Religião

06/12/2019 | domtotal.com

A pedagogia do advento: encontro com Deus na simplicidade de uma criança

Reino de Deus só será possível quando percebemos que a humanidade que nos reúne como irmãos é a mesma que nos leva à salvação

O advento é uma possibilidade de cultivar em nós a esperança, pois na expectativa da chegada definitiva
O advento é uma possibilidade de cultivar em nós a esperança, pois na expectativa da chegada definitiva (Baz Ratner/Reuters)

Daniel Couto*

Não é uma novidade para o mundo ocidental a celebração das “festas religiosas” atreladas aos feriados civis e, consequentemente, ao oportunismo do capitalismo que “ressignifica” tudo a partir da ótica do consumo e da exploração. Esse fenômeno, para nós cotidiano, descaracteriza totalmente o “espirito” próprio de cada tempo e, ao distorcer os fundamentos da festividade, perde-se, também, o seu “sentido”. Poderíamos, inclusive, falar de um Natal do Senhor e de um Natal do $enhor. Claro que tais festividades se fortalecem pela narrativa religiosa que as justificam, principalmente como argumento moral, social e cultural. Na mesma ocasião em que o consumo atinge níveis elevadíssimos, no tempo natalino, evocamos a solidariedade, o amor e a paz. Pode nos parecer paradoxal, mas é a natureza humana realizando aquilo que possui de mais autêntico: satisfazendo as suas paixões.

Leia também:

Somos apaixonados e nossa expressão maior de alegria se concentra na festa. Quando nos reunimos, convocados pela lembrança simbólica que a religião (ou outro gatilho cultural) nos apresenta, rompemos com a temporalidade do “preenchimento do vazio” para uma “vivência plena do agora”. Os nossos ciclos temporais são impulsionados pelos “tempos próprios”, como as estações, os calendários celebrativos, as memórias e recordações. Falamos do tempo da infância, sem necessariamente datarmos um acontecimento específico, em um recorte cronológico exato. O que importa é o caráter experiencial que acontece no “tempo próprio”. Também podemos tomar essa base antropológica como o fundamento do ciclo celebrativo da Igreja Romana, onde o “Tempo Litúrgico”, circular, oportuno e poiético  [1] , faz com que os fiéis possam experimentar no “agora” a tradição passada e as promessas do futuro.

Deste modo, aquilo que o tempo litúrgico apresenta caminha na contramão da experiência cotidiana, pois apresenta o “tempo” que nos forma, enquanto vivemos um tempo que nos exaure. Na liturgia celebramos o renascimento, a vida e a dignidade humana, enquanto em nossos trabalhos cotidianos cultuamos, pouco a pouco, a existência que se esvai. Isso não leva a uma supervalorização do “tempo litúrgico”, mas demonstra que precisamos nos formar a partir da pedagogia da liturgia para viver melhor. Cultivar uma espiritualidade é deixar que esse movimento, celebrado no tempo litúrgico, fortaleça em nós um desenvolvimento integral, valorizando capacidades, afetos e racionalidades que não são estimuladas pelo “sistema”.

Se essa pedagogia da liturgia nos conduz para a vida, o Advento nos faz experimentar conceitos fundamentais. Façamos um caminho mistagógico por esse “tempo próprio”.

O ano litúrgico começa no advento com a expectativa da encarnação do Verbo de Deus. Os fiéis encontram o ambiente celebrativo ornamentado de maneira diferente, com uma sobriedade própria que se distingue da quaresma, mas que pela simplicidade nos prepara para a contemplação do “menino Deus”. Novos elementos são apresentados, como a coroa do advento, exclusiva desse período, os paramentos róseos, no terceiro domingo, e elementos narrativos que falam da expectativa pela vinda do Senhor no final dos tempos. Experimentamos, desde agora, a colegialidade dos filhos e filhas de Deus, porque partilhamos da mesma natureza, do mesmo estatuto: a humanidade.

É essa natureza, assumida por Jesus, que faz do tempo do advento uma “espera fecunda”. Não se trata de um tempo vago, que precisa ser preenchido até a celebração do natal, mas de um caminho, passo a passo, vela por vela, da expectativa da transformação que só pode ser realizada se a comunidade “fixar os olhos no senhor”, abrir os ouvidos pela “proclamação que fecunda” e deixar que o nascimento seja a restauração de si segundo a nova humanidade batismal.

Essa esperança, que precede o tempo da festa, também é festiva por si. Quando estamos à espera, fazemos os “preparativos”. A festa precisa de uma disposição anterior para e acolhida. É um convite que nos convoca para participar, é o momento de preparar o terreno para a semeadura. Precisamos, porém, entender que o serviço de preparar a festa, já é, ele mesmo, uma antecipação. O advento nos forma na dimensão das três vindas do Senhor. Celebramos a vinda primeira, fundamento do cristianismo e primícias de todas as promessas do Reino dos Céus, é o Deus encarnado na história que nos convida a nos reunirmos em torno da mesa fraterna para ouvir a sua palavra e partilhar os dons. Neste sentido, também somos formados na “promessa escatológica do Reino”, isto é, a vinda futura e gloriosa do Senhor Jesus que realizará na terra o seu Reino. É porque podemos experimentar a realização das promessas feitas por Deus que confiamos no seu retorno glorioso. Uma vida que está para além da nossa compreensão, pois rompe significativamente com a nossa realidade e temporalidade. O fim dos tempos pode ser entendido como o “fim do tempo”, afinal tudo se torna “novo”: um novo céu e uma nova terra. Jesus, portanto, rasga o véu do templo, rompe com a linearidade “necessária” da nossa existência e promete: “estarei com vocês até o fim”. Essa é a terceira vinda do Senhor, a vinda intermediária que acontece todas as vezes que “estamos reunidos em seu nome” e celebramos a festa da ressurreição. Os cristãos não acreditam que o Senhor está no meio deles como “alegoria”. Ele está “verdadeiramente” presente, e a cada encontro o verbo se encarna e habita em nosso meio. Esse é o envio basilar da Ceia do Senhor: façam isso em minha memória.

A dimensão simbólica, que nos leva a fazer memória da presença do Senhor, costura o “tempo próprio” do advento, pois nele experimentamos a fecundação e gestação do verbo. Exercitamos a paciência diante da imediatez contemporânea. As mídias sociais criam uma sensação de velocidade e proximidade que é frustrada pela caminhada do advento. Se queremos o “acesso” imediato a tudo, o advento nos forma na espera. Se somos chamados a “ostentar” e “prosperar”, acumulando e dispondo das maiores riquezas, o advento nos leva ao comum, à simplicidade e ao serviço. A lógica capitalista nos leva a “rotular” e “qualificar” as pessoas como produtos, o advento nos ensina que o encontro com aquele que é “infinitamente tudo” se dá na simplicidade de uma criança. Deus não se manifesta de imediato, com todo poder e majestade, em shows pirotécnicos e demonstrações soberbas. Deus se faz carne, se curva para conviver conosco à nossa medida, se desenvolve no útero, é gestado por uma mulher que vive a expectativa da promessa. Deus nasce pobre, num estábulo cercado pelos animais, pela criação que é iluminada por sua luz. Passo a passo, dia a dia, de “tempo em tempo”, vivendo o cotidiano, Jesus nos ensina o que é ser humano.

O advento é essa pedagogia da reflexão. É um tempo oportuno para recordarmos nossa pequenez, nossa humanidade e perceber que somos todos “uma só família”. Celebramos domingo a domingo, reza por reza, dia por dia, a expectativa do encontro festivo. Somos chamados a olhar para o agora (na vinda intermediária) e relembrar que as alegrias não são somente futuras, mas podem ser vividas a cada momento. Somos constituídos de uma história que não pode ser alterada e pelo futuro incerto, mas só existe para nós o agora. Quando acendemos a primeira vela do advento, o sopro de Deus nos recoloca na caminhada infinita da existência. A circularidade do ano litúrgico, com os “tempos oportunos” nos recorda nossa própria humanidade.

Por isso, o advento é uma possibilidade de cultivar em nós a esperança, pois na expectativa da chegada definitiva, celebramos hoje a promessa feita - e realizada - em Jesus. Em cada "tempo próprio" o mistério se revela, fazendo da breve contemplação da infinitude do ser uma oportunidade para refletirmos sobre nossa humanidade. No advento fixamos os olhos no Senhor, nascido na fragilidade humana, menino e carne, pois cada vez mais perdemos a capacidade de enxergar a nós mesmos. Ao contemplar o mistério recordamos que fazemos parte dele e só assim é possível nos transformar. Um mundo novo, Reino de Deus, onde a justiça, a paz e o amor são "tudo em todos" só é possível quando percebemos que a humanidade que nos reúne como irmãos é a mesma que nos leva à salvação. Pelo Deus-Homem fomos elevados à dignidade dos céus e através de nós Deus resgata a dignidade e a esperança dos que sofrem e estão marginalizados neste mundo. A esperança do advento é para muitos o que sustenta a esperança na vida. Assim como Maria, a mãe de Deus, gestou a palavra em seu seio, a pedagogia do advento busca gestar em nós o Reino de Deus.

 [1] O tempo da Igreja é poiético no sentido de “fazer”, “produzir”, aquilo que ele expressa. Assim não é uma recordação, mas uma realização concreta.

Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da CELEBRA (Rede de Animação Litúrgica).



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!