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27/11/2019 | domtotal.com

Tonico Mercador reflete sobre a potência da escrita em livros de prosa e poesia

Escritor autografa nesta quarta (27) duas obras em que a palavra é a protagonista

O escritor busca resgatar o caráter mágico do texto literário
O escritor busca resgatar o caráter mágico do texto literário (Carol Reis/Divulgação)

Pablo Pires Fernandes

Para Tonico Mercador, a palavra guarda segredos, mistérios, mas também a potência de um grito desesperado. Carrega, inevitavelmente, um tanto de sacralidade. Por isto, o poeta, prosador e publicitário depositou a escrita, a palavra e o livro no centro de suas duas obras mais recentes: Cantos do silêncio e ausência (poesia) e O invasor de livros (prosa), com desenhos de Fernando Pacheco.

O autor autografa ambas nesta quarta-feira (27), no Restaurante Maria das Tranças, em Belo Horizonte, quando fará questão de inscrever, aos presentes, sua caligrafia sobre o papel, num gesto de afirmação da linguagem escrita, como que reiterando o tema de seus livros, ambos lançados pela Caravana Editorial.

“Sinto que todas essas palavras – imagética, links não lineares, ícones, processos cognitivos e mudanças – nos dão a dimensão exata da importância da escrita e do caminho inverso que a humanidade está percorrendo: uma destruição da relevância dos verbos originais, mágicos, divinos”, defende, criticando a certa desintegração da linguagem: “Me parece que os seres humanos estão cansados de falar e estão em vias de emitir apenas sons, arremedos. Penso que estamos no limiar da futura pré-história: como pronunciar “tb, pq, n, s, eh, ns” e outras reduções?”, questiona Tonico, após um interstício de quatro anos sem publicar.

Em um e outro livro, a palavra exerce protagonismo. O primeiro é um longo poema, composto de 30 “Cantos”, “que lamenta a ausência e o silêncio causados pelo desaparecimento da palavra”. No volume de prosa, ficciona “a presença dos mundos com que o invasor tem que lidar ao invadir as obras e vasculhar as entrelinhas do texto”. Para Tonico, sem a palavra, “não haveria livros pra invadir, cantos para cantar, mundos a visitar”.

Entre ausências e silêncios, o escritor insiste e resiste, traçando letra a letra as sílabas e inventando universos possíveis, ora melancólicos ora mágicos. Seja com sarcasmo, erudição ou necessidade, escreve e junta palavras. O autor concedeu esta entrevista exclusiva ao Dom Total. Confira:

Neste seu Cantos de silêncio e ausência, a palavra tem o lugar central. Porque quis, neste momento, refletir sobre a palavra e a própria escrita?

O título já revela um paradoxo, uma negação do que é e do que virá a ser o poema. É um longo poema composto de 30 cantos, nos quais passeio por algo que me atormenta há anos e à qual sempre quis contrapor: a célebre frase de não sei quem: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Quis mostrar que “uma palavra vale mais que mil imagens”, que sem a palavra não existe mundo possível, cognoscível, e que toda imagem depende das palavras se nela quisermos nos aprofundar. Ao mesmo tempo, é quase um grito de socorro, tipo “preservem as palavras”, uma vez que o “internautês” está, pouco a pouco, matando as palavras, dilacerando cada uma, esquartejando-as e jogando seus restos na grande lixeira da história. Já não se escreve, nas redes sociais, as palavras completas, com todas letras e sílabas, como se elas fossem inúteis e prescindíveis. Com as palavras retalhadas, sentimentos e visões também se tornam retalhos, frangalhos da realidade.

No poema, há muitas referências a movimentos literários e autores. É uma espécie de arqueologia pessoal ou historiografia própria da literatura?

É mais uma arqueologia pessoal, referências ao longo da minha vida de poeta e de leitor. Tenho nas histórias e obras de alguns poetas, a minha coluna vertebral, na qual continuo me sustentando e sustentando minhas ideias. As referências aos movimentos literários é um passeio pela literatura enquanto escolas e “ismos”, que compartimentalizaram a escrita, a poética, a arte em si. Algumas dessa escolas são responsáveis, segundo minha ótica, pelo esvaziamento critico e contextualizado da poética, pelo seu significado maior, grande como o poeta, matando a ideia de que ele é a antena da raça. Hoje, as antenas da humanidade são os economistas, os pensadores radicais, os líderes de quinta classe que se arvoram a conduzir um povo. Pobre povo!

Já no Invasor de livros, não utilizo as obras citadas como referências mas como territórios onde o personagem e seu coadjuvante se encontram e dialogam, territórios da imaginação alheia que penetro e invado para desvendar segredos, refletir sobre a evanescência ou efervescência da existência humana, desconstruir discursos e abrir cabeças, como diz Jaime Prado Gouvêa na orelha do livro,“não com tacapes selvagens mas com a pena saudavelmente iconoclasta da literatura”.

 Há ainda muitas referências a imagens clássicas e recursos da lírica canônica (mitos gregos, referências românticas – espelho, flores, abandono) assim como elementos mais contemporâneos. Há uma intencionalidade nesta mistura? Ou, para onde aponta a sua poesia?

A intenção é sempre crítica quando me refiro a esses recursos líricos e à mediocridade dos saraus poéticos em torno de uma mesa com mesas de linho e versos ruins. Não existe poesia boa ou ruim. Existe poesia ou não existe. Muitos se arvoram a achar que é arte o que escrevem ou pintam ou constroem. Concordo com Ferreira Gullar quando questiona: se tudo é arte, nada é arte. Na minha modesta visão, poema é a poesia cercada de palavras por todos os lados, uma ilha em que se encontram a alma do mundo. Sem poesia, o poema é uma sucessão de palavras descarnadas, que podem até fazer sentido, mas não tocam nossos sentidos, não nos levam ao encantamento e ao espanto. E apelo agora para Ezra Pound: “somente a emoção perdura”. Aqueles que por ventura me lerem, têm toda a liberdade de pensar que eu estou enganado, que minha poesia deixa a desejar e não tem nada das qualidades que exijo. Mas, acredito que meus poemas buscam ir além dos versos fáceis, do lugar comum e da mesmice. É por acreditar nisso que continuo a escrever e a publicar. Na arte, não existe apenas um caminho, mas existe o caminho. É esse que eu busco encontrar. O caminho, não um caminho qualquer. É para lá que eu vou.

Em O invasor de livros, você brinca com a realidade, testando limites e a própria imaginação dos personagens. Pode falar um pouco desta fronteira?

Aqui presto reverência, proposital, a alguns autores que me ajudaram a ser quem sou hoje. O invasor é um leitor contumaz que, em um surto psicótico e delirante, invade os livros que lê, de maneira absolutamente emotiva e sentimental. Rubião, personagem de Machado, Diadorim, de Guimarães Rosa, o próprio Sartre, ainda menino, Leopold Bloom, de Joyce, enfim, todos os personagens com que o invasor cruza ao longo dessa louca viagem são a porta para que ele converse com um mundo do qual está apartado, por questões de personalidade. A solidão aqui é ele preenchida com as múltiplas vozes que ouve, saídas de cenários os mais diversos. Não há fronteira, na verdade. Aqui a realidade e imaginação se unem. E é evidente que o pobre Invasor, personagem sem nome, como sem nome é o personagem de Knut Hamsum, em A fome, caminha para um destino nada idílico e tampouco justo. Mas a vida não é idílica ou justa. Para mim, escrever esse livro foi uma “prodigiosa viagem”, como escreveu Maria do Carmo Brandão na apresentação da obra.

O que te move para a escrita?

Escrever, confesso, é a única coisa que me deixa feliz, dono de mim mesmo. Não importa que eu esteja em estado de dor e sofrimento, de abandono ou suplício, tudo vida prazer.  Aceito o ato de escrever como esquizofrênico, absolutamente solitário. Não há como escrever uma obra completa no meio da rua, numa praia, com os pés na areia e o mar dentro dos olhos. Diferentemente dos pintores que saem para caminhar e sentir a luz do sol, a cor das coisas, o brilho das folhas e da água que corre por entre arbustos, o escritor se tranca, se fecha em suas lembranças e tira da memória, do passado ou do futuro, a matéria com que vai forjar o livro, o romance, a estória ou o poema. E isso, não é fácil, não cai do céu, não vem com o toque da varinha de condão. É um fazer doloroso, prazeroso, atômico, explosivo. Aos escrever, as palavras ganham vida. E a vida vira palavras, numa simbiose única que cria novos mundos, novas realidades.


NOITE DE AUTÓGRAFOS:
CANTOS DE SILÊNCIO E AUSÊNCIA (poesia, 48 páginas)
O INVASOR DE LIVROS (prosa, 110 páginas)
De Tonico Mercador
Caravana Editorial

QUANDO: Nesta quarta-feira (27), das 19h às 22h
ONDE: Restaurante Maria das Tranças (Rua Professor Morais, 158, Funcionários, Belo Horizonte).


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