Religião

10/12/2019 | domtotal.com

Igreja repudia agressões a indígenas no Brasil

Missionários explicam cenário de ataques e Cimi publica nota sobre assassinatos de indígenas no Maranhão e Amazonas

Cansados da impunidade da violência contra os indígenas, povo Guajajara fechou rodovia BR-226 na tarde deste sábado (7), contra mais duas mortes na região
Cansados da impunidade da violência contra os indígenas, povo Guajajara fechou rodovia BR-226 na tarde deste sábado (7), contra mais duas mortes na região (Divulgação/ Cimi)

Várias entidades ligadas à Igreja Católica no Brasil manifestam sua preocupação com o recente assassinato de indígenas.

O provincial dos missionários combonianos no Brasil, pe. Dario Bossi, fez ao Vatican News um relato do que está acontecendo na região amazônica do Maranhão. Nos últimos três dias, foram assassinados quatro indígenas:

Foi um “Tiro ao alvo” contra os indígenas, comentam os responsáveis da pastoral indigenista do Maranhão.

No dia 7 de dezembro, dois indígenas, Firmino e Raimundo Guajajara, no município de Jenipapo dos Vieiras, no limite da Amazônia oriental, estavam voltando de uma reunião de negociação com os projetos de instalações elétricas que atravessam suas terras e foram metralhados por um automóvel que ultrapassou a motocicleta deles.

Outros dois ficaram feridos e um deles veio a óbito na segunda-feira, dia 9.

Na mesma segunda feira, num clima de tensão e de protesto dos indígenas pela violência e a impunidade, o indígena Lo foi atropelado por um carro e se encontra no hospital.

Um ataque da mesma brutalidade ocorreu na cidade de Manaus, contra o indígena Tuyuca Humberto Peixoto, que atuava na Cáritas Arquidiocesana e era conselheiro municipal representando os povos indígenas. Espancado violentamente no dia 2 de dezembro, veio a óbito sábado passado.

No começo de novembro, logo depois do encerramento da assembleia sinodal sobre a Amazônia, em Roma, foi assassinato o líder Paulinho Guajajara, guardião da floresta na Terra Iindígena Arariboia. Ainda não se identificaram os assassinos e mandantes deste crime.

Cresce, no Brasil, um clima de impunidade e violência, especialmente contra as populações tradicionais e nos contextos de disputa por territórios.

O desmatamento da Amazônia brasileira continua aumentando, o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas é cada vez mais precário e, também por isso, aumentam os conflitos entre indígenas e não indígenas nos territórios.

A Terra Indígena Arariboia, com presença também de indígenas isolados, é uma das poucas regiões do Maranhão que ainda preservam a floresta, mesmo tendo sido violentamente atacada por incêndios nos meses passados.

Os guajajara das Terras Iindígenas Urucu/Juruá e Geralda Toco Preto estão acampados no Distrito sanitário especial indígena em São Luiz, ocupando-o e reivindicando acesso à energia elétrica, direito à saúde e acesso à água e ao transporte.

Já o Papa João Paulo II dizia que a Igreja sempre se preocupará em defender a dignidade dos povos indígenas, seus direitos à vida e ao respeito dos valores, tradições, costumes e culturas.

O Sínodo da Amazônia renovou esta aliança, especialmente num contexto de crescente agressão a estes povos e seus territórios.


Nota do Conselho Indigenista Missionário – Cimi

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) vem a público para denunciar e repudiar mais um atentado com vítimas fatais contra o povo Guajajara, no estado do Maranhão, e contra um indígena Tuiuca, no Amazonas.

Neste sábado (7) um grupo de lideranças indígenas Guajajara retornava de uma reunião com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Eletronorte quando foram atacados e atingidos por vários disparos de arma de fogo na BR 226, no município de Jenipapo dos Vieiras (MA).

Os dois indígenas assassinados são os caciques Firmino Praxede Guajajara, da Terra Indígena Cana Brava e Raimundo Belnício Guajajara, da Terra Indígena Lagoa Comprida; outros dois indígenas encontram-se gravemente feridos. Os disparos foram praticados por criminosos que estavam em um veículo Celta branco.

Lembramos que em 1º de novembro, a liderança Paulo Paulino Guajajara foi assassinada dentro da Terra Indígena Araribóia, também no Maranhão, atacado por invasores durante emboscada onde Laércio Souza Silva Guajajara acabou alvejado no braço e nas costas, mas felizmente sobreviveu. Até esta data o crime não foi solucionado e os criminosos seguem não identificados e presos.

Neste contexto, ressaltamos ainda que na última segunda feira, dia 2, foi vítima de espancamento e violência extrema o indígena Humberto Peixoto, do povo Tuiuca, do Amazonas, que trabalhava na Cáritas Arquidiocesana. O indígena veio a óbito também neste sábado (7).

Tais crimes, contanto ainda com atentados, ameaças, tortura e agressões ocorridas por todo país contra essas populações, têm acontecido na esteira de discursos racistas e ações ditadas pelo governo federal contra os direitos indígenas. O presidente Jair Bolsonaro tem dito e repetido, em vários espaços de repercussão nacional e internacional, que nenhum milímetro de terra indígena será demarcado em seu governo, que os povos indígenas teriam muita terra e que atrapalham o ”progresso” no Brasil.

Bolsonaro repetiu este discurso na abertura dos trabalhos das Nações Unidas em setembro deste ano, quando várias terras indígenas ardiam em fogo, principalmente na região Amazônica. Também no mês de setembro o ministro das Minas e Energia disse que estava preparando um Projeto de Lei para ser enviado ao Congresso com o objetivo de regulamentar a exploração de minérios e outras atividades da agropecuária nos territórios indígenas.

Os direitos dos povos indígenas têm sido negociados e entregues à bancada ruralista, que já tem o controle das ações da Funai em Brasília e nas regiões. Nestes últimos dias, o atual presidente da Funai, Marcelo Xavier, determinou que todos os servidores sejam obrigados a solicitar sua autorização para prestar assistência às comunidades indígenas, além de proibir o deslocamento de servidores a terras indígenas não homologadas e registradas.

Seguindo com o projeto de isolar as aldeias das políticas públicas estatais e de desvirtuar a Funai da missão de proteger e promover os direitos dos povos indígenas, Xavier manifestou desinteresse do órgão indigenista em ações judiciais que discutem demarcações de terras indígenas e substituiu antropólogos de larga experiência técnica em Grupos de Trabalho criados para proceder estudos de identificação e delimitação de terras indígenas por ‘pessoas de confiança’, sem competência para o trabalho.

O Ministério da Justiça, ao qual a Funai é subordinada, está omisso e o ministro Sérgio Moro se nega a receber os representantes indígenas que têm solicitado audiências para resolver pendências territoriais.

A ação propositada do governo federal de instrumentalização da política indigenista, em favor dos interesses econômicos dos ruralistas, mineradores e madeireiros, é grave e irresponsável, atenta contra a Constituição Federal e contra todos os acordos e convenções internacionais de proteção dos povos originários, dos direitos humanos e do meio ambiente.

O atentado contra lideranças indígenas Guajajara, neste sábado, é de responsabilidade das autoridades do governo federal, que têm negado os direitos indígenas, incitado o preconceito e o ódio na população e acobertado a invasão dos territórios e a violência física contra os povos.

Vimos, portanto, conclamar às autoridades a se submeterem à Constituição Federal de 1988, que concebe os povos indígenas como cidadãos brasileiros com seus direitos garantidos. Exigimos imediata e isenta apuração dessa onda de crimes contra os povos, que os criminosos sejam identificados e penalizados nos termos da legislação brasileira. Que as autoridades não deixem mais esse crime contra as lideranças indígenas ficar na impunidade como sempre tem acontecido.

O Cimi se solidariza com os familiares das lideranças assassinadas e feridas, com os povos Guajajara e Tuiuca e com todos os povos indígenas do Brasil nesse momento de profunda dor e indignação.


Vatican News/ Cimi



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