Religião

17/12/2019 | domtotal.com

Questão religiosa pode levar a guerra entre Índia e Paquistão

Conflitos e crise migratória são esperados como decorrência de lei de cidadania que exclui muçulmanos

Manifestação para denunciar cidadãos que discriminam os muçulmanos, em Bangalore
Manifestação para denunciar cidadãos que discriminam os muçulmanos, em Bangalore (AFP)

Confrontos entre milhares de manifestantes e a polícia irromperam em Nova Délhi, capital da Índia, nesta terça-feira (17), na mais recente onda de violência durante protestos contra uma lei que facilita a nacionalização de não muçulmanos vindos de países vizinhos.

O governo do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, alega que a nova lei protege minorias religiosas, como hindus e cristãos, de perseguições em Bangladesh, Paquistão e Afeganistão ao oferecer um caminho em direção à cidadania indiana. No entanto, a lei não se aplica aos muçulmanos, o que críticos dizem enfraquecer as fundações seculares da Índia.

A polícia disparou gás lacrimogêneo na região de New Seelampur para afastar os manifestantes, que se escondiam atrás de barricadas e atiravam pedras. Ao menos dois policiais ficaram feridos, disse uma testemunha. "Começou como um protesto pacífico contra a lei da cidadania... mas saiu do controle", disse o morador Azib Aman.

Carros foram danificados e estradas ficaram cobertas por pedras enquanto pequenos incêndios nas vias lançavam fumaça no ar. Pequenos grupos de jovens, alguns com seus rostos cobertos, atiravam pedras e garrafas.

Preocupações

Há crescentes preocupações em torno das medidas do governo, liderado pelo partido hindu-nacionalista de Modi, em relação aos 172 milhões de muçulmanos na Índia, que representam cerca de 14% da população.

A lei da cidadania segue a revogação do status especial da Caxemira, região de maioria muçulmana, e uma decisão judicial favorável à construção de um templo hindu no local de uma mesquita destruída por entusiastas do hinduísmo.

Os manifestantes do nordeste do país se opõem a essa lei porque ela causaria um fluxo de refugiados hindus da fronteira de Bangladesh para sua região, onde já existe um frágil equilíbrio intercomunitário. Uma crise de refugiados também é temida pelo primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, para quem as ações indianas sobre a Caxemira e a lei da cidadania podem afastar os muçulmanos da Índia.

"Estamos preocupados que não haja apenas uma crise de refugiados, estamos preocupados que isso possa conduzir a um conflito entre dois países detentores de armas nucleares", afirmou Khan a um fórum global sobre refugiados em Genebra.

Modi disse em um comício para uma eleição estadual nesta terça-feira que seus rivais políticos estão tentando enganar estudantes e outros para provocar protestos. "Isso é política de guerrilha, eles deveriam parar de fazer isso."

Mais protestos

Durante semanas, foram realizadas manifestações contra essa nova lei, em um movimento de protesto de magnitude raramente visto no país desde a chegada dos nacionalistas hindus em 2014.

Nesta terça-feira, manifestantes se reuniram na cidade de Calcutá (leste), convocados pela chefe do Executivo local, Mamata Banerjee, uma ferrenha opositora de Modi. Também houve manifestações no estado de Kerala (sul), também controlado pela oposição. E outras concentrações são esperadas na capital Nova Délhi.

Nos últimos dias, as autoridades cortaram a internet e usaram a força para dispersar marchas e multidões em várias partes deste país com 1,3 bilhão de habitantes.

Início do movimento

O movimento começou na semana passada, no nordeste do país, onde seis pessoas morreram e ocorreram cenas de caos, no momento em que o Parlamento indiano examinava e aprovava o texto.

A mobilização se intensificou após os violentos confrontos no domingo entre manifestantes e policiais da grande universidade Jamila Millia Islamia na capital, na qual houve 200 feridos, principalmente estudantes. A polícia fala de 39 estudantes e 30 policiais feridos. Este episódio resultou em marchas de solidariedade em vários campus universitários de todo o país na noite de domingo.

"A violência contra estudantes que se manifestam pacificamente não pode ser justificada sob nenhuma circunstância", disse Avinash Kumar, diretor da Anistia Internacional na Índia, em comunicado.


Reuters/ AFP/ Dom Total



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