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02/12/2019 | domtotal.com

PMs e moradores têm versões diferentes para ação que terminou com nove mortes

Corregedoria da PM assume inquérito sobre ação desastrosa em Paraisópolis que deixou mortos e feridos

Porta-voz da PM disse que ainda
Porta-voz da PM disse que ainda "não é possível apontar que houve uma falha dos policiais" (Reprodução Globo)

Policiais e testemunhas prestam depoimento nesta segunda-feira (2) sobre a morte de nove pessoas durante tumulto após ação da Polícia Militar (PM) em baile funk na comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, na madrugada de domingo (1º), que também deixou outras 12 pessoas feridas. As versões para a confusão são diferentes.

Os policiais militares envolvidos na ação afirmam, de maneira conjunta, que um criminoso em uma moto atirou contra eles e que, na perseguição a esse suspeito, tiveram de usar moderadamente a força. No entanto, vídeos feitos por moradores mostram policiais militares fardados agredindo jovens já rendidos. As imagens, que circulam nas redes sociais, mostram chutes, pisoteamentos, tapas no rosto e uso indiscriminado de cassetetes. A cúpula da PM analisa as imagens.

Em entrevista à Rádio Eldorado, o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, disse que ainda "não é possível apontar que houve uma falha dos policiais". "Preventivamente, apreendemos as armas de todos policias e pedimos exame residuográfico", afirmou o tenente-coronel.

"É muito grave (a agressão), mas a primeira sensação que dá, não estou desqualificando o fato, que é extremamente grave, mas a sensação que temos é que não ocorre no problema do pancadão, que teve a correria das pessoas. A imagem é muito lenta e parada", avaliou Massera. Os policiais que aparecem no vídeo serão identificados para saber se estavam em Paraisópolis na madrugada de domingo (1º).

De acordo com a versão oficial, seis PMs estavam na Avenida Hebe Camargo, perto da comunidade, quando uma dupla passou de motocicleta por volta das 5h30 e atirou contra os policiais, ao serem abordados. Eles fugiram em direção à festa, que reuniu 5 mil pessoas.

Na chegada ao baile, os policiais dizem que teve início o tumulto e que os suspeitos se esconderam na multidão. Isso teria feito com que participantes da festa, em pânico, tropeçassem e se machucassem gravemente.

Já moradores, em relatos e vídeos, acusam os PMs de agir com truculência. O governo do Estado informou que vai investigar as circunstâncias das mortes para apontar se houve excessos. "Os policiais tentaram prevenir a instalação do pancadão. Começou a (se) fazer policiamento nos arredores para evitar crimes durante o evento. Em um dos pontos, passou uma moto, em atitude suspeita", afirmou o porta-voz da PM.

Segundo Massera, os policiais pediram para eles pararem, mas os ocupantes atiraram e fugiram em direção ao baile funk. "A ação dos criminosos é que provocou o tumulto."

Sem estrutura

Há quase uma década, o Baile da Dz7 (17) acontece aos fins de semana na região de Paraisópolis. Em algumas ocasiões começam na quinta e se estendem até domingo, o que gera reclamação de moradores do Morumbi, bairro vizinho. Jovens se deslocam de diversos locais da cidade rumo ao pancadão.

"O baile funk acontece há anos na comunidade Paraisópolis, sem estrutura adequada. É preciso focar em providências para oferecer local mais adequado para a realização do evento, que acontece aos fins de semana", defendeu o tenente-coronel.

Segundo o porta-voz da PM, somente no último sábado (30) foram registrados 250 pontos de pancadão na cidade de São Paulo. "Somente neste ano, já foram 45 operações que preveniram a realização do pancadão em Paraisópolis."

Conforme moradores, esses bailes também se tornaram motivo de incômodo frequente, por causa do barulho e das aglomerações.

Presidente

O presidente Jair Bolsonaro lamentou nesta segunda-feira (29) as mortes. "Lamento a morte de inocentes", disse Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada. O governo de São Paulo informou que vai investigar as circunstâncias das mortes para apontar se houve excessos, mas o governador João Doria avisou que a política de segurança pública não vai mudar.

Relatos de agressões

A mãe de uma jovem de 17 anos relatou que a adolescente foi agredida por um policial militar durante a correria no baile funk. "Ela levou uma garrafada na região da cabeça. Levou pontos no centro da testa, em volta do olho e no queixo. Deve ter levado uns 50 pontos. Ela afirma que foi agredida por um policial e está com marcas de cassetete nas costas", conta a dona de casa, de 36 anos, que pediu anonimato.

Ela afirma que não sabia que a filha estava na festa, mas descobriu ainda na madrugada, quando recebeu ligação do posto de saúde. A família mora em Pirituba, zona norte. Segundo o relato da jovem, os participantes do baile teriam ficado cercados em ruas estreitas durante a ação policial. "Ela já tinha ido lá outras vezes, escondida. Minha filha relata que acontecia o baile e os policiais fecharam os dois lados. Eram mais de duas viaturas de cada lado. Tinha uma viela e vieram os PMs, cercaram entrada e saída. No desespero, não tinha para onde correr."

A agressão teria ocorrido quando a jovem tentou ajudar outra garota, que também estaria sendo agredida por um PM. "Ela saiu de perto do namorado e, quando foi levantar a menina, o policial 'tacou' a garrafa na cara dela. Ela ficou internada 12 horas porque fez tomografia do crânio para ver se não tinha sangramento ou fratura. Quem sobreviveu nasceu de novo."

Trancados

O dono de um bar na comunidade, que também não quis ser identificado, disse que o baile ocupava de três a quatro quarteirões. Segundo ele, os PMs apareceram uma vez e logo depois voltaram disparando balas de borracha e bombas de gás no início da madrugada. Relatou não ter visto a perseguição descrita pela PM.

Ao ver a confusão, disse, baixou a porta e acolheu oito pessoas que estavam com um "paredão" de som na frente do bar. Desligaram a luz e ficaram em silêncio por horas. Saíram só quando o dia já estava claro. Na versão da PM, porém, o episódio teria sido por volta das 5h30, quando já havia amanhecido.

O público que frequenta o bar aos sábados tem perfil diferente daquele de outros dias. Pedreiros, pintores e operários dão lugar a jovens com "paredões" de som que se proliferam em dia de baile. A festa onde houve o tumulto é a da 17, uma das maiores da região, referência a um antigo comerciante que deu início ao evento há dez anos. O baile prosperou e, aos sábados, atrai milhares em uma mistura com festas menores.

O dono do bar disse que é comum a ver a PM na área. "Às vezes são educados, chegam e pedem para fechar. Em outras, lançam bomba aqui dentro e batem nos frequentadores." Procurada, a Secretaria de Segurança Pública disse que, por ser domingo, não conseguiria apurar e se manifestar sobre relatos de supostas violências ocorridas em outros dias.

Clima tenso

Moradores têm relatado escalada da tensão em Paraisópolis após o assassinato de um sargento da PM há um mês. Segundo líderes comunitários, lá aumentaram ações policiais, com relatos de ameaças e truculência.

Nas redes sociais, moradores vinham comentando sobre possível "invasão" da PM na comunidade. "Os moradores estão com medo, e nos enviam relatos de agressões e ameaças constantes", disse Marisa Fefferman, da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio grupo que busca que dar visibilidade a casos de abuso nas periferias.

"O baile funk (aumentou) por conta da ausência do Estado, que não investe em equipamentos de lazer para a comunidade. Cresceu de forma desorganizada. O baile cresceu, mas nunca teve solução, só repressão", disse Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis. Segundo moradores, esses bailes também se tornaram motivo de incômodo frequente, por causa do barulho e das aglomerações.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública não se manifestou sobre os relatos ou o suposto elo com a morte do PM.


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