Brasil Cidades

01/12/2019 | domtotal.com

Será que aprendemos com o que lemos?

Não seria de se esperar que com tamanha divulgação dessas informações, experiências e conhecimentos, o mundo fosse bem melhor?

Será que seus neurônios não estão convenientemente operantes, ou, quem sabe, não acreditaram numa só palavra do que viram ou ouviram, divulgando-as só por modismo?
Será que seus neurônios não estão convenientemente operantes, ou, quem sabe, não acreditaram numa só palavra do que viram ou ouviram, divulgando-as só por modismo? (Pixabay)

Evaldo D' Assumpção*

Tenho séria dúvida, e para ela não encontrei resposta: de que valem os textos escritos e palestras feitas por pessoas conhecedoras dos assuntos apresentados, especialmente sobre comportamentos ou valores essenciais? Explico a razão do meu questionamento: leio jornais, revistas e muitos livros, onde diferentes autores escrevem, com base numa bem sedimentada experiência, sobre questões bastante relevantes. Observo inúmeras pessoas lendo tais textos, recomendando-os para amigos, compartilhando-os freneticamente, pelas redes sociais.  

Não seria de se esperar que com tamanha divulgação dessas informações, experiências e conhecimentos, o mundo fosse bem melhor? Contudo, percebo que boa parte das pessoas que alardeiam a importância do que leram, comportam-se de modo diametralmente oposto ao que deveriam ter aprendido. Mas, quase sempre, parece que nunca leram nada do que dizem e propagam, ou, se leram, não entenderam quase nada. Ou, absolutamente nada. Será que seus neurônios não estão convenientemente operantes, ou, quem sabe, não acreditaram numa só palavra do que viram ou ouviram, divulgando-as só por modismo, ou vício whatsappiano.

Fazendo parte de um grupo de escritores, que com frequência escreve sobre temas para reflexão, conscientização e amadurecimento, confesso que muitas vezes fico desanimado de continuar escrevendo. Talvez se me dedicasse somente às boas leituras, seria bem mais gratificado do que multiplicando minhas páginas escritas. Mas, quando vejo que pelo menos algumas pessoas me falam do muito que se beneficiaram pelo que escrevi e publiquei, é como um bálsamo que atenua o meu desânimo. Especialmente porque, escrever, para mim é muito prazeroso. 

Que fique bem claro que não estou em busca de loas nem de aplausos, mas como uma pessoa que se acredita normal, sempre gosto de ter bons resultados em tudo o que faço. Um lavrador não ara a terra, a semeia e aduba, sem esperar que ela produza fartos e bons frutos.

Mas, ainda assim, fica no ar a pergunta: será que as pessoas realmente aprendem ou aproveitam alguma coisa do que leem? Para encontrar uma resposta, passei a observar melhor, alguns comentários que fazem. Não somente aos meus textos, mas aos de vários outros autores, que publicam em locais que acolhem a opinião dos leitores. 

Aliás, acredito que deveria existir, em todos os meios de comunicação, a possibilidade dos leitores fazerem comentários e críticas ao que foi publicado. Infelizmente, a maioria é fechada a isso. Alguns, até possuem esse espaço para o leitor, contudo severamente censurado, somente publicando o que for elogioso aos editores, ou aos escritores da casa. Críticas, nem pensar! Felizmente, onde publico meus artigos, existe esse espaço, e é democrático. Mas, voltemos aos retornos.

Sempre que eles existem, gosto de ler as opiniões que chegam, verificando, com assustadora frequência, que certas críticas feitas ao autor e suas ideias, são expressadas de uma maneira que considero esquizofrênica. Ou seja, quem retruca – às vezes até agressivamente –, ou não entende nada do assunto apresentado, ou só fez uma fantasiosa “leitura dinâmica”, coisa que nunca aprendeu a fazer, mas acha que o sabe. E não entendendo nada do que o autor disse, contesta, bem ao estilo de quem “ouviu o galo cantar, mas não sabe aonde”, próprio dos “achologistas” de plantão. Afinal, “leitura dinâmica” é uma coisa séria, mas de difícil execução, pois exige aprendizado adequado e treinamento constante.  

Para os não sabem, explico: a leitura dinâmica é uma técnica de leitura bem mais rápida do que o usual, contudo sem perda de compreensão do texto. Pelo contrário, por abarcar as informações quase que em bloco, alcança melhor entendimento do seu conteúdo. Essa forma de leitura teve início em 1946, com a professora Evelyn Wood, uma educadora e empresária americana, que desenvolveu o método, permitindo uma leitura eficiente, de até mil palavras por minuto. Para se perceber o que é isso, basta saber que a leitura comum, da maioria das pessoas, alcança de 200 a 230 palavras por minuto. Na leitura dinâmica, o praticante treina diariamente para superar os obstáculos que tornam a leitura lenta e pouco efetiva. 

Um dos principais é o “déficit de atenção”, provocado por devaneios constantes; desorganização no ato de ler; interrupções constantes, mau hábito de sempre adiar suas tarefas; memorização fraca; e estado de fadiga. Tudo isso contribui para retardar a leitura e diminuir sua compreensão. Portanto, só quem tem conhecimento e boa prática desse método, é quem deve fazê-lo para bem aproveitar a sua leitura. Já os leitores comuns, que pretensiosamente dizem ter “feito uma leitura dinâmica” de determinado texto, na realidade apenas passaram os olhos sobre ele, tirando conclusões apenas repetitivas do seu próprio modo de pensar. Sem consciência crítica e sem assimilação do que o autor realmente disse. 

Em seguida, do alto de sua pretensiosa sapiência, despejam críticas, deixando de lado informações e explanações que poderiam ajuda-los, e muito, no seu crescimento emocional e intelectual. O que certamente iria propiciando-lhes melhor qualidade de vida. Talvez seja essa a explicação para tantas coisas interessantes, e por vezes de ótima qualidade, serem publicadas sem que sejam adequada e atenciosamente lidas e bem assimiladas por boa parte dos leitores.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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