõe o parecer final do pontífice sobre a sugestões dos participantes da reunião de bispos.

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Porém, antes disso, espera-se que os nomes dos leigos que auxiliarão o papa nessa empreitada sejam divulgados em breve. A comissão pós-sinodal, formada por representantes de todos os novos países que compõem a região pan-amazônica, foi votada pelos participantes da assembleia um dia antes conclusão do sínodo, em 25 de outubro.

Fase pós-sínodal

Como adiantamos no Dom Total, há quatro brasileiros que integram a lista: dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém (PA), dom Erwin Kräutler, bispo emérito da prelazia do Xingu (PA) – agora diocese de Xingu-Altamira –, dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e dom Roque Paloschi, bispo de Porto Velho (RO). Os demais membros serão eleitos “por nomeação pontifícia”, ou seja, serão escolhidos diretamente pelo papa.

De acordo com uma fonte, foi o próprio papa a expressar que faltava uma “presença laical”, também se referindo à não nomeação de mulheres. Sendo assim, em breve saberemos quem serão os membros “não clericais” que irão compor a “equipe do pontífice”, responsável por colocar em prática o que foi discutido. Muito provável que, entre os escolhidos, aqueles que mais atuaram na preparação e auxiliaram nos trabalhos da assembleia sejam convocados.

Conteúdo do documento

A previsão é que, entre dezembro ou janeiro, o papa publique o documento. O motivo da “pressa” é mais que evidente. Francisco claramente não quer mais dar vazão às polêmicas que atrapalharam – e muito –, o andamento dos trabalhos do sínodo. Uma orientação pastoral clara do papa, em resposta ao que foi tratado pela reunião de bispos, poderá redefinir a atuação da Igreja nas periferias. Nesse caso, o Sínodo da Amazônia, por si só, já pode ser considerado um marco.

Olhando para o texto produzido ao final da assembleia, não há dúvidas de que muito do conteúdo será “aproveitado pelo pontífice”. Tudo isso porque muitas das propostas condizem com o que já foi apresentado pela Laudato si, a encíclica ecológica de Francisco, considerado o texto-base de todas as discussões.

Além disso, o documento poderá se tornar um grande meio de conscientização de matriz ecumênica, de modo que todos os cristãos se empenhem nessa dimensão ecológica. Não à toa, o papa, no encerramento do sínodo, citou Bartolomeu, patriarca ecumênico de Constantinopla e líder máximo da Igreja Ortodoxa, apontando-o como “um dos pioneiros dessa conscientização na Igreja”.

No discurso de conclusão da assembleia, proferido no dia 25 de outubro, Francisco chegou a dizer que três temas poderiam ser assumidos pelo texto escrito por ele, entre os quais ele destacou a questão  da sinodalidade. O líder religioso disse que refletiria sobre isso, visto que “a maioria deu um parecer positivo” à proposta. Pode ser um indicativo de que o pontífice dará uma especial atenção aos temas mais repercutidos durante a assembleia.

Sendo assim, a ordenação de homens casados que atuariam somente na região amazônica poderia ser uma das sugestões acatadas. Apesar de ser claramente contra esse tipo de permissão, após vários pronunciamentos sobre o celibato na Igreja Latina, é provável que Francisco a interprete como uma exceção motivada pela urgência pastoral.

Outros temas que, nas entrelinhas do discurso conclusivo do papa também poderão receber destaque serão: a exploração da região amazônia em todas as suas formas e o reconhecimento efetivo do papel das mulheres que atuam no território, através da oficialização da comissão para estudar o diaconato feminino, desta vez articulada pela Congregação para a Doutrina da Fé.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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