Religião

28/11/2019 | domtotal.com

Amoris laetitia chegou para ficar

Uma mudança está em curso. Com Francisco a Igreja está se tornando inclusiva

Amoris laetitia vem diminuindo a distância entre o magistério e a realidade pastoral
Amoris laetitia vem diminuindo a distância entre o magistério e a realidade pastoral (Pixabay)

Élio Gasda*

“... desculpem! Existe nesta palavra a nossa consciência de ter-vos ignorado muitas vezes em nossas comunidades paroquiais. Talvez tenham sofrido por nossas atitudes de julgamento e crítica em relação a vocês. Declaramos por muito tempo que vocês não poderiam ser totalmente admitidos nos sacramentos da penitência e da Eucaristia, enquanto em muitos de vocês havia um desejo de serem sustentados pelo dom dos sacramentos e pelo afeto de uma comunidade”. Este é o trecho da carta do bispo italiano Renato Maragoni a casais separados, divorciados, casados civilmente ou não. Mas poderia ser destinado também aos casais homoafetivos. A verdade é que a exortação do papa Francisco, Amoris laetitia, começa a colher frutos.

Polêmica entre os tradicionalistas, Amoris laetitia vem diminuindo a distância entre o magistério e a realidade pastoral. Uma mudança está em curso. Com Francisco, a Igreja está se tornando inclusiva. “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja ‘para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas’” (Amoris laetitia, 305).

Acolher as famílias feridas com amor, promovendo a alegria é o tom da carta do bispo italiano aos casais: “...nos tornamos rígidos sobre uma visão muito formal das situações familiares que vocês viviam. Estávamos errados em não considerar também a situação pessoal, os sonhos que vocês haviam alimentado, a vossa vocação para a vida conjugal com os projetos de vida que ela envolvia, embora atravessados por conturbações familiares complicadas, em que tantos fatores podem ter sido decisivos para criar obstáculos a tudo isso. 

É nessas situações complexas que a responsabilidade pessoal precisa ser sustentada e ajudada justamente na fragilidade. Para aqueles que entre vocês ficaram desanimados e deixaram as nossas comunidades paroquiais, estamos aqui para dizer que sentimos sua falta e que precisamos de vocês e de seu testemunho de vida. Estamos cientes de que os eventos conturbados que vocês atravessaram e que perturbaram e machucaram vossos afetos familiares podem ajudar a nós todos a considerar a vida como um dom nunca dado como certo, como uma responsabilidade nunca concluída, como uma possibilidade de recomeçar o caminho da existência pela promessa que ele representa”.

Oxalá, uma abertura como essa, “prover para determinados casais que não vivem plenamente o matrimônio cristão a possibilidade de participar dos sacramentos” fosse entendida e compartilhada por todos os cristãos. A atitude dos bispos Renato Marangoni e Vittorio Veneto, que também se abriu à mudança, não é anarquista, os casais que desejarem participar dos sacramentos serão acompanhados pelo pároco ou pelo próprio bispo. Papa Francisco ensina que “os divorciados e recasados não são excomungados e não devem ser tratados como tais: eles sempre fazem parte da Igreja”.

Um passo de cada vez e, claro, dentro da realidade de cada diocese. Não se pode ignorar e nem negligenciar os cristãos de coração aflito desejosos de afeto e escuta. A Igreja não pode abandoná-los. “Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo 16, 13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar. Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De fato, «as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado” (Amoris laetitia, 3).

As novas configurações familiares são temas complexos e caros à sociedade. Francisco talvez não os tenha tratado de forma aberta em Amoris laetitia por saber que a tarefa é árdua, e ainda encontra resistências. Contudo, não cede às recriminações. Apesar de entender a família cristã fundada no matrimônio, lembra a importância de superar “um estereótipo ideal da família” por considerá-lo “um interpelante mosaico feito de diferentes realidades” (Amoris laetitia, 57).

Francisco ensina que “o caminho da Igreja é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração. (...) é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero (...). A caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita. Por isso, temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações, e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (Amoris laetitia, 296).

Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida (Amoris laetitia, 325).

O amor é o núcleo da família. Se divorciados em segunda união vivem o amor e são cristãos como todos os demais, por que não podem comungar? Discernimento e opção de consciência. Quem somos nós para julgar? Somos orientados a entrar na dinâmica do amor. O princípio da misericórdia é o coração que dá vida à doutrina cristã.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

EMGE

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