Cultura Literatura

30/11/2019 | domtotal.com

O Rio de Janeiro como palimpsesto

Pesquisador Bruno Carvalho conta dois séculos de história em 'A cidade porosa', evidenciando as transformações de espaço e tempo na capital

Vista do Rio de Janeiro no fim do século 19
Vista do Rio de Janeiro no fim do século 19 (Marc Ferrez/Biblioteca Nacional)

Jacques Fux*

Em seu livro, As cidades invisíveis, Italo Calvino ficcionaliza a “verdadeira história” – a de que, durante século 13, o mercador Marco Polo chegou ao Extremo Oriente e conheceu a capital do império de Kublai Khan: Cambaluc, atual Pequim, e por lá trabalhou como consultor diplomático durante 17 anos – imaginando uma narrativa e uma conversa fabulosa entre o viajante e o famoso imperador dos tártaros. A ideia de Calvino é encantadora e filosófica: mesmo com todo poder e dinheiro, Khan viveu uma vida melancólica por não ter visto/vivenciado todas as maravilhas dos seus domínios. Por conta disso, Calvino coloca seu personagem Marco Polo para descrever, fabular e confabular as surpreendentes cidades do mundo afora totalmente “invisíveis” aos olhos do imperador, mas tão presentes e vívidas quanto qualquer outra.

Bruno Carvalho, professor titular de literatura na Universidade de Harvard, nos presenteia com mais uma dessas maravilhosas cidades em seu livro Cidade porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. Bruno assume o papel de um Marco Polo contemporâneo, historiador robusto e pesquisador crítico e sóbrio – porém, sem nunca perder a poética do resgate da memória oral e escrita, da nostalgia e da flânerie do passado, da beleza e da tempestade que o palimpsesto das ruínas sobre ruínas benjaminianas do Rio de Janeiro nos desperta.

O autor nos coloca na posição privilegiada, e ao mesmo tempo restrita, de Kublai Khan: ficamos curiosos acerca do passado e da invenção/reinvenção de uma cidade tão repleta de ambiguidades; ansiosos por compreender como esse lugar se tornaria o “Rio 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”; e desnorteados diante do contraste dos belos textos de Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, dos sambas de Jacob do Bandolim, das poesias ardentes de Vinicius de Morais, e da lembrança do assassinato de Marielle Franco e o brutal esquartejamento do jornalista Tim Lopes. Atônitos, nos questionamos: como teríamos chegado a esse presente, tão repleto de dissonâncias e absurdos? Bruno nos responde: “Se há uma lição recorrente na história das cidades, é a de que o presente é sempre prova irrefutável da imprevisibilidade do futuro”.

Na cadência de um samba lúcido, o pesquisador carioca nos apresenta os encantos e o caos, focando suas pesquisas – e seu novo e disruptivo conceito de “cidade porosa” – no surgimento, nas mudanças e na degradação de um dos bairros medulares do Rio: a Cidade Nova. “No contexto da história urbana do Rio, a Cidade Nova foi, ao mesmo tempo, repleta de particularidades e representatividade da cidade como um todo. O período pelo qual desempenhou esse duplo papel vai da década de 1810, quando o bairro foi criado por um decreto real, até o momento em que a monumental Avenida Presidente Vargas determinou a destruição de seu núcleo, nos anos 1940. Se formos nos ater aos grupos sociais associados à região, ou que lá estabeleceram alguns de seus marcos históricos, veremos que a Cidade Nova foi habitada por ciganos, nativos africanos de múltiplas etnias, escravizados, fugidos e alforriados, afrodescendentes e judeus asquenazes, além de imigrante pobres das áreas rurais do Brasil e da Europa Ocidental, principalmente de Portugal, Itália e Espanha. Dos encontros propiciados por esse ambiente urbano, possível talvez apenas nas Américas durante um período de intensa diáspora transatlântica, surgiram alguns dos gêneros musicais (maxixe, choro, samba) definidores da identidade nacional brasileira do século 20 e além.”

No texto “Imagens do pensamento”, Walter Benjamin, ao falar da cidade de Nápoles, constrói uma ideia de cisão, porosidade e interrupção de corpos e dos diversos tempos e espaços. O percorrer das histórias na cidade italiana nos fornece, de acordo com Benjamim, uma ideia de porosidade – incompletude, improvisação, inacabamento: “Construções e ações se entrelaçam uma à outra em pátios, arcadas e escadas. Em todos os lugares se preservam espaços capazes de se tornar cenário de novas e inéditas constelações de eventos”.

Para ampliar o conceito de “porosidade” de Benjamim e aplicar à Cidade Nova, Bruno nos apresenta primeiramente a ideia aplicada do palimpsesto: “poucas imagens são tão adequadas quanto a do palimpsesto para dar ideia das complexas camadas que constituem nossas cidades contemporâneas. Combinando o grego pálin (novamente) e psáo (eu raspo), o palimpsesto designa um manuscrito no qual o primeiro texto é raspado, permitindo que o pergaminho ou tabuleta de argila seja usado para uma nova escrita. Os palimpsestos são férteis metáforas nos campos da arquitetura, da arqueologia, da astrofísica, da ciência forense, da psicanálise, da geologia e da crítica literária, e, de forma semelhante, povoam o imaginário de teóricos e historiadores do urbanismo.

Os espaços urbanos são como palimpsestos num sentido palpável, físico: à medida que uma cidade passa por reformas ou desenvolvimentos, seus sinais visíveis, tangíveis – prédios, ruas, parques, árvores –, são demolidos ou removidos para dar lugar a novos. Mas o passado nas cidades, assim como em manuscritos reutilizados, pode se fazer presente mesmo tendo sido descartado da superfície aparente. Dessa forma, os palimpsestos proporcionam uma metáfora sugestiva para enriquecer nossas reflexões sobre qualquer metrópole do século 21, especialmente aquelas dizimadas e reconstruídas devido a guerras, desastres naturais e reformas em grande escala”.

Assim, como um amálgama entre o palimpsesto e a teoria de Benjamim, Bruno exibe um Rio poroso: “as relações entre o passado poderiam ser descritas como porosas: cheias de passagens, interpenetrações, limites movediços, resíduos e prelúdios. (...) essa metrópole sem um passado de fronteiras étnicas definidas, uma cidade permeada por uma história de limites frequentemente fluidos entre a ordem e a desordem, o popular e o erudito, o preto e o branco, a paisagem natural e a urbana, o público e o privado, o sagrado e o profano, o centro e a periferia”. A bela cidade, ao mesmo tempo visível e invisível de Bruno Carvalho – que agora se apresenta justificadamente porosa –, não é compacta e nem tampouco rígida, mas perfurada, areada e arejada por antípodas, paradoxos e ambiguidades políticas e culturais.

Após ter ouvido sobre as muitas cidades que Marco Polo viu, imaginou, sonhou, encantou, Kublai Khan – assim como nós, leitores ávidos pela assimilação das histórias-cidades – pergunta a Marco “Bruno” Polo: “– Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?”. E ele(s) nos respondem: “– Por esses portos eu não saberia traçar a rota nos mapas nem fixar a data da atracação. Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta. Se digo que a cidade para a qual tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, (ora mais porosa?) você não deve crer que pode parar de procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela esteja aflorando dispersa dentro dos confins do seu império; é possível encontrá-la, mas da maneira que eu disse”. As cidades invisíveis e o Rio de Janeiro são porosos e imprevisíveis e, para compreendê-las ou apenas vislumbrá-las, sem expectativas com o futuro, presente e passado, é imprescindível a leitura do hercúleo trabalho de Bruno Carvalho.

CIDADE POROSA
De Bruno Carvalho
Objetiva
400 páginas
R$ 79,90 e R$ 39,90 (e-book)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Comentários