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28/11/2019 | domtotal.com

Vida e obra de Raul Seixas ainda incomodam o ouro dos tolos

Em noite de celebração do legado do Maluco Beleza, o jornalista Jotabê Medeiros fala de seu livro sobre o artista seguido de show do bloco Toca Raul Agremiação Psicodélica

O roqueiro baiano sempre manteve o inconformismo e atitude libertária
O roqueiro baiano sempre manteve o inconformismo e atitude libertária (Arquivo/Agência Estado)

Pablo Pires Fernandes

Se você não gosta de Raul Seixas, deixe os preconceitos de lado e tente outra vez. Você pode achar que o cara é chato, cafona, doido demais ou musicalmente pobre. Tudo bem. Tudo cabe na figura de Raul. Assim como atribuem a ele e a sua música os adjetivos de gênio, rebelde, perseverante ou visionário. Poucos, porém, discordam da qualidade singular da personalidade e da obra de Raul Santos Seixas (1945-1989).

A dicotomia que cerca o “maluco beleza” é mencionada logo na introdução de Não diga que a canção está perdida, a mais recente biografia do dito cujo, escrita pelo experiente jornalista e crítico Jotabê Medeiros. “Os dois esforços, condenar e absolver, se chocam às vezes com efeitos devastadores, expelindo cogumelos atômicos nos confrontos, criando duelismo, confusão ou exacerbando a idolatria”, escreve.

Inevitavelmente fascinado pelo objeto de sua pesquisa, o autor faz nesta quinta-feira, em Belo Horizonte, uma edição do projeto Sempre um Papo. O evento aberto ao público, na Casa do Jornalista, ganha tons de celebração ao baiano com a apresentação da banda/bloco carnavalesco Toca Raul Agremiação Psicodélica. A trupe musical é notória por sua performance contagiante e pela fidelidade ao espírito libertário do ídolo.

Para Jotabê Medeiros, o rock é a base de toda a música de Raul, mesmo quando ele canta tango, ou baião, ou reggae. “É uma espécie de textura com a qual ele envolve todas suas canções, dotando-as de uma capacidade de reivindicação, de liberdade extrema. É um caso único na música. Essa singularidade é que garantiu seu êxito e sua permanência”, explica o biógrafo, autor também de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano.

A proposta de escrever sobre Raul Seixas partiu da editora Todavia Livros. Ele hesitou, mas, por intermédio de um amigo, topou com fotos do diário de Raul, feitas na presença do próprio. “Achei que era um sinal”, conta.

A partir daí, foi picado pela mosca do raulseixismo. Jotabê enxergou um viés possível, apesar das mais de 80 biografias sobre o cantor. “Havia espaço para se examinar a trajetória dele em toda sua complexidade: como cantor, compositor, letrista, performer, produtor de discos de terceiros, autor de filosofia popular. Imaginei que isso seria possível traçando-se um paralelo entre os fatos de sua trajetória pessoal e artística.”

O processo de pesquisa e escrita levou um ano e meio. O autor relata ter privilegiado “vozes que não tinham sido convenientemente ouvidas, parceiros como Mauro Motta, Leno, Ian Guest, os Panteras”, diz, destacando o fato de que os Panteras, a banda baiana de Raul, não tenha ainda uma biografia própria. “São pioneiros do rock brasileiro”, defende. “Também fui à documentação, em locais como o Arquivo Público do Rio de Janeiro, que guarda os documentos da relação de Raul com a ditadura.”

Como inúmeros compositores, a ditadura militar (1964-1985) o reprimiu e o censurou. Libertário demais, os burocratas do regime atribuíam significados absurdos às canções do artista. Raul nunca desanimou, dada sua determinação – “o que eu quero, eu vou conseguir” – e certa malandragem. Apesar da paranoia, soube atravessar o período “com amor e com medo”. Parado é que não podia ficar. Inconformista, hoje, provavelmente, diria aos caretas (agora tantos”) que estão no caminho: “Você é forte, mas eu sou muito mais lindo”.

Não diga que a canção está perdida é um livro que traz alguma semelhança com o biografado. Repleto de referências e citações, é uma narrativa de ritmo veloz, intensa, como um jorro que explicita a necessidade de contar uma história. A fusão entre vida e obra foi uma opção acertada do autor, já que no caso de grandes artistas, mas de maneira – sempre – peculiar de Raul, é inevitável. E, como o tal, Jotabê confere ao relato toques de humor, alguma picardia, levanta dúvidas e acrescenta doses de maluquez, sem perder a franqueza.

O caminho que Raul seguiu não foi fácil, mas contraditório como poucos, ele tinha e sabia aonde ir. Metamorfoseou-se inúmeras vezes. Ao cruzar a encruzilhada entre o rock de Elvis Presley e o baião de Luiz Gonzaga, o pacto estava feito: nasceu o baioque. Que segue reclamando, abusando, zumbizando o sono e o ouro dos tolos.

Jotabê Medeiros participa do Sempre um Papo, na Casa do Jornalista (Daniel Bianchini/Divulgação)

Um aspecto reiterado por várias fontes é a determinação de Raul de fazer sucesso e viver de música. Como foi o processo de Raul se encontrar musicalmente?

Raul conhecia a fórmula do sucesso. Ele a usou para tornar nacionalmente ouvidos artistas como Diana, Odair José, Balthazar, José Roberto. Podia perfeitamente ter seguido esse caminho. Mas tinha uma notável coerência ética e estética, não achava possível vender sua independência. Isso inclusive lhe trouxe problemas com as gravadoras.

Seu livro aprofunda a fase de Raul enquanto produtor e o trabalho nas gravadoras. O que destaca deste período?

Todos os artistas ditos "cafonas" que ele produziu são meio escanteados pela historiografia anterior. Como se manchassem a reputação de Raul. E, no entanto, é uma de suas facetas mais ricas, a que mais ajudou Raul a desenvolver um trabalho sólido de estúdio, com pleno domínio das tecnologias e das possibilidades dos estúdios.

A relação de Raul com Paulo Coelho foi repleta de altos e baixos, prolífica e muito intensa. É possível apontar o que de mais importante cada um ganhou com a convivência com o outro?

Paulo Coelho trouxe um certo desregramento beatnik à obra de Raul, além de ter relacionado sua obra com referências literárias e políticas muito expressivas, de Allen Ginsberg ao Mahabharata. Também ajudou a conectar com um discurso pop de efeito imediato, como em Al Capone, por exemplo. Já Raul ensinou tudo a Paulo: como fazer canções, como abrir mão de certa tendência gongórica, prolixa. Paulo Coelho, eu acredito, começou ali mesmo a desenvolver sua literatura popular, mas de certa forma forjando uma fórmula muito própria, feita de colagens, um patchwork.

A biografia evidencia bastante as referências (e muitos plágios) que Raul usou em suas canções. Podemos dizer que é uma forma de antropofagia?

Ouvi todas as canções e algumas já tinham fama de terem sido plagiadas. Mas o lote que garimpei é muito maior e envolve não só o plágio propriamente dito, mas também a recriação, a transcriação, um certo sentido antropofágico. Raul desafiava a lei e a ordem, como sempre fez, acredito que ele debochava da indústria e suas regras também quando fazia isso.

Hoje, 30 anos após a morte de Raul, é possível separar o homem do mito?

Sim, acho que é. Um não conspurca o outro, Raul foi de uma coerência absurda até o final da vida. Esteticamente, nunca se vendeu, como costumamos dizer. Pessoalmente, foi um homem de certa conformação trágica, com um destino muito definido e do qual ele não fugia. Pelo contrário, até o buscava avidamente.



SERVIÇO:

NÃO DIGA QUE A CANÇÃO ESTÁ PERDIDA
De Jotabê Medeiros
Todavia Livros
416 páginas
R$ 69,90 e R$ 39,90 (e-book)

SEMPRE UM PAPO
Com Jotabê Medeiros, seguido de show do bloco Toca Raul
Nesta quinta-feira, às 19h30, na Casa do Jornalista (Av. Álvares Cabral, 400, Centro, Belo Horizonte).
Entrada franca


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