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24/11/2019 | domtotal.com

Respeito, qualidade tão escassa

O respeito é algo que se expande numa proporção geométrica e não aritmética

Muito lamentável, sr. juiz!
Muito lamentável, sr. juiz! (Reprodução)

Evaldo D' Assumpção*

Dos muitos ensinamentos que recebi dos meus pais, o respeito foi o mais marcante. Respeito aos pais e professores, respeito aos mais velhos, respeito a Deus que me foi mostrado como o criador de tudo e de todos, respeito aos lugares em que estivesse, respeito à moral e à ética, às leis e às normas que ao longo da vida me fossem apresentadas. Curiosamente, o respeito é algo que se expande numa proporção geométrica e não aritmética. Explicando melhor: o respeito a alguém ou à alguma coisa, se torna também aplicável a tudo e a todos, que de certa forma se relacione com o que já aprendera a respeitar. Portanto, depois de um certo tempo já não havia necessidade de me ensinarem que deveria respeitar isso ou aquilo. Por analogia intuitiva ou dedução lógica, a cada situação nova que vivia, percebia o respeito que devia ter por tudo que a ela fosse relacionado.  E assim tenho vivido por 82 anos incompletos, e assim tentei educar meus filhos e netos, em todas as oportunidades que tive, ou ainda tenho.

Por outro lado, aprendi também que respeito nada tem a ver com submissão, com subserviência, ou com humilhação. Muito pelo contrário, fui progressivamente descobrindo que ao respeito corresponde o respeito, pois ele é um dever mútuo. Quando isso não acontece, surgem desentendimentos de diversas formas. Para alguns, mais irritadiços, esses desentendimentos podem se transformar em agressões, sejam vocais sejam físicas. Para os mais comedidos, pode comprometer um relacionamento, e se não houver uma atitude de reparo, tornar-se uma ruptura. Até a natureza nos ensina isso, pois se a desrespeitamos, seu retorno quase sempre é violento.

Confesso então meu assombro diante das situações com que me deparo nos dias atuais, quando os progressos da ciência e da tecnologia, deveriam trazer, para os humanos, uma condição mais aprimorada de respeito mútuo. Mas, ledo engano! Creio que nunca se faltou tanto ao respeito, como no tempo turbulento em que vivemos.  Exemplifico com algumas situações mais comuns, e outras constatadas nas muitas mídias que hoje perturbam a homeostasia social.

Inicio com as famílias, que deveriam ser, mas já não o são, a célula mater da sociedade, como afirmava Rui Barbosa (1849-1923). Com a minha, aprendi a pedir a benção aos meus pais, e eventualmente aos tios e avós, cada vez que os encontrava. Aprendi também que devia cumprimentar qualquer pessoa que chegasse em nossa casa, e a despedir-me quando saísse. Práticas que levei por toda a minha vida.  Hoje, assusta-me ver pessoas levantando-se pela manhã, chegando ou saindo de casa, chegando ou saindo do trabalho, como se ali não houvesse mais ninguém. Quando muito, um “oi” que mais parece um gemido, ou um grunhido. Se os jovens soubessem o valor que tem a benção dos pais e dos mais velhos, ou um simples bom dia, boa tarde, de pessoas por quem passamos, certamente não desperdiçariam essa fonte inesgotável de energias positivas que nos preenchem. Tampouco os adultos desprezariam beber dessa fonte de energia positiva e gratuita. Já pensaram como o mundo seria bem mais agradável?

Aprendi a tratar meus pais por “senhor” e “senhora”, fórmula aplicável também às pessoas mais idosas, e às pessoas que ocupavam cargos que minha educação mostrasse deveriam receber esse tratamento. Hoje, “você”, “cara”, ou outras expressões mais grotescas, substituíram o tratamento adequado.  Tudo em nome de uma falsa igualdade, e de uma liberdade que a cada dia se pretende maior, indo muito além da libertinagem, que corrói o encanto de viver.

Poderia me estender, falando do respeito à natureza, às propriedades alheias e as públicas, das quais os monumentos, as ruas e praças são os mais exemplares, mas onde se jogam lixo, baganas, sobras de comida, sem qualquer cerimônia. O que dizer então dos pichadores de paredes, que danificam, sujam, desrespeitando um espaço que não lhes pertence? Que dizer do uso de bonés e chapéus em recintos fechados? E as infrações às leis de trânsito, o uso de celulares enquanto se dirige, tudo causando acidentes devidos ao desrespeito, e à irresponsabilidade que muitas vezes rouba vidas de crianças e pais de família. Qualquer espaço será pequeno para abordar tantas agressões ao respeito com que nos deparamos no dia a dia. Mas, cada leitor certamente poderá fazer sua própria lista, quem sabe para se questionar como se comporta diante das inúmeras situações onde o respeito é totalmente ignorado.

Concluo minhas considerações, com um fato que me chocou, dia destes. Uma jovem advogada, defendendo uma causa no STF – hoje um exemplo de desrespeito oficial aos legítimos anseios do povo brasileiro – disse aos juízes, algo como: “tendo em vista o que vocês ouviram no referido processo....” Nesse momento foi bruscamente interrompida por um dos juízes que, dirigindo-se ao Presidente da sessão, solicitou-lhe repreensão da advogada por ter-se dirigido a eles como “vocês”. E fez uma peroração calcando-se na liturgia do Supremo, dizendo que a eles só se pode dirigir como Vossas Meritíssimas. A jovem advogada ficou tão assustada, que se confundiu toda e disse: “Peço escusas a vocês...aos senhores...a...a Vossas Excelências...” numa constrangedora confusão, pelo nervosismo e aflição.  Certamente ela usou o termo errado, mas o Meritíssimo não teve a grandeza de respeitá-la em sua imaturidade, deixando para, gentilmente corrigi-la depois, e em particular, como o faria um respeitável mestre. Mas, espezinhado em sua imensa e deificada vaidade, ele perdeu ótima oportunidade de, generosa e magistralmente, ensinar e demonstrar a uma pessoa mais frágil, o genuíno respeito. Muito lamentável, sr. juiz!

*Evaldo D'Assumpção é médico e escritor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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