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28/11/2019 | domtotal.com

Os eternos malcriados brasileiros

Triunfou a república dos malcriados acoplados na mais tenaz ignorância

Toda vez que tento olhar para o futuro com algum alento digo a mim mesmo que não é possível que consigamos a cada dia sermos piores
Toda vez que tento olhar para o futuro com algum alento digo a mim mesmo que não é possível que consigamos a cada dia sermos piores (Agência Brasil)

Ricardo Soares

Acho, entre meus alfarrábios, curiosa edição da revista Carta Capital de outubro de 1995, quando ainda era mensal, tinha outra diagramação e orientação editorial. Sua capa foi o motivo de ela estar guardada durante tantos anos. Estampava o título "Os malcriados", com o adendo “para eles, o resto do mundo não existe.

A matéria era então assinada por Wagner Carelli, com fotos de Felipe Reis, e se pretendia um pequeno tratado do malcriado brasileiro, que, segundo a revista, “é rico, indiferente à miséria, vive atrás de muralhas, julga-se o dono do mundo, desconhece a vida além da sua, invade e suja o espaço alheio e não reconhece culpa. Seu mau exemplo rendeu tese nos EUA e se dissemina”. E como se disseminou, infelizmente! Naquela época, há 24 anos, os tais “malcriados”, apesar de serem já uma parcela significativa da população de maior renda, pareciam não ser a maioria. Hoje, não contente em ser apenas maioria, disseminou seus maus hábitos e costumes a quase todas as classes sociais, como bem percebemos com a eleição do traste que nos desgoverna e com o advento do famigerado “pobre de direita”, fenômeno tão brazuca, que consiste em ser um idiota que bajula e defende quem nos atira nos pés e em outros locais de nossos corpos cansados. Enfim, triunfou a República dos malcriados, acoplados na mais tenaz ignorância e em interpretações mercantilistas descaradas ao redor dos ensinamentos da Bíblia.

Na ocasião em que essa reportagem foi publicada, o Brasil vivia o primeiro governo de Fernando Henrique, que, franco e risonho, surfava a boa onda do começo do Plano Real. E nessa onda de acúmulos de privilégios e de riquezas protegidas, já surfavam os emergentes de então, que com galhardia já defendiam a tal “ignorância ostentação”, que tanto faz sucesso no Brasil de Bolsonaro.

Toda vez que tento olhar para o futuro com algum alento, digo a mim mesmo que não é possível que consigamos a cada dia sermos piores. Tento buscar a tal luzinha no fim do túnel. Mas aí me deparo não só com as boçalidades cotidianas de um governo de malcriados como me certifico que pioramos muito desde a capa desta revista Carta Capital de outubro de 1995.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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