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29/11/2019 | domtotal.com

Bolívia dá guinada radical e retoma relações com Israel rompidas desde 2009

A ideia do governo transitório de Jeanine Áñez é 'retificar todo o mal que fez o governo anterior'

Chanceler Karen Longaric em coletiva com a imprensa estrangeira
Chanceler Karen Longaric em coletiva com a imprensa estrangeira (AFP)

O governo provisório da Bolívia deu uma guinada radical na "política externa extraviada" da administração Evo Morales, ao anunciar que seu país restabeleceu relações com Israel, rompidas desde 2009, e que quer estreitar os laços com os Estados Unidos.

A ideia do governo transitório de Jeanine Áñez, que assumiu por sucessão constitucional, após a renúncia em 10 de novembro de Evo Morales, asilado no México, é "retificar todo o mal que fez o governo anterior", disse a chanceler Karen Longaric em coletiva com a imprensa estrangeira.

"O menos que se podia esperar deste governo era retificar a política externa, uma política externa extraviada e que não atendia aos interesses próprios do Estado e era altamente ideologizada", afirmou.

Israel

No afã de refazer a política de Morales, que governou durante cerca de 14 anos, Longaric anunciou o restabelecimento de relações com Israel, cinco anos depois da ruptura por causas políticas.

Seu contraparte israelense, também provisório, Yisrael Katz, acolheu "com satisfação" esta decisão.

Desde que assumiu o poder, há duas semanas, Áñez rapidamente buscou se diferenciar da política externa de seu antecessor: distanciou-se de Cuba e Venezuela, aliados políticos de Morales, ao expulsar 725 médicos cubanos e reconhecer Juan Guaidó como presidente encarregado da Venezuela após romper relações com Nicolás Maduro.

Relações com os EUA

A Bolívia se propõe a "fortalecer as relações com os Estados Unidos", para o que designou na terça-feira o embaixador Oscar Serrate. O governo transitório foi reconhecido por Donald Trump.

Em 2008, Morales expulsou o então embaixador americano, Philip Goldberg, acusando-o de apoiar um movimento de direita que supostamente pretendia dividir a Bolívia. Washington expulsou, em reciprocidade, o representante de La Paz. Depois, o ex-chefe de Estado boliviano também expulsou do país a agência antidrogas DEA e o organismo de cooperação Usaid.

Durante a crise diplomática, os Estados Unidos colocaram a Bolívia em uma lista de países que não cumpriam com seus compromissos de luta contra o narcotráfico e em 2014 retirou o país do programa de benefícios comerciais e alfandegários ATPDEA, na sigla em inglês.

China e Rússia

Ao mencionar as relações com China e Rússia, parceiros comerciais da Bolívia durante o governo de Morales, Longaric disse, por sua vez, que cabe "fortalecê-las", mas também reconduzi-las, redirecioná-las e zelar pelos interesses do país, protegendo os recursos naturais.

Com a China, que desenvolve no país negócios como a mineração e a construção civil, a Bolívia mantém um déficit comercial que no ano passado alcançou US$ 1,617 bilhão. Pequim lhe concedeu, ainda, um crédito de US$ 10 bilhões.

La Paz assinou recentemente um acordo com a empresa chinesa Xinjiang Tbea Group-Baocheng para a construção de oito usinas de lítio nas salinas bolivianas de Coipasa e Pastos Grandes, com um investimento de US$ 2,39 bilhões. Em fevereiro passado, conseguiu certificar suas reservas de lítio de 21 milhões de toneladas.

O país desenvolve também com a Rússia vários projetos com a Gazprom, que assumiu a exploração de pelo menos dois mega-campos para avançar na troca da matriz energética de toda a sua frota de ônibus públicos, de diesel a GNL e GNV. Também trabalha em um projeto para um complexo de energia atômica com fins medicinais e agroindustriais, que desencadeou uma forte oposição na Bolívia.

México

Longaric descartou que seu país vá romper relações diplomáticas com o México devido à negativa de entregar dois ex-ministros do governo Evo Morales asilados na embaixada mexicana e acusados pela Justiça de terrorismo e sedição.

"Não acho que este 'impasse' sobre os asilados políticos chegue a esse extremo", disse Longaric em relação à negativa mexicana de dar cumprimento ao pedido da procuradoria boliviana de que entregue os ex-ministros Juan Ramón Quintana e Vilma Alanoca.

Sobre Quintana, ex-titular da Presidência e braço direito de Morales, apesar de uma ordem de prisão por "sedição, instigação pública para delinquir, terrorismo e financiamento ao terrorismo"; e sobre Alanoca, de Cultura e Turismo, por "instigação para delinquir".

Morales renunciou em 10 de novembro, após várias semanas de violentos protestos desatados por sua vitória nas eleições presidenciais de 20 de outubro e que a oposição e a OEA tacharam de fraudulentas. Desde então, na Bolívia morreram 33 pessoas.

Segundo Longaric, "a atitude do governo do México vai se suavizando e ele vai compreender que efetivamente pesam sobre alguns asilados acusações muito sérias sobre crimes muito graves".

"Em caso de que se recusem a entregar pessoas com crimes comuns seria um problema muito grave para eles e incômodo para nós", acrescentou.


AFP

EMGE

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