Religião

29/11/2019 | domtotal.com

Papa: 'A loucura de alguns governantes pode destruir a humanidade'

As expressões fortes de Francisco contra o espírito bélico que tem se instalado

Na semana passada, papa se encontrou sobreviventes do ataque nuclear de Hiroshima, no Japão
Na semana passada, papa se encontrou sobreviventes do ataque nuclear de Hiroshima, no Japão (REUTERS/Kim Kyung-Hoon)

Mirticeli Dias de Medeiros*

Papa Francisco é sempre atual. Com sua clareza, assume um papel que poucos conseguem desempenhar. Como dizia meu professor de filosofia da história, “esse papa argentino é inegavelmente um filósofo da história”. A história da salvação passa pelas vicissitudes da nossa história, muitas vezes, repleta de altos e baixos. A questão é não voltarmos àquele “estado da barbárie” cuja inclinação ao retorno está presente em todas as civilizações, como nos alertou Vico, no século 17. E Francisco tem tentado evitar isso. Quem tem compreendido a sua mensagem?

As reflexões do atual pontífice o transformam num dos líderes mais prestigiados da atualidade. E não é só por causa do carisma que contagia pelos quatro cantos. É aquele espírito de liderança que poucos têm. Considerado um “inconsequente”, ele consegue até tirar proveito desses “deslizes de linguagem”, às vezes. E outra vezes - na maioria delas -  acerta em cheio e pega todos de surpresa. É aquela espontaneidade que nos faltava.

“O uso das armas nucleares é imoral - isso deveria ir para o catecismo da Igreja Católica -  e não somente o uso, mas quem a possui. Porque um incidente pode acontecer quando se possui. A loucura de qualquer governante, a loucura pode destruir a humanidade”. Esse foi o desejo que papa Francisco expressou aos jornalistas no voo que o trazia de volta para Roma após a conclusão de sua histórica viagem ao Japão e à Tailândia, no último dia 26.

Isso mesmo, papa Francisco chama de loucos aqueles que promovem as guerras. Certamente, a mensagem serve para aqueles que as instigam. O que diria papa Francisco de tantos cristãos que, atualmente, canonizam e promovem governos que vêm no belicismo a solução de todos os problemas? Ou daqueles que instrumentalizam o ensinamento da igreja sobre a legítima defesa, mais uma vez apontada pelo papa como o último recurso em situações de risco?

A instrumentalização da doutrina cristã é uma bomba cuja potência devasta populações inteiras. A fé é a reduzida a pó num piscar de olhos. A tragédia de Hiroshima e Nagasaki, como bem frisou Francisco, começou com um discurso de ódio: uma polarização que se materializou. E alertou para o caos vivido na América Latina, lamentando que podemos estar na iminência de uma guerra civil. E do jeito que vamos, não é difícil que a catastrófica profecia pontifícia se cumpra.

E voltamos a falar de filosofia da história. Precisamos de mais pensadores como esse papa, o profeta nas vestes de um grande influenciador do bem. O profetismo, na visão de Bento XVI, é a atitude de quem, olhando para o presente, dá respostas capazes de construir um futuro. E Francisco é mestre nisso. O problema está nos receptores da mensagem, que se recusam a ouvir essa voz que clama no deserto. Esperemos que não seja tarde demais, sobretudo quando estivermos diante dos espólios de uma civilização que suicidará por causa de sua própria loucura.  Que Deus nos livre.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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