Religião

26/11/2019 | domtotal.com

Em Nagasaki e Hiroshima, papa faz apelo pela paz e pelo desarmamento

'Em apenas um instante, tudo foi devorado por um buraco negro de destruição e morte'.

O papa Francisco orou para que 'o abismo da dor suportado aqui possa nos lembrar de fronteiras que nunca devem ser ultrapassadas'
O papa Francisco orou para que 'o abismo da dor suportado aqui possa nos lembrar de fronteiras que nunca devem ser ultrapassadas' (Pixabay)

Gerard O’Connell
America The Jesuit Review

De Nagasaki e Hiroshima. Duas únicas cidades do mundo a serem destruídas por bombas atômicas. O papa Francisco fez um apelo apaixonado pela eliminação total de armas nucleares. “O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas atômicas é igualmente imoral", disse. “Seremos julgados por isso”.

O papa falou no parque do epicentro da bomba atômica, em Nagasaki, na manhã desse domingo (24), perto do local onde os Estados Unidos lançou a segunda bomba em 9 de agosto de 1945, matando instantaneamente 27.000 pessoas. O papa Francisco declarou que a posse de armas nucleares e outras armas de destruição em massa não são a resposta ao desejo mais profundo da humanidade por “segurança, paz e estabilidade”. Pela noite, ele visitou o Memorial da Paz em Hiroshima, honrando as dezenas de milhares de pessoas mortas por uma bomba atômica nesse lugar.

Desde que se tornou papa em 2013, Francisco queria chegar a esses dois locais de destruição e sofrimento sem precedentes. Ele percebeu esse desejo hoje, e em discursos nos dois locais abordou o perigo e a ameaça, que significa o uso de armas nucleares, a ideologia da destruição mutuamente garantida, falando também da corrida armamentista e a busca pela paz mundial. Ele é o segundo papa a chegar a esses locais depois de João Paulo II, que veio em 1981.

Nagasaki

O papa Francisco visitou Nagasaki primeiro, uma cidade de cerca de 400.000 pessoas na região montanhosa que é o coração histórico do catolicismo no Japão e o lar de muitos mártires.

Chegou ao parque pela manhã em meio à chuva forte. Lá, em um local próximo ao epicentro da explosão da bomba, Francisco colocou uma coroa de flores e rezou em silêncio em memória dos mortos naquele dia. Depois de acender uma vela, leu seu discurso em espanhol para uma multidão de cerca de 200 japoneses e para uma audiência global que acompanhava o momento pela televisão.

Francisco afirmou que “a posse de armas nucleares e outras armas de destruição em massa não é a resposta” ao desejo da humanidade por segurança, estabilidade e paz no mundo. De fato, ele disse: “nosso mundo está marcado por uma dicotomia perversa que tenta defender e garantir a estabilidade e a paz através de um falso senso de segurança sustentado por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba envenenando as relações entre os povos e obstruindo qualquer forma de diálogo”.

Ele declarou que “a paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com as tentativas de aumentar o medo da destruição mútua ou a ameaça de aniquilação total”.

Lembrou, também “as consequências humanitárias e ambientais catastróficas de um ataque nuclear” que Nagasaki testemunhou, Francisco disse, “nossas tentativas de nos manifestar contra a corrida armamentista nunca serão suficientes”.

Ele continuou denunciando vigorosamente a corrida armamentista porque “em um mundo em que milhões de crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro desperdiçado e as fortunas obtidas com a fabricação, modernização, manutenção e venda de armas cada vez mais destrutivas representam uma afronta clamando ao céu”.

Ele declarou inequivocamente que “a Igreja Católica está irrevogavelmente comprometida em promover a paz entre povos e nações”. Ele insistiu que “nunca devemos nos cansar de trabalhar para apoiar os principais instrumentos jurídicos internacionais de desarmamento nuclear e não proliferação de armas, incluindo o Tratado sobre a proibição de armas nucleares”. Também lembrou da aprovação, em julho passado, quando “os bispos do Japão lançaram um apelo pela abolição das armas nucleares”.

Então, dizendo que está pessoalmente convencido de que “um mundo sem armas nucleares é possível e necessário”, o papa Francisco pediu aos líderes políticos do mundo “que não esqueçam que essas armas não podem nos proteger das ameaças atuais à segurança nacional e internacional”. Francisco os chamou: “a ponderarem o impacto catastrófico de sua implantação, especialmente do ponto de vista humanitário e ambiental, e rejeitar a elevação de um clima de medo, desconfiança e hostilidade fomentada por doutrinas nucleares”. Enfatizou também a necessidade de criar instrumentos “para garantir a confiança e o desenvolvimento da reciprocidade” e a necessidade de “líderes capazes de assumir essas demandas”.

O Vaticano tem expressado uma crescente preocupação com o atraso contínuo do presidente dos EUA, Donald Trump, em iniciar negociações com a Rússia para estender ou renovar o Tratado Estratégico de Redução de Armas e por permitir que o tratado EUA-Rússia sobre armas de alcance intermediário expire.

O papa convidou as pessoas a se unirem a ele “orando todos os dias pela conversão dos corações e pelo triunfo de uma cultura de vida, reconciliação e fraternidade”, e sugeriu que fizessem a oração de São Francisco de Assis: “Senhor, faça me um instrumento da sua paz”.

De lá, Francisco foi ao memorial dos mártires de Nagasaki, cujas lembranças o inspiraram ainda jovem, e por isso sempre quis ir ao Japão como missionário. Depois celebrou a missa em um estádio de beisebol.

Hiroshima

No final da tarde, fez uma viagem de avião de uma hora de Nagasaki para Hiroshima, uma cidade de quase 2 milhões de pessoas. O sol se pôs quando chegou ao Memorial da Paz em Hiroshima, que fica sob o local onde os Estados Unidos, de acordo com o Reino Unido, lançaram a primeira bomba atômica do mundo que matou imediatamente entre 60.000 e 80.000 pessoas e um total de 140.000 até o final desse ano.

Era noite quando o papa Francisco chegou ao memorial. Cerca de 1.500 japoneses estiveram presentes no evento solene, acompanhado de 20 líderes religiosos e 20 sobreviventes do atentado. Houve um longo período de grande silêncio, quando Francisco cumprimentou todos os sobreviventes um a um e abraçou uma mulher que chorava. Francisco então colocou flores em memória das vítimas e orou em silêncio. Ele então acendeu uma vela feita pela Cúria Romana para a ocasião. Então todos foram convidados a ficar em pé por um momento de silêncio enquanto um gongo soava.

Depois, dois sobreviventes, Yoshiko Kajimoto, 14 anos, e Kojí Hosokawa, 17 que moravam em Hiroshima quando a bomba explodiu, descreveram com dignidade e emoção sua terrível experiência para Francisco.

Kajimoto estava trabalhando em uma fábrica quando a bomba caiu. Ela foi enterrada sob madeira e azulejos, mas finalmente conseguiu sair. “Quando saí, todos os edifícios ao redor estavam destruídos”, disse ela ao papa. “Estava tão escuro quanto a noite e cheirava a peixe podre”.

Ajudando a evacuar os feridos, ela viu “pessoas caminhando lado a lado como fantasmas, pessoas cujo corpo todo estava tão queimado que eu não percebia a diferença entre homens e mulheres, com os cabelos em pé, os rostos inchados até o dobro do tamanho, os lábios soltos, com as duas mãos estendidas e com a pele queimada pendurada nelas”.

“Ninguém neste mundo pode imaginar uma cena do inferno”, disse ela.

Hosokawa não pôde comparecer à cerimônia com o papa, mas seu testemunho foi lido: “Acho que todos deveriam perceber que as bombas atômicas foram lançadas, não em Hiroshima e Nagasaki, mas em toda a humanidade”, escreveu ele.

Depois de ouvir os dois testemunhos, Francisco começou dizendo “a paz esteja com vocês” e relembrando o que aconteceu quando a bomba caiu: “Em apenas um instante, tudo foi devorado por um buraco negro de destruição e morte. Desse abismo de silêncio, continuamos, ainda hoje a ouvir os gritos daqueles que não estão mais. Eles vieram de lugares diferentes, tinham nomes diferentes e alguns falavam idiomas diferentes. No entanto, todos estavam unidos no mesmo destino, em uma hora aterrorizante que deixou sua marca para sempre, não apenas na história deste país, mas na face da humanidade”.

Ele disse aos presentes: “Senti o dever de vir aqui como peregrino da paz, de permanecer em oração silenciosa, de recordar as vítimas inocentes de tal violência e de levar em meu coração as orações e anseios dos homens e mulheres de nosso tempo, especialmente os jovens, que anseiam pela paz, que trabalham pela paz e se sacrificam pela paz. Eu vim para este lugar de memória e esperança para o futuro, trazendo comigo o clamor dos pobres, que são sempre as vítimas mais indefesas do ódio e do conflito”.

Ele denunciou “o uso de energia atômica para fins de guerra” como “um crime” contra a humanidade e um ato “imoral”. Acrescentando: “também a posse de armas nucleares é imoral, como eu já disse há dois anos”.

Nove Estados possuem armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Os Estados Unidos e a Rússia juntos têm 14.000 das 15.000 armas nucleares conhecidas no mundo e 2.000 delas ainda estão em “alerta máximo”. Francisco expressou sua profunda preocupação de que essas armas possam ser ativadas por algum acidente ou erro humano. Por isso, em novembro de 2017, condenou categoricamente não apenas "a ameaça de seu uso", mas também "sua própria posse", o primeiro papa a fazê-lo.

Ele disse à sua audiência global em Hiroshima: “As gerações futuras surgirão para condenar nosso fracasso se falarmos de paz, mas não agirmos para trazê-la aos povos da terra. Como podemos falar de paz enquanto construímos novas armas de guerra aterradoras? Como podemos falar sobre paz, mesmo quando justificamos ações ilegítimas por meio de discursos cheios de discriminação e ódio?”

O papa Francisco orou para que “o abismo da dor suportado aqui possa nos lembrar de fronteiras que nunca devem ser ultrapassadas”.

No final do dia, o papa Francisco fez uma viagem de avião de uma hora para Tóquio, onde amanhã se encontrará com o imperador e o primeiro-ministro do Japão.

Publicado originalmente em: America The Jesuit Review


*Gerard O'Connell é o correspondente do Vaticano na América (@gerryorome)

Tradução: Ramón Lara

EMGE

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