Religião

10/12/2019 | domtotal.com

O advento do corpo

A manifestação do divino em um corpo de carne inaugura um modo de relacionamento com o mundo e com as situações conflituosas das realidades experimentadas pelas pessoas

Não é possível superar o dualismo da escuridão e da claridade racionalizando de fora a vida que acontece.
Não é possível superar o dualismo da escuridão e da claridade racionalizando de fora a vida que acontece. (Miguel Ángel Hernández/ Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*

Nossa experiência na atualidade é fortemente marcada por um dualismo que se manifesta em diferentes setores e aspectos da nossa existência. Por essa razão, a sensação de divisão se manifesta de diferentes maneiras em nossas vidas. Ela pode estar relacionada àquilo que experimentamos com relação a nós mesmos, mas também com relação a tudo que é outro. O mundo aparece então como esse outro no qual vivemos e que pode se manifestar ora como uma realidade tenebrosa e terrível, ora como uma realidade de luz e bondade.

Quando observamos com alguma paciência os nossos dias, vemos que a sensação de caminharmos na escuridão parece ser comum à maioria dos nossos contemporâneos. Entende-se que a escuridão é um momento no qual estamos privados da clara visão do mundo e da sua justa medida. Por essa razão, a luz é entendida justamente como contrária à escuridão. É quando uma pessoa pode ver, apreender e discernir sem acorrer à possibilidade do erro.

Essa compreensão é possível por causa das bases e estruturas do mundo no qual estamos inseridos e que ajudamos a fomentar. Esses modelos estruturais rezam que é somente a luz que revela as coisas. Mas as pessoas cuja visão física é precária ou nula nos ensinam mais do mundo, muito mais do que os próprios paradigmas previamente fixados. Essas pessoas experimentam o mundo para além da escuridão dos olhos. Experimentam a partir de um jogo sensorial que as permite ver, apreender e discernir com todo o corpo, portanto, com um campo maior de experimentação que aquele delegado somente aos olhos.

É desse lugar de superação da escuridão a partir da própria escuridão que devemos encarar as trevas que perfazem o mundo. Quando a razão não pode mais dar conta da legibilidade das relações que estabelecemos cotidianamente e das coisas como se apresentam, é preciso experimentar o mundo com o corpo todo. É preciso aprender a ver, apreender e discernir a partir de outras bases mais sensoriais. Não se trata de abrir mão da razão ou impor o silenciamento a toda filosofia, trata-se de perceber que a interação com o mundo e a sua leitura podem ir além dos requisitos racionais.

Precisamente, a fé cristã ensina que o conhecimento das realidades imediatas bem como daquelas realidades mistéricas se dá mediante a manifestação do corpo, na epifania mundana da carne. Trata-se do corpo todo e não somente da razão. E, por isso, a própria fé se vê diante da possibilidade da encarnação de Deus, da manifestação integrada e integral do divino em um corpo de carne. E essa novidade inaugura um modo original de relacionamento com o mundo e com as situações conflituosas das realidades experimentadas pelas pessoas.

Não é possível superar o dualismo da escuridão e da claridade racionalizando de fora a vida que acontece. É urgente o envolvimento direto e corpóreo com essas realidades conflituosas que nos fazem experimentar cotidianamente uma sensação de caminhar sem rumo na densa escuridão do mundo. Por isso, é preciso ouvir os ruídos barulhentos dos nossos discursos viciados, inspirar os cheiros que sobem dos ralos das relações doentias, tocar as feridas ensanguentadas e purulentas das realidades e saborear o bolor que encobre o mundo, para, então, poder ver, apreender e discernir para além da escuridão que se manifesta.

Precisamente, é a vinda no corpo e a maior interação com os sentidos possíveis a partir dele que podemos empreender novos caminhos e outras possibilidades para a vida. Essas alternativas, aos poucos, vão ganhando contornos que nos permitem avançar rumo a um crepúsculo, quando se torna possível, para além da geografia, saber-se de si um pouco mais inteiro.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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