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05/12/2019 | domtotal.com

Goiabeira que dá mangas

É curioso como uma cidade de nome Goiabeira não tenha sequer um pé de goiaba

O que me chama mais atenção nessa residência típica é o quintalzinho de bom tamanho, onde se podem colher com as mãos frutas diversas
O que me chama mais atenção nessa residência típica é o quintalzinho de bom tamanho, onde se podem colher com as mãos frutas diversas (Pixabay)

Afonso Barroso*

Passamos um fim de semana de quatro dias, eu e minha dona Sônia, na pequena Goiabeira, cidadezinha do leste de Minas onde mora nossa filha Anamaria e, com ela, o neto Rômulo e o pai do neto, Samuel. Boa estada. Como sempre, fomos acolhidos e tratados com amor, carinho e atenção. O neto, menino esperto de quase dois anos, que só para de correr ou fazer uma diabrura qualquer quando pega o celular, já começa a formular frases e faz a alegria da avó em tudo que apronta, sendo-lhe facultada até mesmo alguma pirraça.

Mas não é disso que quero falar, e sim do outro avô, pai do Samuel, seu João Ferreira da Silva. Tem 72 anos, um Gol 1974, quatro pinos na perna esquerda (ou é na direita?), consequência de uma queda, e a simplicidade das grandes figuras humanas que jamais respiraram outros ares que não os do mais legítimo interior mineiro. Por causa da lesão na perna, teve de vender o velho caminhãozinho que usava para carretos. O nome tem João, tem Ferreira e tem da Silva, o que caracteriza uma brasilidade ou mineiridade sem mácula.

Seu João mora numa casa ao lado. Casa simples, mas sempre bem cuidada pela mulher, dona Darci. Casa com pequeno jardim na frente e bancos na calçada, onde ele se senta à tardinha para matar o tempo, “tomar a fresca”, pensar na vida e conversar com algum amigo que por ali passe ou ali chegue, disposto a sentar-se e bater um papo sem assunto, sem pressa ou compromisso.

Foi ali, nessa mesma casa, que seu João e dona Darci criaram sete filhos. Já fizeram meio século de casados.

O que me chama mais atenção nessa residência típica é o quintalzinho de bom tamanho, onde se podem colher com as mãos frutas diversas, principalmente mangas. É curioso como uma cidade de nome Goiabeira não tenha sequer um pé de goiaba. Sim, não vi nenhum por lá. Devia chamar-se Mangueira, porque são incontáveis os pés de manga em todos os quintais e à beira das estradas.

Perguntei ao seu João a razão do nome, e ele explicou: no povoado que surgiu com os primeiros habitantes, aventureiros em busca de pedras preciosas, havia, bem no ponto central, uma enorme e única goiabeira. Foi ela que deu nome ao lugar. Só que, com o passar do tempo, aquele pé de goiaba morreu, talvez de solidão, deixando como lembrança o nome da vila. Conta-se que no lugar nasceu logo depois uma mangueira, somando-se às que já frutificavam em todos os cantos e quintais.

Como a manga é a fruta preferida de dona Sônia, fomos presenteados com um montão delas, mangas de vários modelos e sabores, colhidas pelo Samuel. Vieram conosco de trem numa enorme caixa.

Ao nos despedirmos, seu João garantiu que vai plantar no quintal um pé de goiaba. Terá de andar muito pra achar uma muda, coisa que em Goiabeira não existe. Quem sabe encontre em alguma cidade de nome Amoreira. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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