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04/12/2019 | domtotal.com

Dois frapês de côco, por favor

As vozes, de um e outro, naquele intervalo, se reiteraram num amálgama silábico de ê e ô e me lembrou um velho jongo

– O frapê acabou
– O frapê acabou (Reprodução/Internet)

Pablo Pires Fernandes*

Como sempre, não foi por acaso que Ângela e Éverton se conheceram. Tinha que ter um porquê de dois desconhecidos apoiarem o cotovelo no balcão do Café Nice e, ao mesmo tempo, pedirem um frapê de côco para a balconista Gabriela. Na verdade, não foi ao mesmo tempo. As frases foram ditas com uma diferença de menos de um segundo. As vozes, de um e outro, naquele intervalo, se reiteraram num amálgama silábico de ê e ô e me lembrou um velho jongo.

Gabi filmava tudo, intuía bem. Disfarçou a malícia de lado no sorriso enquanto depositava as duas taças de frapê de côco no balcão de fórmica. Reparou o cruzado no olhar entre Ângela e Éverton, recolheu duas xícaras – e seus pires. Cinco minutos depois, sorriu de lado de novo enquanto perguntava a Ângela e Éverton, agora devidamente em seus assentos duros de madeira, se desejavam alguma coisa.

– Café sem açúcar, disseram.

Desta vez, a voz masculina precedeu a feminina, mas o tempo entre as vogais distaram exatamente como no primeiro pedido. Café preto, frapê, branco, pensou Gabriela, antes de ouvir:

– Quente!, disseram em uníssono enquanto depositavam a xícara e aguardaram o café esfriar.

Meses depois, a balconista filmou o casal entrando de mãos dadas. Desta vez, o pedido saiu de uma única voz: dois frapês de côco, por favor, Ângela falou, apoiando o cotovelo no balcão. Pelo tom, Gabi entendeu tudo, mas teve que dizer, para Ângela e Éverton, que buscavam o sabor do primeiro encontro:

– O frapê acabou.

Sentados nos bancos do fundo, acataram a sugestão da funcionária, assentindo com um movimento de cabeça. O primeiro gole do mate gelado deixou três compassos de silêncio, interrompidos com dois aahhs!, distantes uns quatro compassos entre o grave ah dela até vir o longo ah dele.

O jogo daquela conversa era uma busca, carente, pela metade da maçã, ou da laranja, enfim, um ato de lançar uma boia ao mar na esperança de que se fisgue um tubarão. Pelo olhar de carência entre os dois, Gabriela deduziu que o namoro daqueles dois beirando os 40 anos não daria certo. E ela sabia das coisas.

Aquele filme se arrastou por anos. No início, percorreram a mesma estrada, parando em tantas coisas em comum: o nome proparoxítono, o fato de ambos terem sido considerados pelos pais – o pai dele, a mãe dela – como alguém menor e “que não daria certo na vida”, em detrimento de irmãos – dele, a irmã mais velha; dela, o mais novo.

Os anos se passavam e começaram a surgir as diferenças, que ainda causavam certo encanto à paisagem do relacionamento. Ângela era divorciada de um breve casamento e Éverton, viúvo. Ele preferia vinho e ela, cerveja.

Ao ver Éverton entrar sozinho no café, Gabriela perguntou pela companheira e soube que ela já era ex. O motivo, queriam viver juntos, mas nenhum dos dois abria mão de deixar sua casa, sua rua, seu bairro. Ângela continuou morando no Carlos Prates e Éverton, em Santa Tereza.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'



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