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02/12/2019 | domtotal.com

O turismo que não quero fazer

Assim prefiro o 'observador' e não o turista, aquele que anda ou não em grupo e vocifera sem vergonha sua ignorância ostentação

Toda essa volta que dei no texto é para justificar o meu horror supremo ao turista médio brasileiro
Toda essa volta que dei no texto é para justificar o meu horror supremo ao turista médio brasileiro (Pixabay)

Ricardo Soares*

Outro dia em um filmeco bem filmeco mesmo, uma das cenas mostrava um planador ou um drone chegando a uma praia de Miami e seus prédios, casas, shoppings, todo aquele parque de diversões que provoca orgasmos na brasileirada deslumbrada. Despeitado ou não, me vi feliz por não conhecer a cidade e nem ter o menor interesse nisso. 

De tanto deglutirmos imagens desde sempre desse balneário americano, acho que já conheço de cor e salteado sua arquitetura, usos e costumes. Minha afirmação contém fartas doses de reducionismo, mas é assim que me sinto. Desmotivado com Miami, Orlando, Cancún, Disney, Bahamas e até Nova York, que na traição de algumas elegantes (para aqui lembrar um velho livro de Rubem Braga) é um lugar indispensável de se conhecer antes de morrer. Essas elegantes recitam com indisfarçável orgulho endereços chics onde comer e beber em Manhattan. Gente, que sono me dá isso!

Posto esse meu rancor de “pobrão” latino-americano avesso a destinos ianques, reforço o mote da crônica que é o turismo que não quero fazer. Até porque o turista antes de tudo é um chato querendo achar nos destinos que visita usos e costumes de sua terra natal. Turista é predador, predatório, consumista, alienado e olha que, nesse caso, a quase generalização é precisa. Assim prefiro o “observador” e não o turista, aquele que anda ou não em grupo e vocifera sem vergonha sua ignorância ostentação. Até se orgulha dela. Vou contar um caso recente.

Em julho desse ano, tempo agradável e fome em riste, estava numa das bordas do Jardim de Luxemburgo, em Paris, e me aproximei de um quiosque pra pegar uma água e um sanduíche supostamente vegano. Na minha frente, percebo um sujeito tentando se comunicar deseducadamente com a atendente francesa. Indeciso, confuso e arrogante, tinha a seu lado um insuportável garoto mimado que gritava por um sorvete que o pai não tinha pedido. Sua lista era imensa e ele a bradava num paulistano típico com alguns arremedos de tosco inglês. Foi quando atrás de mim colou um parrudinho com sua namorada. Ele também flagrantemente paulistano. Eu diante de um quiosque de sanduíches ensanduichado por dois parvos conterrâneos, que, agora juntos, tentavam se comunicar com a paciente atendente francesa. Foi quando o parvo atrás de mim comentou em altos brados com o parvo à minha frente:

– Aqui é duro! ninguém entende a gente! E fica ainda mais difícil porque até anteontem eu estava em Londres e lá todo mundo entende inglês, disse aos risos o parvo parrudinho acompanhado em coro pela namorada parva. Depois disso, desisti de ficar na fila, fui embora e achei outro lugar menos contaminado pela ignorância brazuca pra me alimentar.

Toda essa volta que dei no texto é para justificar o meu horror supremo ao turista médio brasileiro, dos mais deseducados do planeta, muito embora, quando se mencione isso, as pessoas fiquem de cabelo em pé. Como se não quiséssemos reconhecer nossa deseducação. Com a superpopulação, os destinos turísticos do mundo são cada vez mais concorridos. Concorridos, banalizados, canibalizados. Está difícil até de procurar destinos excêntricos e razoavelmente baratos. Porque, para estar lá fora mal acompanhado de conterrâneos deseducados, é de lascar. Por isso há turismos que não quero mesmo fazer. Antes só que mal acompanhado.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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