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09/12/2019 | domtotal.com

Com 70 anos, a Otan estará desgastada demais ou ainda tem uma sobrevida?


A cúpula comemorativa dos 70 anos da Otan, que ocorreu esta semana em Londres, pode resumir-se como todas as cúpula internacionais e inter-regionais dos últimos anos: os maus fizeram afirmações inesperadas e inexplicáveis, e os bons não disseram nada de substancial.

A Otan talvez não morra, mas continuará numa espécie de coma induzido
A Otan talvez não morra, mas continuará numa espécie de coma induzido (Mandel Ngan/AFP)

José Couto Nogueira*

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar ocidental, foi fundada em 1949 num contexto completamente diferente do atual e resistiu a várias vicissitudes, uma delas a sua própria razão de ser. Como lembra o The Economist, o tempo de vida médio das alianças, nos últimos cinco séculos, foi de 15 anos. Portanto, esta devia estar ufanamente a comemorar uma longevidade notável. No entanto, as “comemorações” foram mais atrapalhadas do que concordantes e os problemas que a organização sempre enfrentou são agora multiplicados pela presente situação geo-estratégica.

Um preconceito que as esquerdas europeias sempre tiveram em relação à organização, é que era mais uma, se não a maior, demonstração do imperialismo norte-americano, tentando colocar a Europa na sua órbita de influência. Porém, o conceito original da Otan foi exatamente o oposto: proteger a Europa.

Na Conferência de Yalta, em 1945, quando a derrota da Alemanha já era inevitável, as potências aliadas – Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética – reuniram-se para decidir as suas zonas de influência no pós-guerra. Nessa época, embora fosse reconhecido que o regime soviético não tinha nada de semelhante com as democracias ocidentais, a URSS era vista como uma das vítimas do nazismo e não como um agressor. Além disso, as piores barbaridades de Stalin ainda não eram conhecidas e as diferenças de regime não pareciam tão dramáticas. Foi, portanto, possível fazer um acordo sobre que países europeus ficariam na “custódia” de cada um dos três vencedores, admitindo-se que seriam os próprios países a escolher democraticamente os seus governos.

Esta situação deteriorou-se nos anos imediatos à vitória de maio de 1945, quando nos países sob a área de influência da URSS os respectivos partidos comunistas aplicaram o método leninista de tomada do poder, eliminando todas as forças políticas e estabelecendo regimes ditatoriais “populares”, muitas vezes com a participação ativa do Exército soviético. Somente na Grécia, que tinha sido distribuída ao “lado ocidental”, os comunistas não só não tomaram o poder, como foram eliminados.

Os ingleses e norte-americanos esperavam e incentivavam que os países europeus saídos da Segunda Guerra Mundial tivessem governos democráticos e resolvessem as suas diferenças pacificamente, numa nova harmonia que viesse a evitar futuros conflitos. Stalin tinha uma visão diferente; queria garantir a sua segurança, controlando os assuntos internos dos países vizinhos. Contudo, o Reino Unido estava tão arrasado pela guerra como os outros países europeus, e muito naturalmente a situação polarizou-se entre as duas grandes potências militares, Estados Unidos e União Soviética.

A situação agudizou-se quando, em 1948, os três ocupantes ocidentais da Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e França, decidiram entrar num processo de unificação das suas áreas, tendo em vista uma Alemanha independente. Stalin opôs-se à ideia, com a justificação de que uma nova Alemanha se tornaria novamente uma ameaça. Assim criou-se a divisão entre República Federal e República Democrática, sendo que Berlim, igualmente administrada pelos quatro países, ficava isolada na zona “democrática”. Os russos fecharam a fronteira e os norte-americanos criaram um corredor aéreo para abastecer a cidade sitiada.

Mais peripécias levaram a que a separação entre a Europa democrática e a Europa socialista se tornasse cada vez maior, criando-se aquilo a que Churchil famosamente chamaria “a Cortina de Ferro” logo em 1946. Estava oficializada a Guerra Fria, que opôs os Estados Unidos e a União Soviética até à implosão desta última, em 1991.

Uma vez que os países europeus, todos mais ou menos arrasados pela guerra, não tinham condições de se defender contra uma possível invasão russa, surgiu então a ideia de criar um pacto entre eles e os Estados Unidos, a única potência militar no mesmo patamar da URSS. Nasceu assim a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 1949, com 12 países, que com os anos chegaram aos presentes 29. O conceito essencial da Otan era a proteção mútua; se um membro fosse atacado, todos os outros iriam em seu auxílio. (Embora isso não fosse expresso literalmente, o cenário considerado mais provável era uma invasão da Alemanha Federal.) A URSS respondeu imediatamente com o Pacto de Varsóvia, juntando todos os seus satélites.

Não cabe aqui – não há mesmo espaço – para contar os inumeráveis episódios da Guerra Fria, desde as centenas de conflitos localizados, como a Guerra de Angola, até à chamada Crise Cubana dos Mísseis, em 1962, passando pelas peripécias de espionagem, mudanças telecomandadas de governos nacionais e toda uma narrativa lendária de espionagem. A situação passou da Europa para o Oriente e chegou-se a uma divisão mundial entre “capitalistas” e “socialistas”, cujas diferenças de ideologia eram tanto justificação como desculpa para disputar fontes de matérias primas e interesses econômicos.

O que interessa é que o desaparecimento da União Soviética, em 1991, fez também desaparecer a razão de existência da Otan. Todavia, a Europa continuando sem exércitos que se vissem, pois o anti-militarismo tornou-se dominante e o serviço militar obrigatório foi eliminado, todos os membros concordaram que era uma boa ideia manter a aliança, agora sustentada pelo maior poder militar do mundo, os Estados Unidos. 

Em termos práticos, décadas de preparação para uma guerra que nunca chegou a acontecer transformaram a Otan numa imensa máquina burocrática (muito bem representada pela imponência suntuosa do edifício-sede, em Bruxelas) que ninguém sabe se realmente tem capacidade operacional. A organização interviu em alguns conflitos localizados e ameaçou interferir noutros, mas realmente nunca teve de enfrentar o seu destino.

A Rússia, depois do período de fraqueza quando o sistema comunista foi desmantelado, voltou ao grupo das grandes potências, agora como um país capitalista com um governo autocrático. Com Putin, continua abertamente um adversário, mesmo que a ideologia tenha mudado. Isto não é uma opinião; o próprio Putin tem declarado em várias ocasiões o seu interesse em desmantelar as democracias europeias e a vontade de expandir novamente o país.

Entretanto a Otan, não servindo realmente para nada de concreto, vivia uma existência tranquila, proporcionando cargos muito compensatórios às altas patentes dos países membros e fazendo “jogos de guerra” de vez em quando, para dar prova de vida.

Este quadro idílico mudou quando Donald Trump se tornou presidente, em 2017, e alterou os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. Um dos seus mantras é que os norte-americanos não têm de sustentar a segurança dos seus aliados. Ora, existe um compromisso dentro da Otan, institucionalizado em 2014, de que os estados membros devem alocar 2% do PIB para a defesa, compromisso esse que a maioria não cumpre.

Quem gasta mais são os Estados Unidos, 3,6%, embora se possa argumentar que o faz para manter a sua hegemonia mundial e não especificamente por causa da Otan; a Grécia, estranhamente, gasta 2,3%, o Reino Unido 2,1% e a Polônia 2%. Os outros estão todos abaixo.

Trump tem mantido uma enorme pressão sobre a Otan, questionando até se vale a pena mantê-la, enquanto se declara grande amigo de Putin, Xi Jinping, Kim Jon-un e outros declarados ou implícitos inimigos dos países da aliança.

Neste quadro bastante depressivo para a organização, surgiu no mês passado um novo engulho; a Turquia, membro da Otan, comprou equipamento militar aos russos e atacou os curdos, considerados aliados dos ocidentais. Trump endossou a atitude de Erdogan, enquanto os governantes europeus se ficaram pela já habitual atitude de “não gostamos mas não vamos fazer nada”.

Foi neste ambiente que ocorreu a reunião de Londres. Dias antes, e a propósito da ação dos turcos, o presidente Macron afirmou que a Otan “está em morte cerebral”, o que causou um grande mal-estar entre líderes habituados a falinhas mansas. E foi esta afirmação de Macron que levou a que Trump, logo no primeiro dia da reunião, dissesse exatamente o contrário, contradizendo-se também em relação a declarações anteriores, o que causou mais confusão e mais mal-estar.

Trump, sempre igual a si próprio, deu uma conferência de imprensa espontânea de 45 minutos, foi gozado por isso pelos outros – o que o levou a insultar Justin Trudeau – e finalmente meteu-se no Air Force One para Washington antes da conferência acabar.

Como é de praxe, os chefes de estado emitiram uma declaração final com 79 linhas que consegue, em milhares de palavras, não dizer nada. Mais uma obra prima da linguagem diplomática. Quer dizer, todos se comprometem a defender-se uns aos outros e a gastar 2% do PIB em defesa, todos reconhecem que há novos desafios a vencer, que os perigos são muitos, que há que estar unidos, e por aí fora.

O que se seguirá? Muito provavelmente, nada. A Otan talvez não morra, mas continuará numa espécie de coma induzido.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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