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02/12/2019 | domtotal.com

Um senhor programa na TV

Nos dias atuais, um dos raros programas que não perco de jeito nenhum é o Sr. Brasil, da TV Cultura

Rolando Boldrin, por meio de seu programa, é um dos poucos a trazer música, músicos e intérpretes de qualidade até à sala da gente
Rolando Boldrin, por meio de seu programa, é um dos poucos a trazer música, músicos e intérpretes de qualidade até à sala da gente (Divulgação/TV Cultura)

Afonso Barroso*

Se gosto de televisão? Tem hora que sim, tem hora que não. Mais não do que sim. Vejo jogos de futebol e vôlei. Vejo, no canal Viva, as reprises da Escolinha do professor Raimundo, cuja sala de aula nos traz, além do criador Chico Anysio, alguns dos melhores comediantes de todos os tempos, como o grande Zé Vasconcelos. Do arremedo que fizeram, com o nome de Nova escolinha, talvez goste quem não vê a original. É lastimável.

De vez em quando vejo filmes, preferencialmente os infantis, os água-com-açúcar, bangue-bangues e comédias. Tentei algumas novelas, mas desisti logo nos primeiros capítulos, por serem, na maioria das vezes, inverossímeis e cansativas. Não há mais Roque Santeiro, Rei do gado, O bem-amado, para citar as que consegui ver até o fim. De séries da TV brasileira, vi Carga pesada.

Nos dias atuais, um dos raros programas que não perco de jeito nenhum é o Sr. Brasil, da TV Cultura. Criado e apresentado nas manhãs de domingo por um dos artistas mais antigos, completos e talentosos do país, o octogenário Rolando Boldrin, esse programa é um dos poucos a trazer música, músicos e intérpretes de qualidade até à sala da gente. É tudo agradável nesse espaço de uma hora, até mesmo os “causos” que o apresentador, sempre muito engraçado, costuma repetir diversas vezes.

Boldrin tem um bordão (boldrão?) que usa regularmente e é muito apropriado para o tipo de programa que comanda. Diz que o objetivo é “tirar o Brasil da gaveta”. Refere-se a verdadeiros talentos ainda desconhecidos do público, que não aparecem por não terem oportunidade nas grandes redes de rádio e televisão. Por isso, permanecem na gaveta, de onde Boldrin os tira para apresentar no seu programa. Lembro que graças a ele fico conhecendo ou revejo cantores, compositores e instrumentistas de altíssimo nível, como Vander Lee, o violeiro Miltinho Edilberto, as cantoras Mônica Salmaso, Titane e Bruna Moraes, o incrível poeta cearense Jessier Quirino, o também nordestino João Fênix – este, um tenorino adulto, verdadeiro fenômeno vocal, e muitos outros a quem a televisão tradicional e discriminatória não oferece espaço.

E não é só isso. Boldrin também costuma tirar do ostracismo artistas que o Brasil trancou na gaveta do esquecimento. Outro dia, por exemplo, ele levou ao programa o compositor e cantor Peninha, um dos talentos esquecidos da música brasileira. Foi emocionante ouvir a plateia inteira cantando com ele composições como Sonhos, que fizeram sucesso há décadas.

De minha parte, fico pensando em um punhado de “artistas” que, ao contrário, precisavam ser trancafiados na gaveta. São, na maioria, os chamados sertanejos universitários, autores e intérpretes de musiquinhas as mais fuleiras e sem qualquer compromisso com a qualidade poética ou musical. Ficam ricos com a pobreza melódica e letras indigentes com que conquistam as imensas plateias de segunda classe que se contentam e se extasiam com o inútil, sem noção do que seja arte ou qualidade estética.

Pensando bem, meus caros amigos e amantíssimas amigas, esses “artistas” deviam ser confinados não numa gaveta, mas em prisão perpétua. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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