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08/12/2019 | domtotal.com

Ontem, hoje, amanhã

E é hoje que podemos evitar os problemas para o futuro, que será o amanhã, o qual esperamos vivenciar

Compartilho os meus, vividos em pouco mais de oito décadas
Compartilho os meus, vividos em pouco mais de oito décadas (Pixabay)

Evaldo D' Assumpção*

Ontem, há muito já passou. Não volta mais. Contudo, é com ele que aprendemos a viver melhor o hoje, única coisa que concretamente existe. E é hoje que podemos evitar os problemas para o futuro, que será o amanhã, o qual esperamos vivenciar. Portanto, três momentos de nossa história, todos eles igualmente importantes. Compartilho os meus, vividos em pouco mais de oito décadas, esperando que proporcionem, aos leitores, algumas reflexões e realinhamentos.

Ontem. Nascido numa pequena cidade do sul de Minas, tive uma infância exemplar. Amigos unidos, namoradas à distância (mãos dadas, nem pensar…), bons colégios, aulas de piano, brincadeiras com os amigos e amigas na rua tranquila, longos passeios de bicicleta. Meu pai, médico muito solicitado, passava longos períodos trabalhando, atenuado pelo fato de que seu consultório era, como costume na época, em nossa casa. Hora das refeições, sempre o esperávamos respeitosamente para nos sentarmos à mesa, e nos servirmos depois dele. Severo, meu pai era um educador à moda antiga, bastante eficiente. Fumei meio cigarro aos 10 anos. Resultou-me em algumas chineladas, e na ameaça de ter que comer uma caixa de charutos, se repetisse a façanha. Nunca mais coloquei um cigarro na boca. Como não lhe ser extremamente grato por me ter proporcionado tantos anos de vida e saúde como tenho? Não gostava de ler, mas aos doze anos, acredito, deu-me a obrigação de ler A Cidadela, de Cronin, por meia hora, todas as tardes. Acabei apaixonando-me pelo livro, terminando sua leitura muito antes do previsto. Depois, devorei os outros livros que meu pai possuía, desse e de outros autores. Tornei-me um leitor contumaz. Passei por uma desagradável experiência de internato em colégio, por ano e meio. Aprendi muito, mas não quis o mesmo para os filhos que viesse a ter. Mudamos para Belo Horizonte em 1952. Ali, até os 18 anos de idade, tinha as 22 horas como a mais tardia para chegar em casa. Inegociável. Duas horas por dia, era para estudo. O Colégio Loyola foi minha fonte de conhecimentos. Um dos melhores de BH. Nunca recebi mesada. Para ir ao cinema com a namorada, lavava o carro do meu pai, engraxava seus sapatos e recebia o valor corrente. Assim, ensinava-me que dinheiro se ganhava com trabalho. Inscreveu-me no Minas Tênis Clube, onde nadava, lutava judô, e aos domingos, frequentava a hora-dançante, onde me saía muito bem com as moçoilas. Com dezoito, meu pai conseguiu-me um emprego como porteiro noturno do Hospital de Pronto-Socorro, onde ele era médico ortopedista. Dois anos depois, por iniciativa própria, fiz concurso para datilógrafo do estado. Aprovado em 4º lugar, fui nomeado, mas pude optar por continuar como porteiro do HPS, até a aprovação no primeiro vestibular que fiz, de medicina. Passei então para estagiário do Banco de Sangue. Formado, fui nomeado médico, e lá me aposentei. Cirurgião plástico, exerci essa especialidade por cinquenta anos.  Tive intensa atividade institucional, associativa e didática. Escrevia muito. Artigos em jornais, livros e trabalhos científicos. Casei-me duas vezes, tive três filhos no primeiro casamento e cinco netos. Meu ontem foi muito imenso. Tanto que publiquei dois volumes de memórias, pouco mais de mil páginas. E outros quarenta e tantos livros de medicina, biotanatologia, ética, religião, assuntos gerais. Até poesia e ficção. Conto isso, não para me exaltar, pois isso de nada me serve. Faço-o para dizer que tudo devo à formação que recebi dos meus pais e dos meus professores, do Grupo escolar à Universidade. Para enaltecer a presença familiar, essencial ao meu ontem, que foi repleto de bons e inesquecíveis amigos, todos forjados na mesma têmpera, no mesmo padrão familiar, com histórias tão ou mais ricas do que a minha. Sem a modulação e a disciplina familiar e escolar, sempre coerentes, que imperava no nosso ontem – sem deixar traumas nem desequilíbrios psicológicos –, se não fosse o respeito, o civismo, a moral, e o senso de responsabilidade que nos foram transmitidos com firmeza e seriedade, não seríamos o que somos hoje.

Hoje. Aposentado há dez anos, comemoro agora 56 anos de formado. Resido, por opção, numa pequena praia capixaba, numa casa comum e confortável, com minha esposa. Meu trabalho, durante mais de meio século, não me tornou abastado, mas me proporcionou, e à minha família, uma vida tranquila, e as viagens que nos mostraram o maravilhoso mundo de Deus. Aqui fiz boas amizades, e temos um pequeno grupo de casais enófilos, que se reúnem semanalmente, para não mais que três horas de agradabilíssima convivência. Frequento e ajudo nas celebrações da nossa igreja católica, caminho quase todas as manhãs pela praia e pelas matas que nos circundam. Levamos uma vida pacífica, sem extravagâncias, mas acompanhando, pela mídia, a desagregação social e familiar nas cidades maiores. Assusta-nos a violência que impera no mundo. Assistimos a tecnologia, cada vez mais avassaladora, tomando o lugar dos humanos, usurpando seus valores éticos que ontem caracterizaram nossa espécie. Não sou saudosista, não choro leite derramado, mas me angustia imaginar o mundo que estamos deixando para nossos netos e bisnetos. Nossos filhos, esses já estão maduros e inseridos na modernidade que a nós, octogenários, tanto atemoriza. Especialmente os relacionamentos humanos, onde os laços familiares se tornam cada vez mais tênues, tanto como a espiritualidade, indispensável à solidificação dos liames de família, à felicidade, e à paz social. Hoje vivemos a quase totalidade do Admirável mundo novo, descrito por Aldous Huxley.

Amanhã. Impossível prever como será. Einstein disse que as armas da terceira guerra mundial, ele não sabia. Mas as da quarta, certamente seriam paus e pedras. Quem sabe um recomeço para a história da humanidade. Só espero que aprendam, com o nosso hoje, que amanhã, deles será o ontem

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

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