Cultura

29/11/2019 | domtotal.com

Nomeações na Cultura de Roberto Alvim acentuam perfil mais conservador

Segundo produtores culturais, mudança pode dificultar aprovação de projetos considerados mais ousados

Roberto Alvim, o novo secretário da Cultura
Roberto Alvim, o novo secretário da Cultura (Ronaldo Caldas/ASCOM/Ministério da Cidadania)

As mudanças promovidas pelo secretário de Cultura, Roberto Alvim, em sua pasta acentuaram o perfil mais conservador para a área, o que colocou produtores de conteúdo em alerta.

"Projetos que tratam de assuntos como diversidade cultural ou mesmo que tenham artistas trans terão mais chances de serem vetados com essa nova administração", comentou um poderoso produtor, sob a promessa de anonimato. "Além da dificuldade em conseguir aprovação para as leis de incentivo, esse mesmo projeto terá dificuldade em obter patrocínio, pois muitas empresas temem associar sua marca a produtos que não agradam ao governo."

O comentário refere-se principalmente à mudança na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, órgão que dita as diretrizes gerais dos mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet. O novo responsável é Camilo Calandreli, professor e cantor de ópera e um dos fundadores do Simpósio Nacional Conservador de Ribeirão Preto. "Ele é do meio artístico, entende dos problemas da área, mas têm uma visão conservadora, o que deverá refletir na escolha de projetos com conteúdo mais conservador", continua o produtor.

Calandreli é um dos nomes anunciados oficialmente na quinta-feira (28), pela Secretaria da Cultura, agora vinculada ao Ministério do Turismo. Todos são mais alinhados com o perfil ideológico cristão e conservador de Alvim que, por sua vez, é coerente com o pensamento do presidente Jair Bolsonaro – antes, era um perfil mais técnico que definia a escolha dos nomes.

Assim, além de Calandreli, outros nomes tomaram posição: Katiane de Fátima Gouvêa é a nova secretária do Audiovisual; o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo é o novo presidente da Fundação Palmares, órgão responsável pela promoção da cultura de matriz africana; Janicia Ribeiro Silva, nova secretária de Diversidade Cultural, está ligada a uma empresa chamada Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios; o doutor na área econômica Reynaldo Campanatti Pereira assume a secretaria da Economia Criativa.

Katiane é membro da Cúpula Conservadora das Américas que já pregou, entre outras questões, a promoção de filmes que destaquem valores patrióticos e de preservação da família – ela também esteve ligada a um documento que incentivou Bolsonaro a extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Já o novo presidente da Fundação Palmares utilizou as redes sociais para divulgar opiniões polêmicas, como atacar o movimento negro e minimizar o racismo no Brasil, considerado por ele como "nutella": "Racismo real existe nos EUA. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda", escreveu Sérgio Camargo, que defendeu ainda a extinção do Dia da Consciência Negra ("É uma vergonha e precisa ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem.").

Tais comentários repercutiram entre partidos políticos. O PSOL, por exemplo, apresentou uma representação na Procuradoria-Geral da República a fim de solicitar a anulação da nomeação de Camargo. No documento, o partido alega que a nomeação é "absolutamente antijurídica e contrária ao interesse público, uma vez que sua trajetória, historicamente, é radicalmente contrária aos interesses que a Fundação busca defender".

Também contrária à nomeação do jornalista colocou-se a Fraternidade Universalista da Divina Luz Crística, que abriu um abaixo-assinado, na manhã de quinta-feira (28), pedindo a anulação da nomeação – até o meio-dia, já havia mais de 20 mil assinaturas.

O presidente Jair Bolsonaro se esquivou de perguntas sobre as bandeiras defendidas por Camargo e disse, nesta quinta (28), que não o conhece pessoalmente.

Demissões

Deputados governistas procuraram o Palácio do Planalto para reclamar que indicados políticos tinham sido demitidos. Na lista de dispensa, estão nomes ligados ao MDB, Republicanos (antigo PRB) e PP.

As queixas de deputados em relação às demissões promovidas por Alvim chegaram principalmente à Secretaria de Governo, comandada pelo ministro Luiz Eduardo Ramos, responsável pela articulação política do governo.

A avaliação no Palácio do Planalto é a de que as demissões não são pontuais, mas "lineares", atingindo os principais cargos. Segundo um interlocutor do presidente, o clima é de "terra arrasada". O assessor se disse apreensivo com o nível de reclamação de aliados e com o tipo de impacto que as insatisfações poderão ter em votações que estão em andamento no congresso.

As dispensas de Alvim não tem poupado nem mesmo indicados por vice-líderes do governo na Câmara. Também procurado para ouvir as reclamações, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, a quem a Secretaria de Cultura passou a ser subordinada, disse a parlamentares que não tem como intervir nas demissões.

Segundo auxiliares, Bolsonaro está disposto a "desaparelhar" a área da cultura. Quando nomeou Alvim, ao ser questionado sobre as mudanças que seriam feitas na pasta, o presidente afirmou que daria "porteira fechada para ele", em referência à autonomia dada ao novo secretário para nomear sua equipe.

Desde que assumiu, no início do mês, Alvim já trocou o comando de oito órgãos, incluindo as principais secretarias subordinadas à Cultura. A expectativa é a de que mais demissões de apadrinhados políticos ocorram nos próximos dias.

O Estado apurou que no governo é dada como certa a demissão da presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Kátia Bogéa, que ocupa o posto desde 2016 e é ligada ao ex-presidente José Sarney, cacique do MDB. Procurada pela reportagem, ela disse que não havia sido informada sobre uma eventual saída do cargo até a noite de quinta-feira (28). "Sou uma técnica", afirmou ao jornal, negando ser uma indicada de Sarney.

Em carta encaminhada na quinta-feira ao presidente Jair Bolsonaro, o deputado Hildo Rocha (MDB-MA) defendeu a permanência de Bogéa no cargo e enalteceu o trabalho da aliada à frente do Iphan. A carta foi enviada em nome da Frente Parlamentar em Defesa do Patrimônio Histórico e Nacional, presidida por Rocha.

O deputado disse que articulou o documento a favor de Bogéa para mostrar ao presidente que ela faz uma boa gestão, mesmo com recursos escassos. "Em time que está ganhando não se mexe", disse Rocha.

Além do MDB, o DEM e o PSL também têm cargos no Iphan. Como mostrou o Estado no fim de setembro, após derrotas no congresso e com receio de novos reveses, o Palácio do Planalto decidiu abandonar o discurso que pregava o fim do loteamento de cargos para obter apoio a projetos no Legislativo.

Os cortes também atingiram a área militar. Oficial da reserva da aeronáutica, Paulo Edy Nakamura deixou a secretaria de Difusão e Infraestrutura Cultural, mas a tendência é que ele seja nomeado para outro cargo do governo.

Questionado na quinta sobre as críticas à indicação do novo presidente da Fundação Palmares, Bolsonaro desviou do assunto. "Tem de perguntar ao Alvim", afirmou. O secretário não quis comentar as demissões.


Agência Estado

EMGE

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