Religião

06/12/2019 | domtotal.com

Direitos humanos e a conversão necessária para o advento

É preciso combater a desumanização de discursos de tortura e da falta de empatia com quem apodrece num sistema penitenciário falido

O advento aponta para a pobreza do presépio. Para a fragilidade de um menino que é o Emanuel
O advento aponta para a pobreza do presépio. Para a fragilidade de um menino que é o Emanuel (Luiz Silveira/ Agência CNJ)

César Thiago do Carmo Alves*

O tempo do advento na espiritualidade litúrgica da Igreja consiste num momento forte. Isso se deve ao fato de, no hoje da história, esperar o Senhor que vem. É tempo em que cada pessoa cristã retome espiritualmente sua vida e se sinta chamada à conversão. Converter-se para acolher e testemunhar o reinado de Deus na terra.

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O advento aponta para a pobreza do presépio. Para a fragilidade de um menino que é o Emanuel, Deus conosco! É esse menino que trará de Deus o dom da salvação, isto é, a reconciliação de toda a criação com o Absoluto Amor. Nesse sentido, não se pode deixar de contemplar a manjedoura sem considerar toda a vida dessa criança que cresceu em sabedoria, estatura e graça diante do Pai. Sua vida coerente culminou com um desfecho histórico trágico: assassinado. No entanto, foi ressuscitado pelo Pai na força do Espírito. Tendo isso no horizonte, o advento se torna tempo oportuno para fecundar a vivência cristã. É tempo que chama para a experiência de uma fé encarnada, da mesma forma que Deus se fez gente e armou sua tenda entre nós. Se somos chamados a vivenciar essa fé contextualizada, encarnada, temos que nos perguntar, em que precisamos nos converter nesse tempo que a liturgia nos inspira?

Indubitavelmente, a conversão necessária no cenário cristão que hoje pode ser constatado consiste em humanizar-se. A humanização é elemento indispensável para a experiência cristã. O que tem se visto é uma constate desumanização. Isso é notório quando as disputas se acirram e os jogos de poder entram em cena. Perde-se o horizonte profético da denúncia das injustiças, aliando-se tantas vezes ao lado dos poderosos que constantemente querem retirar os direitos e garantias fundamentais dos mais sofredores. Como foi triste ver ao longo desse ano, cristãos que defendem a família, apoiar a fala do presidente da república no que se referia ao trabalho infantil. Isso é simplesmente desumano. Retirar da infância o seu direito de existir. Ou, ainda, quantos que se declararam cristãos, frequentadores assíduos de celebrações dominicais e com discursos de tortura, de falta de empatia com irmãos e irmãs que apodrecem no sistema penitenciário falido. Esses são exemplos de desumanização. De pessoas que desejam o sagrado, e realmente querem fazer a experiência do divino na própria vida, mas ainda não abriram mão das próprias convicções, impedindo  que a Ruah, o Espírito de Deus, possa transformar a forma de pensar e agir. Deixar ser movido pelo Espírito é condição de possibilidade para um caminho permanente de humanização.

O menino Deus que se espera nesse tempo é inspiração para a conversão. Ele que revelou ao longo de sua vida Deus, também revelou o que significa ser humano radicalmente. Ao apreender o jeito humano de Jesus, nota-se que para vivenciar tamanho grau de humanidade isso implica a permanente tarefa de se sensibilizar para a acolhida radical do outro que vem a nós revelando o seu profundo mistério. Seja o Humano-Deus o farol no porto de nossa existência luz que indica o itinerário a navegar do tornar-se humano, conversão necessária.

* César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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