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28/11/2019 | domtotal.com

De nomes e seus derivados

O que significaria, por exemplo, toffolesco? E gilmarino? E lulático? E bolsonaróide?

Nossa língua vai se tornando cada vez mais modernosa e mais rica
Nossa língua vai se tornando cada vez mais modernosa e mais rica (Agência Brasil)

Afonso Barroso*

É interessante como certos nomes próprios geraram adjetivos correspondentes às características desses nomes. Exemplos são muitos. Hercúleo deriva da força de Hércules, o herói das doze missões impossíveis. Usa-se, evidentemente, para algo que exige uma força enorme na execução.

Homérico vem das fantasias extraordinárias de Homero, o poeta grego da Ilíada e da Odisseia. Usado também para definir algo exagerado, descomunal.

Dantesco, da viagem fantástica de Dante Alighieri aos reinos do mundo espiritual. Significa algo medonho, horripilante.

Quixotesco, das aventuras e desventuras do cavaleiro andante e seu escudeiro Sancho Pança, personagens de Cervantes.  Define algo meio inverossímil, fantasioso.

E por aí vai, para o melhor uso da língua portuguesa.

Agora, que dizer de adjetivos novos, surgidos nos tempos atuais no nosso idioma? O que significaria, por exemplo, toffolesco? E gilmarino? E lulático? E bolsonaróide? E gleissônico? E weberiano? E mellosquente? E lewandófilo? E witzelino?

Sem mais delongas, tentemos explicar o que parece de alguma forma explicável, com a devida aplicação prática de cada termo.

Se dissermos que alguma medida ou providência nos pareceu toffolesca, queremos dizer que foi meio sem sentido, sem nexo, sem noção. Na prática: foi uma atitude obtusa, quase toffolesca.

No caso de gilmarino, quer dizer sub-reptício, cheio de intenções claramente más. Aplicação na prática: Tergiversou como um autêntico gilmarino.

Se usarmos a qualificação de lulático para algo, significa que estamos falando de esperteza, de subtração de algo com mão leve, aquela que penetra no bolso alheio sem que a vítima perceba. Aplicação prática: Cometeu um furto lulático.

Bolsonaroide, o que seria mesmo? Simples: é algo ou alguém que jamais usa a mão ou a perna esquerda. Um Saci Pererê ideológico. Não faz questão de alguém ser direito. Sendo de direita, tudo certo. Aplicação prática: Que vão todos pra direita, mesmo sem ter o que ou como endireitar.

Termo bastante complicado é weberiano. Para explicá-lo melhor, recorro aos meus conhecimentos de menino da roça, comparando-o ao ninho do pássaro conhecido como joão-graveto. Como o próprio nome indica, esse joão constrói o ninho usando...gravetos. Vai entrelaçando-os num emaranhado sem lógica, até formar um aglomerado improvável, pendurado no galho de uma árvore qualquer. Aplicação prática: Fulano usou o estilo weberiano e engrafetou as explicações.

Mellosquente, assim mesmo, como dois ll, significa algo falsamente eloquente. Serve para qualificar uma argumentação entre enganosa e enrolada. Aplicação: O advogado foi terrivelmente mellosquente na defesa.

E o que dizer de gleissônico? A melhor definição é algo pouco confiável, eivado de puxa-saquismo. Na prática: Foi gleissônica no jeito de agir e falar.

E o lewandófilo, o que significa esse adjetivo? Ah, é fácil. Diz-se daquele que ama o que fica na superfície. Também pode significar monofônico, sem acordes, como canto gregoriano ou cantochão. Aplicação prática: É um lewandófilo: detesta o que parece profundo.

Chegamos, enfim, ao adjetivo witzelino. Serve para denominar um demagogo sem eira nem beira. Alguém capaz de se ajoelhar não diante de Deus, mas de um fazedor de gols para glória de Jesus, o Jorge. Curuz!

E assim, de pobreza em pobreza, nossa língua vai se tornando cada vez mais modernosa e mais rica.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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