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22/11/2019 | domtotal.com

Sobras do muro

Os trechos por onde o Muro passava foram mantidos como discretos monumentos, marcos no chão e nas paredes, cortando parques e áreas residenciais

O Muro é onipresente, é a grande cicatriz de Berlim
O Muro é onipresente, é a grande cicatriz de Berlim (John MacDougall/AFP)

Fernando Fabbrini*

Depois de alguns dias em Berlim, o turista terá sua atenção inevitavelmente atraída para a quantidade de souvenires contendo – como juram os vendedores – um dos últimos fragmentos do Muro. São pequenos pedaços de concreto, restos de demolição com resquícios de tinta spray, palavras interrompidas e rabiscos diversos. Deve existir uma indústria próspera alimentando esse singular nicho de mercado. Desconfio que se fosse possível juntar todos os cacos teríamos material suficiente para construir cinco muros iguais e, de quebra, mais uma nova Muralha da China. Mas não importa: todo mundo compra um pedacinho da história e coloca a relíquia na estante da sala, ao voltar da viagem.

O Muro é onipresente, é a grande cicatriz de Berlim. Qualquer mapa da cidade distribuído de graça nos hotéis reproduz em linha pontilhada seu traçado sinuoso através das ruas e avenidas. Partes dele – as verdadeiras – continuam de pé, como atração turística. Os trechos por onde o Muro passava foram mantidos como discretos monumentos, marcos no chão e nas paredes, cortando parques e áreas residenciais. Se atraem turistas, estas sobras do muro também funcionam como oportunidades para desempregados – os restantes, já que a taxa de desemprego na Alemanha vem despencando nos últimos anos. Vestidos como soldados russos, os ambulantes oferecem chapéus envelhecidos de pele de urso, CD’s com hinos, condecorações soviéticas e demais bugigangas – tudo falso, naturalmente.

O must do Muro está na Friedrichstrasse, bem no centro da capital. É o Checkpoint Charlie, o portão mais famoso entre as duas Alemanhas divididas, reservado na época ao trânsito de militares e pessoal diplomático. Está mantido quase na sua configuração original, com direito a bandeiras, sentinelas, sacos de areia, holofotes e placas de alerta: “Você está entrando no setor americano”. Mas é tudo brincadeira, claro: transposto o Checkpoint Charlie a gente se assenta num Starbucks à frente e toma café genuinamente capitalista com cookies idem.

Assim, o local só vale mesmo para tirar fotos ao lado de figurantes com fardas dos anos 60, sorridentes e fazendo piadinhas. Palco de histórias tristes, o ponto não merecia tanta descontração, diria. No telhado há um pôster exibindo a cara de um soldado que os desavisados pensam ser uma homenagem ao “Charlie” que daria nome ao posto. Engano: “Charlie” é apenas o termo usado para a letra “C” em comunicações no código internacional, porque existiam outros checkpoints em Berlim: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Fox...

Ao refazerem a cidade, os urbanistas deram uma atenção especial ao antigo lado comunista, caprichando na arquitetura, arejando-o com a beleza outrora ausente. Mesmo assim, é fácil constatar que a porção oriental ainda conserva alguns traços da austeridade tediosa do domínio russo. Fez-me lembrar Budapeste, com seus prédios soturnos e desprovidos de qualquer humanidade, dignos do cenário de um filme de espionagem. Contaram-me que os soviéticos evitavam erguer prédios altos junto ao Muro para que os berlinenses orientais não pudessem visualizar lá de cima o “lado bom”, o território leviano e proibido aos olhos da sociedade perfeita do proletariado.

Há 30 anos ele caiu. Foram 155 quilômetros separando um povo e marcando, com dor, angústia e ódio, uma geração inteira.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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