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05/12/2019 | domtotal.com

Por que não me chamam para as festas?

Já faz alguns dias que meus olhos coçam e que espero por boas notícias

Mora na melancolia. Pra que rimar amor e dor como diria a velha canção?
Mora na melancolia. Pra que rimar amor e dor como diria a velha canção? (Pixabay)

Ricardo Soares*

Ponho-me de pé, faço o café, reviro ovos sem manteiga, ligo o rádio e pela janela contemplo o meu tempo. Sem me vitimizar, é o tempo do meu esquecimento. Filhos arribaram asas para destinos no estrangeiro, a ilusão da eternidade passa ligeiro, mas novas plantas crescem no terreno onde antes havia uma árvore grande que fazia sombra. Nada mais contundente como metáfora.

Já faz alguns dias que meus olhos coçam e que espero por boas notícias. Sei lá, de repente um navio que está por partir, um sonho que cisma em voltar, uma passagem grátis para um destino longínquo. Me contento até com meu time campeão. Mas essa não é a razão dessa narrativa. O verdadeiro motivo é que quando se opta por certo isolamento não te convidam para as festas. Muito embora festas boas sejam cada vez mais raras. Mas se você não vai a elas não é notado. Aquele velho mote. “Quem não é visto não é lembrado”.

Meu siso não anda para sorriso. Isso é fato. Nem temos tantos motivos assim para comemorar. Mas quiçá numa festa dessas ao quebrar uma taça de encontro a outra os dedos sangrem e eu me sinta mais vivo! Ando a caça de motivos e sei que não fez o menor sucesso ficar bordando melancolia. A malta quer saúde, paz e alegria. Gente que fale de auto-ajuda, autoestima, de coachings com temperos diversos, de diversidade de investimentos, de planejamento de carreiras, de agendas enxutas e da tal hipocrisia do despojamento porque na real vejo muito pouca gente se despojar de fato. A malta sequer se despoja da própria ignorância ostentação. São tempos em que os predadores estão em grande número e os predados estão magros, esqueléticos de esperanças.

Pronto! Vou tentar rir um pouco. Fazer parte das “gentes” que riem de cronistas mais novos como o Duvivier ou o Antonio Prata, mas olho para os meninos e não consigo me ater a grandes afinidades geracionais, até porque não sou da geração deles e nem fui convidado para as festas das quais eles participam. Por outro lado, me recuso a achar que meu tempo passou na janela e só a Carolina do Chico Buarque não viu.

Meus livros agora melhor arrumados na vasta estante me contemplam com as sabedorias em ordem alfabética e me esbofeteiam pela minha ignorância. Não li Joyce, não li Virginia Woolf, não li Italo Svevo e quase nada de Italo Calvino. Me encontro um pouco tardiamente por esses dias com Joseph Conrad e seu O coração nas trevas, e flerto com V. S. Naipaul. Não resisto à tentação do entretimento e sigo lendo Stephen King, que às vezes em meras 20 páginas tem uma criatividade tão caudalosa que vale por uma safra inteira de obras completas dos autores contemporâneos nacionais.

Bom, e já que falo de festas, creio que para eles não sou convidado porque, em meio a cinzas de outros tempos, estou ao lado de ranzinzas - com o perdão da cinzenta rima. Meus amigos e amigas mais próximos não têm envelhecido muito bem na grande maioria e, agora, mesmo que entre risos, trocamos receitinhas ligeiras de bons medicamentos, dicas de alongamentos e de dietas preventivas. Falar de bom sexo só como recordação. De drogas e rock and roll então... melhor mudar de assunto.

Mora na melancolia. Pra que rimar amor e dor como diria a velha canção? Ora, talvez porque a noite se aproxime veloz, porque as juntas doam, porque valores cultivados e conquistados estejam sendo sepultados, porque não dormimos mais bem e o pouco sono venha eivado de pesadelos. Mas, para compensar a minha “densa” narrativa, fecho com um sonho. Queria dormir uma noite tranquila e acordar no país de Juscelino Kubistchek, que governava o Brasil quando eu nasci. Não queria mais despertar nesses tensos círculos do inferno que entraram por fendas que nós mesmos abrimos, quando não percebemos que o fascismo é uma cobra traiçoeira, que, se não lhe tiramos a cabeça direito, nasce de novo para nos atormentar a existência. Talvez por ter consciência disso é que não me chamem mais para as festas.

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários



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