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10/12/2019 | domtotal.com

Gravados na memória

Já recordou que acontecimento marcou os seus 11 anos de idade?

Ele diz ali que o elefante nunca morre só e sempre morre de pé
Ele diz ali que o elefante nunca morre só e sempre morre de pé (Pixabay)

Lev Chaim*

O que você se lembra de ter feito aos 11 anos de idade que o tenha marcado, com prazer, emoção ou tristeza? Nos meus 11 de idade anos, um dos acontecimentos que lembro até hoje foi a minha ida a São Paulo, a 400 quilômetros de Franca, com a tia Sinhá, irmã solteira de minha mãe. Hospedamo-nos, primeiramente, na casa das amigas dela que, como ela própria, eram solteiras, chamadas carinhosamente de “as moças”, no bairro das Perdizes. Depois fui para a casa do tio Chico, irmão mais novo de papai e já falecido, casado com a tia Eufélia, escritora. De lá, minha irmã mais velha, Anna Maria, que também morava em São Paulo, onde cursou a universidade, veio me buscar para irmos juntos ao espetáculo Hollyday on Ice, em cartaz no ginásio do Ibirapuera: uma festa de cores e piruetas mágicas.

Qual não foi o meu espanto ao deparar-me, agora, com a história de um rapper holandês, Flinken Jongen, cujo verdadeiro nome é Danny Dijkhuizen, de 27 anos, quando ele tinha apenas 11 anos de idade. Sua história me comoveu. Foi na noite de 13 de dezembro de 2003. Seu pai, um cabo-verdiano, havia abandonado sua mãe, Sheila, quando ela ficou grávida. Portanto, ele não o conheceu. Para Danny, sua mãe era uma heroína. Eles moravam num apartamento com dois irmãos menores e o namorado da mãe, com o qual ela sempre brigava. Naquela fatídica noite, ele, o mais velho dos filhos, pode ficar na sala, assistindo TV, até mais tarde, o programa Jungle Boek. Depois de um tempo, ele acabou dormindo ali mesmo no sofá.

Em um determinado momento, ele acordou com um barulho de alguém tropeçando. Aí, ele viu o namorado da mãe na porta de entrada do apartamento, colocando o casaco e deixando a casa. Ele ouviu suspiros e levantou-se. Atrás do sofá, caído no chão, estava um dos irmãos. Tentou acordá-lo, mas nada. Foi ao quarto e encontrou o outro no mesmo estado. Desesperado foi procurar a mãe e a encontrou fora do apartamento, ao lado da porta de entrada, também caída. Tudo estava revirado, como se um furacão tivesse passado por ali. Desesperado, Danny correu para a casa de uma tia nas proximidades e um senhor, ao vê-lo naquele estado, ligou para o número de emergência. Da casa de sua tia, eles puderam assistir na TV que a polícia já havia chegado ao local e noticiava a morte a facadas de três pessoas. Era o apartamento em que ele vivia com a mãe, dois irmãos e o amigo dela. Seu padrasto os havia esfaqueado. Ele, por sorte, havia escapado da tragédia. Isto tudo, com apenas 11 anos de idade. Podem imaginar?

E o pior momento de tudo para ele foi o enterro, ocasião em que ele viu pela última vez os seus três entes queridos. Para Danny, o mês de dezembro poderia não existir e o ano ter apenas 11 meses. Natal, ano novo, todas as festas que lembram a família. Ele foi morar uns tempos com a tia e depois foi colocado numa família com mais recursos, que o acabou de criar. Foi nesse período que Danny aprendeu a conviver com as suas feridas e decidiu que dali para a frente faria tudo para ter pensamentos positivos. Não que ele fosse esquecer tudo, como muitos o aconselhavam, mas, “ele faria daquele seu passado trágico o seu futuro”, como descreveu a reportagem sobre ele no jornal holandês, NRC Handelsblad. Ele começou então a contar sobre os acontecimentos de sua vida, e acabou sendo chamado para dar entrevistas, fazer palestras para outros jovens. Nesse meio tempo, ele iniciou a sua carreira de rapper e ficou conhecido em toda a Holanda.

Não sei porque, mas tudo isto me remeteu à história que ganhei de uma amiga, em que um senhor descreve a vida dos elefantes. Ele diz ali que o elefante nunca morre só e sempre morre de pé. Quando um está doente, outros sempre o acompanham. Quando ele cai, se deita, os outros vêm e o levantam. Assim, quando ele deixa de respirar, ele está rodeado de elefantes amigos, que o consolam até o último momento. Aí, eles o deixam deitado. Que respeito e que estranho para nós seres humanos, que fazemos tão pouco pelo outro. Achei estas histórias lindas. Elas me ensinaram tanta coisa e resolvi ser solidário com a coragem de Danny de tentar ser positivo, apesar daquele trágico acontecimento de seus 11 anos de idade, que levou embora toda a sua família. Por isto é que digo sempre: vivendo e aprendendo. E você caro leitor, já recordou que acontecimento marcou os seus 11 anos de idade?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total



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