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29/11/2019 | domtotal.com

Enciclopédia da Ignorância

Em cenário nacional repleto de falsos profetas, pastores e gestores, de cínicos salvadores da pátria

Pensando bem, estamos mais para a Enciclopédia da Ignorância, ou não?
Pensando bem, estamos mais para a Enciclopédia da Ignorância, ou não? (Reprodução / Internet)

Eleonora Santa Rosa*

Em dias de surpreendente despudorada exibição de preconceito racial, inveja infinita, tacanhice avassaladora, simploriedade acachapante, virulência verbal crescente, assédio moral e sexual à mancheia; em cenário nacional repleto de falsos profetas, pastores e gestores, de cínicos salvadores da pátria, de falsários, de intelectuais de araque, de delatores perversos e usurpadores de plantão, de malandros, picaretas e preguiçosos, de presunçosos, despreparados e arrogantes de prepotência estarrecedora, lembrei-me de um artigo de Augusto de Campos, um dos mais fundamentais e importantes poetas, ensaístas, artistas e criadores de nosso país –  quando do Brasil não sentíamos vergonha, pelo menos não de todo, autor de obra tanto intensa quanto extraordinária, crucial no campo da cultura brasileira nos últimos sessenta anos. O texto intitulado Dialética da Maledicência (1985), uma carta-resposta ao professor e crítico Roberto Schwarz, integra seu livro À Margem da Margem, reunindo artigos selecionados entre 1963 e 1987.

Tomo a liberdade de extrair apontamentos, registros e citações feitas por Augusto nessa obra tão preciosa e atemporal, embora, por suposto, o contexto específico refira-se a assuntos de contendas poéticas que, no entanto, podem ser transpostas para o momento presente, como se segue:

“Já dizia Antônio Vieira: 'Como temo que os condenam as cousas novas são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas e pode ser que muito remendadas'.

“Antes você pratica aquela crítica que Fernando Pessoa tem como “a forma suprema e artística da maledicência”... Uma crítica que consiste em espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que nosso tédio se vá esvaindo”...

A carta-resposta traz em sua parte final dedicada “Ah, a banalidade da poesia!” uma série de jocosos maldosos comentários de críticos em relação a poetas, escritores consagrados, referenciados no 'Tolicionário' de Flaubert – segundo tomo de Bouvard e Pécuchet – a Enciclopédia da Estupidez Humana, aliás, título este bem apropriado ao que hoje assistimos, ouvimos e somos obrigados a aturar, muitas vezes, por dever de ofício.

Pensando bem, estamos mais para a Enciclopédia da Ignorância, ou não?

*Jornalista

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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