Religião

19/12/2019 | domtotal.com

Muçulmanos se sentem cidadãos de 2ª classe na Índia do premiê Modi

Ascensão do partido hinduísta ao poder desencadeia ações contra população muçulmana

Manifestação maciça contra nova lei de nacionalidade indiana em 16 de dezembro de 2019 em Calcutá
Manifestação maciça contra nova lei de nacionalidade indiana em 16 de dezembro de 2019 em Calcutá (AFP)

Primeiro, linchamentos. Em seguida, um controverso registro de cidadãos e, depois, o sinal verde para a construção de um templo hindu nos escombros de uma mesquita. Os muçulmanos indianos esperam sem muitas esperança por um futuro sob o domínio dos nacionalistas hindus.

Embora não afete diretamente os indianos de fé muçulmana, a nova lei de cidadania do governo de Narendra Modi cristaliza os temores e a indignação dessa comunidade. E gerou um dos maiores protestos dos últimos anos no país.

"É tão claro quanto a água. Eles querem construir uma nação hindu seguindo o modelo de Israel", diz Zubair Azmi, advogado de Bombaim. "Tenho a impressão de que este país entrará em erupção. Conheço hindus seculares lutando ao nosso lado, mas seu número diminui porque outros hindus acreditam na propaganda do BJP contra o islã", acrescenta esse muçulmano de 46 anos, em referência ao Partido Bharatiya Janata (BJP), do chefe de governo.

Desde a chegada ao poder de Narendra Modi, em 2014, a sociedade indiana conhece a disseminação e a banalização de um discurso étnico-religioso baseado em uma ideologia da supremacia hindu, na qual seus críticos veem um perigo para a diversidade indiana.

A gota d'água

Nesse contexto, a Lei da Cidadania, que facilita a naturalização dos refugiados com a condição de que eles não sejam muçulmanos, parece ter sido a gota d'água. Nos últimos anos, cidades e ruas com nomes muçulmanos foram renomeadas para dar um nome mais "hindu".

Ao mesmo tempo, milícias hindus autoproclamadas lincharam várias dezenas de pessoas em nome da defesa da vaca sagrada, principalmente muçulmanos e dalits (antigos "intocáveis").

Em agosto, Nova Délhi revogou à força o status de autonomia da Caxemira, a única região de maioria muçulmana na Índia. Em novembro, a Suprema Corte autorizou a construção de um grande templo hindu em Ayodhya, no local de uma mesquita demolida em 1992 por fanáticos hindus.

Essa destruição causou uma das piores ondas de violência na história indiana desde a sua independência. "Eles vão atacar toda a Índia", disse Ayesha Renna, uma muçulmana que se tornou um ícone de manifestações, depois de proteger uma de suas colegas dos espancamentos da polícia neste fim de semana em Délhi.

Um polêmico registro de cidadãos – chamado pela sigla "NRC" – suscita uma preocupação especial entre os muçulmanos. Habib-ur-Rehman, de 50 anos, acaba de passar quatro preso em um campo para "estrangeiros" no estado de Assam (nordeste) por causa do NRC. Este dispositivo foi criado em nome da luta contra a imigração ilegal nesta região, com frequentes confrontos entre comunidades.

"Cinco gerações de minha família viveram nesta vila e agora me dizem que sou um infiltrado porque sou muçulmano", lamenta esse pai de quatro filhos, recentemente libertado, e que teme ser expulso da Índia.

De acordo com Ambreen Agha, professor da O.P. na Universidade Global Jindal de Sonipat, a oposição à lei contra a cidadania se intensificará. "Houve resistência no passado, mas o que acontece nas ruas hoje é sem precedentes na história da Índia moderna", explica. Na Índia, os muçulmanos "não têm nada a perder", opina.


AFP



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