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07/12/2019 | domtotal.com

Poemas de Inês Campos costuram tempos e espaços sob olhar feminino

'Roca', segundo livro da autora mineira, aborda memória, promessas e esquecimento

A poeta Inês Campos lança 'Roca' neste sábado, na Quixote, em BH
A poeta Inês Campos lança 'Roca' neste sábado, na Quixote, em BH (Divulgação)

Pablo Pires Fernandes

Mesmo depois da segunda leitura, os poemas de Roca seguem sem amarra completa, fecho ou nó na mente do leitor. Há indefinição e muitos caminhos possíveis. "Como não?” – verso de O chamado da maçã, quarto poema da obra – se repete três vezes, evidenciando a dúvida, mas também inevitável curiosidade e inquietude de quem busca. Bordar palavras foi o fio trançado por Inês Campos em seu segundo livro, que será lançado neste sábado (7), a partir das 11h, na Quixote Livraria e Café, na Savassi.

A autora belo-horizontina conta que, depois de Geografia particular (2017), que levou 10 anos para ficar pronto, quis escrever de maneira mais constante. “Surgiu uma urgência, uma necessidade de dizer algo”, diz ela, “saí em uma procura louca atrás de um projeto, um livro, um tema central”. Tentou diversos projetos, mas não achou o que buscava. “Nada tinha verdade, só palavras bonitas no papel.”

O tempo, muito presente nos poemas, foi definidor para a poeta encontrar o fio da meada. Voltou-se à mitologia – “as moiras que giram a roda da fortuna”. “Uma faz o fio, a outra tece e a outra corta.” Para Inês, estas figuras arquetípicas que sustentam o fio da vida são a promessa, a procura e o esquecimento, títulos das três partes de Rocas.

Sua busca a conduziu a outros primórdios – a Valéria, sua mãe, colecionadora de bordados (tem uma loja em Tiradentes), a quem o livro é dedicado. “Sentei com ela vários dias e fui perguntando todo o processo de criação, desde os tipos de tecidos, do linho belga ao algodão cru, os desenhos, as bordadeiras, os tipos de ponto, até a goma, o laço. Parece parto.”

A poesia só se fez nó quando laçou a voz feminina – “quando a mulher entrou no poema”. Roca é um livro absolutamente feminino, embora não feminista (na conotação atual). O encontro de mãe e filha representou uma espécie de “herança torta”, sugere. “Não era mãe e filha, era uma mulher que borda”, explica, assumindo que não borda nem um ponto. Mas reconhece: “Bordo palavras”.

Apesar da urgência e mesmo se dedicando à outra linguagem no trabalho de advogada, a poesia lhe é inevitável. “Vivo carregada de cadernos e canetas. Já fiz poema na parte de dentro de caixa de remédio, em guardanapo de papel com caneta do garçom”, revela, destacando que mantém o olhar atento à “palavra-poema pousada em todas as coisas – cidades, pessoas, filmes, quadros.”

A escritora conta que já atravessou noites em busca de palavras. Mantém, no entanto, a prática de permitir “o primeiro jato do poema”, para não perder o frescor e a verdade do sentimento. Depois, diz ela, é trabalho de tessitura. “Trabalho muito, desbasto, tiro os excessos, jogo muita coisa fora. Fica só o que precisa.”

Entre cortes e costuras, há alfinetes, agulhas, remendos. Na roca e nas expressões femininas de Inês Campos, o corpo se faz recorrente entre nós, bainhas, dobras e curvas. “o começo é isto: furos/ nos dedos/ nas células/ no corpo”, escreve, de cara, no primeiro poema. “O corpo tece e é tecido”, explica, desdobrando: “Falo do amor, da morte, do esquecimento e tudo isso marca o corpo, o modifica”. E são vários: “Há o corpo sensual, sexual, o corpo que se rebela arreganhando os dentes atrás da burca, o corpo se misturando com a roupa, o mármore, o couro do tempo vivido”, explica. Mas seus versos são mais certeiros – “no tempo passado/ o pão do domingo era o trigo/ ou o corpo”.


          Vídeo de Tatiana Bicalho

A poeta se projeta ainda em corpos estranhos: “A vaca que recebe o castigo por querer a liberdade, caindo no mata burro, o camelo que se pergunta por que não mastigou o sal, em qual língua chora o nome empedrado, o galope para fora do mapa”, afirma, referindo-se à algumas imagens contidas em Roca.

A obra sugere constante deslocamento, às vezes por meio da sinestesia, outras por rupturas narrativas. Se em Geografia particular a escritora toma lugares (espaço) para elaborar situações e sensações, em Roca este espaço se esgarça numa temporalidade difusa, de memórias e buscas – afetivas, táteis, imagéticas.

Neste conjunto de poemas subjaz uma certa noção de liberdade, que ela resume lembrando a frase de Guimarães Rosa: “Liberdade é isso: movimentação”. “Apesar de não escrever a palavra liberdade, ela está nas diversas escolhas feitas ao longo do livro, e, como uma encruzilhada, acaba na margem das margens.”

Em muitos casos, os detalhes são reveladores. Quando perguntei à autora sobre os sons e apontei a presença das palavras acordeão, derbak, gargalhadas e oboé, Inês contou que escreveu ouvindo música, sobretudo as composições de Erik Satie (1866-1925). Inês arremata a sua costura dizendo: “É a música que me guia, uma promessa feita ou a eterna procura”.

ROCA
De Inês Campos
Ilustrações de Júlia Panadés
Editora Cas’a’escrever
70 páginas

LANÇAMENTO:
QUANDO: Sábado (7), das 11h às 15h.
ONDE: Quixote Livraria e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, Belo Horizonte, (31) 3227-3077).


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