Religião

04/12/2019 | domtotal.com

Desfrute o advento e Laudato Si: O que Deus está pedindo de mim?

A Mãe Terra "é como uma irmã com quem compartilhamos nossa vida'

Estamos fundamentados em uma fé que, até certo ponto, começou no desarraigamento
Estamos fundamentados em uma fé que, até certo ponto, começou no desarraigamento (CNS/Reuters/George Frey)

Arthur Jones
NCR

Precisamos começar essa jornada do advento pela encíclica Laudato Sí, do papa Francisco, sobre o cuidado de nosso lar comum, ao lado do papa, quando começa confiando em seu homônimo, São Francisco de Assis. O papa intitulou sua encíclica inspirada no Cântico da Criação do santo: Laudato si, mi Signore ("Louvado seja você, meu Senhor"). Como o papa observa, essas são as palavras pelas quais o santo nos lembra que nosso lar comum, a Mãe Terra "é como uma irmã com quem compartilhamos nossa vida e uma linda mãe que abre os braços para nos abraçar".

Simultaneamente, e nunca antes em mais de 2 mil anos do Advento, foi tão fácil para os cristãos visualizar o que estava acontecendo na Judéia com Maria e José, durante e depois daquela jornada para Belém. A Sagrada Família está lá, nas cenas fornecidas pela televisão, os computadores, os iPads e os smartphones. Eles aparecem constantemente diante dos nossos olhos nesse tempo de natal.

Maria e José partiram de Nazaré naquela difícil - certamente para Maria - caminhada de quatro dias até Belém. Existem imagens populares de Maria montada em um burro, não um pensamento particularmente feliz naquele estágio de sua gravidez. Pensa-se geralmente que o animal não estava lá como transporte; estava lá para levar seus poucos pertences, além de comida e lenha para a viagem. Talvez ela ocasionalmente se arriscasse a andar de costas para descansar as pernas, mas não era seu principal meio de transporte. Como os refugiados de hoje, ela viajou a pé.

Vimos e continuamos vendo por nós mesmos todos os elementos trágicos e traumáticos do desarraigamento. E neste momento, o papa Francisco está refletindo esse desenraizamento a través dos efeitos das ações do ser humano sobre a Terra, refletindo também a ordem natural de todos os seres vivos.

Sim, estamos fundamentados em uma fé que, até certo ponto, começou no desarraigamento – Todavia, há mais no advento do que essa tristeza. No advento vivemos a chegada antecipada e esperada da alegria do mundo.

É consternador. O que Francisco está nos dizendo, nos avisando, em Laudato si, é que é difícil, para os bilhões de pessoas na Terra, encontrar alegria no mundo – e com o tempo pode ser impossível para qualquer um de nós encontrar essa alegria em uma Terra ameaçada pela fronteira da extinção, a menos que as pessoas da Terra, particularmente as pessoas poderosas, mudem seus caminhos, mudem drasticamente e mudem logo.

Francisco está dizendo vigorosamente que aqueles que colocam em risco o planeta – aqueles responsáveis nos governos, corporações e vastas redes de comércio e extensos sistemas sem fins lucrativos com uma missão autocentrada – continuarão a levar o planeta cada vez mais perto do desastre, a menos que mudem dramaticamente seus caminhos. E assim iremos colocar o mundo em risco, a menos que mudemos nossos caminhos.

Para nos levar mais profundamente às complexidades de nossa crise ecológica, Francisco primeiro cria um conceito chamado "ecologia integral" – pois tudo está intimamente relacionado e os problemas de hoje exigem uma visão capaz de levar em consideração todos os aspectos da crise global.

Mais uma vez, o papa nos lembra que nossos desafios ecológicos são duplos, sempre contidos nessa "ecologia integral". Escreve que "dificilmente seria útil descrever os sintomas sem reconhecer as origens humanas da crise ecológica. Uma certa maneira de entender a vida e a atividade humana e o que deu errado, prejudicando seriamente o mundo ao nosso redor. Não devemos parar e considerar isto?"

O papa precisa de milhares de palavras para considerar essas raízes humanas da crise ecológica, alguns dos quais iremos meditar mais adiante.

Então, Francisco nos chama: "Por que esse documento, dirigido a todas as pessoas de boa vontade, deve incluir um capítulo que lida com as convicções dos crentes?" Ele responde:

Estou bem ciente de que, nas áreas da política e da filosofia, existem aqueles que rejeitam firmemente a ideia de um Criador, ou a consideram irrelevante, e, consequentemente, descartam como irracional a rica contribuição que as religiões podem dar para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento da religião e da humanidade. Outros veem as religiões simplesmente como uma subcultura a ser tolerada. No entanto, a ciência e a religião, com suas abordagens distintas para entender a realidade, podem entrar em um intenso diálogo frutífero para ambas.

Depois, acrescenta: "Neste universo, moldado por sistemas abertos e de intercomunicação, podemos discernir inúmeras formas de relacionamento e participação".

Em seguida, para ajudar-nos a centralizar, o papa coloca diante de nós a noção do patriarca ecumênico Bartolomeu da necessidade de cada um de nós se arrepender das maneiras pelas quais prejudicamos o planeta, porque na medida em que todos nós geramos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer nossa contribuição, menor ou maior, para a desfiguração e destruição da criação".

Ao mesmo tempo, diz o papa Francisco, São Francisco "nos ajuda a ver que uma ecologia integral exige abertura a categorias que transcendem a linguagem da matemática e da biologia e nos leva ao cerne do que é ser humano".

Finalmente, no que diz respeito a essas meditações, encontramos uma grande orientação no papa citando os bispos brasileiros. O papa Francisco explica que eles disseram que "o Espírito da vida habita todos os seres vivos e nos chama a estabelecer um relacionamento com ele. Descobrir essa presença nos leva a cultivar as" virtudes ecológicas".

É uma frase que esta meditação capta como seu pedido de oração para concluir cada reflexão:

Ó Deus, deixe-me cultivar virtudes ecológicas.

O que vem pela frente?

Essas reflexões, de certa forma, oferecem quatro maneiras diferentes de meditar, todas mais ou menos sobre os mesmos tópicos - embora de ângulos diferentes.

Francisco escreveu uma encíclica de 35 mil palavras. Uma meditação não é um curso de estudos. Não precisamos memorizar nada, nem aprender nada. Em vez disso, o que lemos deve ajudar a nos levar na direção a o que nosso coração, alma e mente desejam seguir e, como consequência, em direção ao Espírito.

A pergunta sempre, com efeito, é "O que Deus está pedindo de mim?" Acredite, é uma questão tão grande, que não é uma pergunta respondida rapidamente. Três das quatro semanas de reflexão, na busca da alma e pedindo ajuda a Deus, para chegar ao ponto em que nos vemos claramente no esquema de reflexões do papa, é um empreendimento do Advento.

Na quarta semana, o próprio Francisco muda o tom. Nesse ponto, talvez possamos ter mais alegria para o mundo, porque sentimos nosso novo papel em contribuir para a alegria, tentando evitar um desastre.

Tudo isso pode ser incompreensível em sua abrangência e complexidade, exceto que temos que considerar essa informação como uma espécie de bálsamo. O bálsamo é um óleo que lava sobre nós, mas parte dele permanece. Assim, as informações da encíclica e os comentários do papa se espalham por nós e parte dela permanece.

O que não precisamos fazer é tentar nos apegar a tudo. O resíduo da informação, se tivermos sorte, será a porta para a meditação daquele dia. É por isso que meditamos, para recuperar tudo sob controle.

Dado que não precisamos memorizar para meditar, a seleção de cada semana começará com uma seleção das cerca de três dúzias de seções e títulos de capítulos de Francisco – para nos impressionar novamente em como a Laudato si é abrangente. Para quem está começando, vejamos apenas um quarto da faixa:

• A sabedoria dos relatos bíblicos;

• O que está a acontecer à nossa casa;

• Poluição e mudança cClimática;

• A questão da água;

• Perda de biodiversidade;

• Deterioração da qualidade de vida humana e desagregação social;

• Desigualdade global;

• A fraqueza das respostas

• Diversidade de opiniões;

• O Evangelho da Criação.

Qualquer um desses tópicos é suficiente para refletir uma semana, mas temos um desafio que nos leva do menor organismo vivo às maiores organizações e influências humanas.

As duas primeiras semanas podem ser pesadas, se tentarmos segurar demais tudo. Separe um momento para decidir onde ou em que momento do dia em particular você ficará em companhia do papa tem um significado especial para você.

No final da terceira semana, no entanto, o tom muda significativamente. Temos uma noção do alcance e das intenções do papa – como se o estivéssemos ouvindo em uma peregrinação à igreja, e agora estamos sentados com ele na mesa do refeitório. De acompanhante e peregrino, em conversa (uma conversa bastante profunda, com certeza), a um amigo.

O papa, seja discutindo prioridades equivocadas, efeitos adversos da tecnologia ou a fraqueza das respostas ambientais até o momento, é direto, mas nunca desagradável. Em um ou dois casos, porém, ele é inflexível, e provavelmente concordemos com ele nisso.

No momento, nos juntamos ao papa ao considerar a criação, como o último item da lista acima. Como sempre, metaforicamente nos pega pela mão e nos leva à reflexão pela Terra, de seu povo e de todos os seus seres vivos - e às vezes a lugares que preferimos não ir.

*Nota do editor: Esta reflexão do advento de Arthur Jones, ex-editor e editor da NCR, foi originalmente publicada por sua paróquia, a comunidade paroquial de São Vicente de Paulo, em Baltimore. A carreira de 30 anos de Jones na NCR também incluiu cargos como chefe do departamento de Washington, correspondente diplomático, correspondente da Costa Oeste e correspondente de questões de saúde. Ele é o autor de 15 livros. Para esta série do Advento, ele deseja reconhecer a inspiração das invocações celtas da Carmina Gadelica, de Alexander Carmichael.

Publicado originalmente em: NCR


Tradução: Ramón Lara



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