Religião

05/12/2019 | domtotal.com

Em toda a América Latina, a Igreja luta pelo diálogo em meio ao caos

'Como a Santa Sé lida com isso? Exigindo diálogo e paz'

O papa disse várias vezes: 'falo através dos bispos da Venezuela'
O papa disse várias vezes: 'falo através dos bispos da Venezuela' (Remo Casilli/Reuters)

Inés San Martín
CRUX

Ao retornar de uma viagem à Ásia no mês passado, o papa Francisco foi questionado sobre os protestos em Hong Kong. Ele respondeu dizendo que hoje existem muitos lugares enfrentando um verdadeiro caos social, citando Chile, França, Espanha, Nicarágua e "outros países da América Latina". "É algo geral", disse o papa. “Como a Santa Sé lida com isso? Exigindo diálogo e paz”.

No terreno de cada um desses países, a Igreja já está envolvida no diálogo – com o sucesso desses esforços muitas vezes dependendo não tanto da disponibilidade da hierarquia, mas de sua credibilidade, tanto em termos do Vaticano quanto dos bispos locais.

Em alguns casos, como na Nicarágua, há um esforço direto do representante papal, enquanto em outros, o Vaticano assume uma posição de bastidores, enquanto os bispos locais desafiam abertamente os regimes, como no caso da Venezuela.

Aqui está uma amostra de toda a América Latina, uma região que o próprio Francisco disse estar atualmente "em chamas".

Nicarágua

Em meados de novembro, o cardeal Leopoldo Brenes, de Manágua, disse que Francisco havia solicitado ao governo de Daniel Ortega e sua esposa Rosario Murillo a libertação de mais de 150 presos políticos que o governo mantinha desde que o levante social começou no ano passado.

“Descobri que o santo padre pediu ao governo um gesto de boa vontade, ouvindo a demanda das mães dos presos políticos”, disse Brenes. “Acredito que o pedido do santo padre veio de maneira muito particular e, esperançosamente, a voz do santo padre será ouvida e as mães terão seus filhos de volta, especialmente no Natal”, acrescentou.

Na sexta-feira, a Associação Pró-Direitos Humanos da Nicarágua anunciou que o embaixador papal, arcebispo polonês Waldemar Stanislaw Sommertag, está negociando a libertação dos presos pelo governo por protestos anti-Ortega. "Mais de 150 presos políticos podem ser libertados durante as negociações", disse um comunicado do grupo. Esta informação foi confirmada pelo núncio, que disse que "muitas coisas estão sendo feitas" pela libertação do que também chamou de "presos políticos".

Não está claro o grau de avanço das negociações, mas a reportagem conseguiu confirmar que há um esforço ativo para homens e mulheres atualmente isolados e sem uma data de julgamento para retornarem para casa no Natal (25 de dezembro). De acordo com a oposição política do país, existem pelo menos 172 presos políticos.

Sommertag foi testemunha de negociações fracassadas entre o governo e a oposição no ano passado. Ortega prometeu libertar todos os membros da oposição presos, mas no final, apenas 620 foram libertados em liberdade condicional.

Recentemente, cerca de uma dúzia de mulheres, mães de presos políticos, fizeram uma greve de fome depois de serem proibidas de deixar a Igreja de San Miguel, em Masaya, perto de Manágua. As mulheres haviam participado de uma missa durante a qual oravam por seus filhos atrás das grades.

Um grupo maior havia sido impedido de entrar na igreja, pela polícia, antes do início da liturgia. Os que já estavam dentro foram forçados a permanecer, sem água ou eletricidade, enquanto forças de segurança e grupos paramilitares cercavam as portas.

Dezesseis rapazes e moças foram presos há duas semanas, quando tentavam levar água para as mulheres da igreja. O julgamento estava marcado para começar na quinta-feira passada, mas foi adiado por um juiz. A polícia alegou que não havia água nos carros do grupo, mas encontrou armas, incluindo explosivos caseiros, acusação que os membros do grupo negam.

Colômbia

O dia 2 de dezembro marcou o quarto dia de greves na Colômbia após 11 dias de protestos. O governo do presidente de extrema-direita Ivan Duque tentou reprimir os protestos através da violência, mas após uma tentativa fracassada, tornaram-se quase inteiramente pacíficos.

No domingo, Duque tentou novamente estigmatizar os manifestantes alegando que os "piromaníacos" estão incitando a violência, mas não houve relatos de violência.

Os manifestantes querem que Duque e a frágil coalizão que lidera, mude os modelos econômicos, rejeitando reformas que, segundo eles, seriam prejudiciais à classe trabalhadora e aos pobres. Os sindicatos que lideram os protestos também rejeitam enfaticamente o plano do governo de não respeitar um acordo de paz assinado pelo ex-presidente Juan Manuel Santos com as Farc, o grupo guerrilheiro que atuou no país por décadas.

O monsenhor Rafael Cotrino, vigário administrativo da arquidiocese de Bogotá, disse que é necessário que o governo e os líderes dos protestos deixem de lado sua "arrogância" e tentem um diálogo honesto.

"Eu diria que todo mundo precisa de uma boa dose de humildade", disse ele. “Todo mundo está sendo um pouco arrogante, e a arrogância não é uma boa conselheira. A humildade nos ajuda realmente olhar quem somos e o que podemos fazer, porque não apenas exigimos que eles [governo e manifestantes] apresentem as necessidades mais urgentes, mas também levamos em conta o que podemos fazer como país”.

De acordo com Cotrino, para que a Colômbia supere suas desigualdades, é necessário que todos "desistam de certos privilégios" para ajudar a melhorar a "condição dos mais frágeis". Se alguém quiser avançar como país, disse, é necessário ter “uma visão do bem comum”, porque se cada setor pretender ser o principal, não haverá melhorias. Se cada setor pressionar apenas pelo que deseja, no final de qualquer reforma, disse Cotrino, a desigualdade sistêmica nas raízes da revolta permanecerá.

Venezuela

Na semana passada, uma delegação de quatro membros da Venezuela visitou vários países europeus que afirmavam ser representantes de uma “mesa de diálogo” criada em setembro passado para tentar encontrar uma solução para o país problemático.

Entre as paradas da turnê estava o Vaticano de 28 a 29 de novembro, onde o grupo esperava ser recebido pelo secretário de Estado, cardeal italiano Pietro Parolin, ou outro alto funcionário, talvez o arcebispo venezuelano Edgar Pena Parra, o terceiro na lista de cargos.

Eles entregaram uma carta para Francisco, na qual disseram que queriam falar "com espírito de transparência" sobre os avanços políticos do país, na tentativa de "recuperar a tão esperada paz".

No entanto, todos os quatro membros da comitiva eram aliados bem conhecidos do governo de Nicolas Maduro e receberam uma recepção morna nos melhores países que visitaram, incluindo o Vaticano. Em vez do secretário de Estado, foram recebidos por um funcionário do escritório de protocolo, que pegou sua carta e os despediu.

No passado, Francisco foi acusado por alguns de permanecer em silêncio sobre a Venezuela. Sua falta de vontade para condenar abertamente Maduro, como São João Paulo II evitou condenar diretamente Fidel Castro, foi lida tanto pelo presidente quanto por seus críticos como um sinal de apoio.

No entanto, em várias ocasiões, Francisco disse que está ao lado dos bispos da Venezuela, conhecidos por sua posição de confronto com Maduro, e que a opinião deles é dele. Isto foi confirmado pelo arcebispo italiano Aldo Giordano, representante papal no país desde 2013.

"O papa disse várias vezes: 'falo através dos bispos da Venezuela'", disse Giordano ao jornal Religion Digital. “E os bispos nunca falam sem ter certeza da opinião do papa. Esta comunhão é um presente da Igreja da Venezuela, em meio aos numerosos problemas”.

Em uma entrevista publicada no domingo, o prelado disse que o sofrimento do povo da Venezuela é "nosso primeiro problema e nosso único interesse". "Não temos um interesse político, temos um interesse pelo povo, pela nação", disse ele. O mesmo para o papa. Nossa tentativa, sempre, é que a Igreja esteja próxima dos cidadãos”.

Os bispos, que foram muito francos contra Maduro, chamando-o de ditador e instando o presidente a renunciar à presidência, há muito afirmam que Francisco virou as costas.

Publicado originalmente em: CRUX

Tradução: Ramón Lara

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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