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14/12/2019 | domtotal.com

Antologia reúne 35 anos de poesia de Edimilson de Almeida Pereira

Escritor mineiro lança 'Poesia +', em que mescla referências culturais e históricas para vocalizar marginalizados e oprimidos

Livro exibe coesão interna admirável no processo do poeta, que é de caráter sintático
Livro exibe coesão interna admirável no processo do poeta, que é de caráter sintático (Prisca Agustoni/Divulgação)

Pablo Pires Fernandes

A trajetória de Edimilson de Almeida Pereira é singular na literatura brasileira, marcada pela experimentação da linguagem, pelas múltiplas vozes que incorpora para se referir ao passado dos povos mais marginalizados da sociedade. O constante uso de elementos da cultura afro-brasileira, seja pela forma de rimas e da oralidade ou por evocação à ancestralidade, estabelece pontes ao passado dos dois lados do Atlântico.

O poeta juiz-forano lança neste sábado, em Belo Horizonte a antologia Poesia +, antologia organizada por ele próprio que reúne trabalhos publicados entre 1985 e 2019, sem seguir a ordem cronológica, mas estabelecem conjuntos temáticos de uma estética que merece um olhar mais atento.

Em entrevista ao Dom Total, EAP aborda alguns dos temas caros a sua escrita como poeta e ensaísta – o risco da criação, o experimentalismo da linguagem, a alteridade como constituinte da identidade. Este material traz também uma resenha inédita do professor e escritor Anelito de Oliveira sobre a obra.

Sua poesia aglutina referências de várias áreas, relacionando-se com a história, com a antropologia e com a realidade do Brasil. Como esses elementos surgem em seu processo de construção poética?

Por uma questão de sobrevivência, percebi que minha trajetória social se relacionava a uma maioria de pessoas deslocadas de seus territórios de origem. Negros, indígenas, trabalhadores rurais, operários, pobres e migrantes – que são algumas de minhas referências pessoais e coletivas – são, por força das circunstâncias históricas e, também, de suas próprias competências, sujeitos que abordam a experiência humana sob diversos pontos de vida. Ao contrário do que afirmam os discursos de dominação, esses grupos de pessoas articulam práticas e visões de mundo complexas. Percebê-las desde dentro implica no aprendizado de referências estéticas, por exemplo, que se nutrem da pluralidade, da experimentação e do risco como métodos de criação. Sob esse aspecto, os lugares de trânsito cultural nos colocam diante de grandes conflitos e também de inúmeras proposições de significado para vida em sociedade. Percorro esses lugares, com maior ou menor frequência, in loco ou à distância em busca de uma linguagem poética porosa, crítica, interessada em experimentar mais do que fixar formas.

Sua poesia traz uma renovação semântica (até sintática) que incorpora procedimentos das culturas de matriz africana. Como isto – a ancestralidade, a oralidade, os ritos e religiosidade – se fazem presentes em sua obra?

O diálogo com as várias fontes culturais é um dos eixos da minha escrita. Há, no interior dos livros, um mapa propositalmente difuso dessas referências, algo como uma constelação de enigmas. No caso específico das heranças africanas, temos um mapa pelo qual viajamos pouco. Reduzir nosso trato com essas heranças ao campo do ritmo, por exemplo, é desconsiderar as estruturas formais, a dinâmica linguística, o modus operandi do pensamento, a capacidade de diálogo entre diferentes áreas de criação - apenas para citarmos alguns pontos – que perpassam poéticas como a de Luís Carlos Patraquim, autor de Lindemburgo blues. Se estendermos os olhos para a afrodiáspora, o mapa citado acima se torna mais amplo: basta pensarmos nas poéticas de Edward Britwaite, Dione Brand e Derek Walcott. Em resumo, é na errância e na reconstrução de sentidos --impostas pelas condições históricas a muitos de nossos antepassados e de nossos contemporâneos – que a minha reflexão e a minha escrita se equilibram.

A linguagem, muitas vezes, assume um caráter quase material, ao mesmo tempo com referência à oralidade. Como isto se relaciona com a herança afro-brasileira?

A oralidade, segundo entendo, não é uma modalidade expressiva a ser resgatada, tampouco é um atributo apenas de sociedades de determinados grupos sociais. Ela consiste num sistema comunicativo complexo, no qual as noções de corpo, tempo, espaço e interação com o coletivo colaboram para que consigamos expressar o que somos ou que desejamos ser. É na dinâmica da performance que a oralidade se torna acessível a cada um de nós. Ela é atemporal e assume as perspectivas que formos capazes de atribuir-lhe. À semelhança de outras vozes, é desse modo que a oralidade performática atravessa os meus textos, permitindo-me dialogar com diferentes heranças culturais.

Como seus poemas, e você, apresentam a questão da alteridade?

Em função do que comentei anteriormente a respeito da oralidade, entendo que a percepção da alteridade caminha pari passu com a percepção da identidade. A linguagem poética que me chama a atenção é aquela que corre os riscos de caminhar no fio entre a afirmação do que eu sou e daquilo que o outro/os outros são a partir de suas próprias vivências. Se há, portanto, uma característica para delinear essa linguagem, creio que podemos chamá-la de tensionamento – esse ponto que só nos acena com alguma segurança se soubermos dialogar, compartilhar e respeitar a diversidade que somos.

Como sua poética se relaciona com o cânone do Modernismo brasileiro e suas rupturas?

O Modernismo brasileiro e outras referências canônicas ocupam na minha trajetória o mesmo patamar de outras instâncias culturais que, muitas vezes, não são consideradas como fontes estéticas. Esse é caso de estruturas literárias como os "cantopoemas", que analisei num ensaio chamado "A saliva da fala". Minha disposição é a de dialogar criticamente com as experiências do poético que se realiza, em diferentes circunstâncias, como a projeção de uma certa vontade do humano de existir entre outras formas que habitam, respectivamente, o real e o imaginário.



O rosnar dos signos

Anelito de Oliveira*

O livro Poesia +, de Edimilson de Almeida Pereira, é uma antologia pensada, não uma reunião espontânea de textos, com poemas selecionados e organizados pelo autor a partir de um critério valorativo próprio, configurando, via ordenação, um horizonte hermenêutico ideal, uma autointerpretação provocadora. Segue, desse modo, o exemplo de Drummond com sua Antologia poética (1962) e João Cabral com sua Poesia crítica (1982).

Poemas aparecidos nos vários livros do poeta publicados de 1985 até 2017 aparecem em Poesia + ao lado de uma série de novos trabalhos ordenados nas seguintes seções: “Esse corpo”, “Poesia +”, “Ideias do mar”, “Ondas do rádio”, “Imperfeito cantar”, “Palavra-pênsil”, “Casa-múndi” e “Inéditos”. Um ensaio introdutório de Roberto Zular e uma orelha de Gustavo Silveira Ribeiro, professores da USP e UFMG, respectivamente, completam a edição, destacando elementos já estabelecidos sobre a obra, como a relação entre criação poética e pesquisa antropológica sobre religiosidade afrobrasileira, e novos veios interpretativos vinculados a tendências teóricas contemporâneas, como o pós-estruturalismo derridiano.

Poesia + não é a primeira antologia de poemas de EAP, mas sim a terceira, chamando a atenção para o lado bastante metódico do autor, pouco comum entre a maioria dos poetas brasileiros por motivos diversos, a começar pelo pouco prestígio da poesia. Antes apareceram Corpo vivido, em 1991, reunindo oito livros, e uma antologia em quatro volumes, apresentando, nos anos de 2002 e 2003, 20 livros de poesia sob os títulos de Zeosório blues, Lugares Ares, Casa da palavra e As coisas arcas, publicados pela editora belo-horizontina Mazza Edições, que se tornou pouco a pouco uma referência de livros de EAP.

Poesia +, que aparece na sequência de dois outros livros do poeta publicados por editoras paulistanas em 2017 – E, pela Patuá, e Qvasi, pela Editora 34 – demarca, finalmente, o lamentavelmente tardio interesse de uma editora da “capital econômica do pais” por um poeta negro (e não é nada confortável dizer tudo isso), da cidade de Juiz de Fora, de uma complexa zona fronteiriça mineiro-carioca, e, não menos importante, um autor que não compartilha da tradição modernista hegemônica pura e simplesmente, que ousa inventar seu próprio “mapa de desleitura” (Bloom) e acessar paragens inusitadas de sentido.

Entre as linhas de força da poética de EAP, destaca-se a vocalidade, o primado da voz sobre a escrita, da phonè sobre o graphos, do dizer sobre o ver, tudo isso que nos leva à lírica em sua fonte tão grega quanto negra, em que a mimetização, a representação, faz-se numa instância inter, de modo aditivo: palavra + som + corpo, e daí a relação, só aparentemente nova, entre poesia e canto e música e teatro e pintura etc.

Como desdobramento da vocalidade (não exatamente da oralidade, para lembrar a distinção postulada por Zumthor), nota-se a produção de corporeidade como locus de irradiação da poesia enquanto discurso comunitário, que não se subordina apenas a um sujeito poeta, que visa presentificar uma experiência histórica coletiva, portadora de um saber estranho que, no limite, caracteriza-se como experiência da comunidade afrodiaspórica resultante da escravidão negra nas Américas. E, como consequência da relação entre vocalidade e corporeidade que se adensa ao longo de toda a produção desse poeta, vê-se a opacidade como particularidade semântica. Uma obra que se coloca na contramão da “sociedade da transparência” (Chul-Han), na qual tudo se quer ver para dominar, domesticar, escravizar.

Não é fácil destacar momentos mais, tampouco menos, significativos em Poesia +, sobretudo porque há uma coesão interna admirável no processo do poeta, que é de caráter sintático: escrever é ordenar palavras, que nomeiam sujeitos, objetos, situações, vivências, sentidos – que sempre instauram um mais além do visível, uma zona invisível, escura, profunda.

A título de exemplo da relação entre vocalidade, corporeidade e opacidade, veja-se um dos poemas que integram o segmento “Casa-múndi”, nos quais se reúnem trabalhos que articulam “aura” e “ágora” (Bhabha), as dimensões privada e pública, tensionando-se dados éticos e estéticos e exibindo, assim, nosso dilema histórico muito básico entre o legal e o justo.

O poema Visagens, em clave liricamente dramática, apresenta a personagem Lei: “Não vos preocupeis. / Há séculos nesse jardim / Outra função não tenho / A não ser esperar (-) “Libertar é meu desejo / Eu que respiro / Porque vireis (-) “Confiai, confiai./ Serei mansa / ao quebrar os ossos”. Após essa auto-apresentação da Lei, o poema desvela cinco enigmas implícitos na Lei. O “Quinto enigma” diz: “Os signos rosnam. / Sou para não ser./ Se liberto aprisiono”. E a Lei termina dizendo: “Sou verdade / para mim mesma. (-) Confiai, confiai./ Serei mansa / ao quebrar os ossos”.

Visages foi publicado originalmente no livro Rebojo em 1995, 10 anos depois da estreia do poeta com Dormundo, e demarca, ao lado de outros títulos aparecidos naquele mesmo momento, a inflexão decisiva da poética de EAP em direção a um horizonte “etnopoético”. O desmascaramento da Lei, com uma sintonia surpreendente com o momento terrível que o Brasil atravessa desde 2013, é muito paradigmático da historicidade de que toda essa poética está revestida, razão maior, sem dúvida, da sua opacidade, que, em última análise, resulta de tentativa extrema de pensar-sentir-dizer a dilaceradora experiência afrobrasileira.

Contra a letra da Lei, elaborada com o objetivo específico de oprimir os subalternos, de fundamentar a “necropolítica” (Mbembe), o direito de o soberano decidir quem deve morrer, o poeta aciona o espírito resiliente, invencível, dos seus ancestrais africanos, sob o signo do orixá Exu, o abridor de caminhos, no qual o próprio ensaísta EAP reconhece uma referência fundante para se pensar o estatuto da literatura afro. O espírito ancestral é o dispositivo epistemológico responsável pelo devir negro propriamente dito dessa poética, que se empenha, sobretudo, em dignificar a comunidade negra humilhada, silenciada, apagada em nome de um projeto civilizatório racista, absurdamente bárbaro.


Anelito de Oliveira é doutor em Literatura Brasileira pela USP, pós-doutor em Teoria Literária pela Unicamp e autor, entre outros, de A menina chinesa (Páginas Editora) e Os acampamentos insustentáveis (Kotter Editorial). anelitodeoliveira@globomail.com



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