Religião

20/12/2019 | domtotal.com

Ele está no meio de nós: sabemos reconhecê-lo?

A vida do cristão é sempre acolhida de sua presença em cada pobre, sofredor, injustiçado

A melhor preparação para o 'tremendo e glorioso dia' do Senhor é acolhê-lo a cada dia e em cada pessoa humana
A melhor preparação para o 'tremendo e glorioso dia' do Senhor é acolhê-lo a cada dia e em cada pessoa humana (Rémi Walle/ Unsplash)

Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

Existe um axioma muito importante na Tradição da Igreja e da Teologia: lex orandi – lex credendi – lex agendi. Isso significa, sem entrar em pormenores, que a maneira como a Igreja reza, expressa seu modo de crer e agir. Assim, aproveitando o tempo litúrgico do Advento, nos propomos a pensar sobre a presença contínua do Cristo no meio de nós (e a necessidade de reconhecê-la) para o servirmos gratuitamente nos mais diversos modos como ele se manifesta a nós na história.

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O Prefácio do Advento 1A, Cristo, Senhor e juiz da história, expressa muito bem a espiritualidade vivida nesse tempo de alegre expectativa: “Vós preferistes ocultar o dia e a hora em que Cristo, vosso Filho, Senhor e juiz da história, aparecerá nas nuvens do céu, revestido de poder e majestade. [...] Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização do seu reino”. 

O tempo do Advento celebra duas vindas de Cristo: a primeira no Natal, nascido em pobreza, desprovido até do mínimo de dignidade (“não havia lugar para eles na hospedaria” – Lc 2,7b); a segunda, no fim dos tempos, donde surgirá novo céu e nova terra. Essa segunda vinda é o que expressa o Prefácio do Advento 1A, recordando-nos ainda, que a melhor preparação para esse “tremendo e glorioso dia” é acolhê-lo, numa assim chamada terceira vinda, a cada dia e em cada pessoa humana. Para bem acolhê-lo, diz o prefácio, é preciso ter fé que nos desinstala e desorbita, pois não vem como nós, muitas vezes, gostaríamos e exige de nós olhos novos, atitudes novas e, sobretudo, caridade operativa que seja capaz de testemunhá-lo no serviço humilde, desmesurado e desinteressado a esses novos rostos que expressam sua eterna presença na história.

Isso que está expresso no tempo litúrgico do Advento nada mais é do que a sempre desinstaladora verdade do Evangelho, mas que, também, sempre de novo, preferimos ocultar e relativizar: sua exigência de justiça aos pobres e injustiçados de todos os tempos como critério de participação na vida eterna. Para ilustrar isso, bastam duas passagens significativas do Evangelho. 

Em Lucas, contando uma parábola, Jesus recorda que não basta alegar que estivemos ouvindo sua palavra e comendo e bebendo em sua presença, se continuamos a praticar a injustiça: “Em verdade vos digo: não vos conheço, afastai-vos de mim vós que praticais a injustiça” (Lc 13,27). Em Mateus 25, 31-45, no discurso escatológico, Jesus recorda-nos “o protocolo com base no qual seremos salvos” (papa Francisco): “tive fome... tive sede... era forasteiro... estava nu... estava doente... estava preso...”; “quando foi Senhor?”; “quando fizestes isso ao menor dos meus irmãos”.

Assim, a vida do cristão, discípulo do Senhor, é sempre acolhida de sua presença em cada pobre, sofredor, injustiçado, pisado, com vida e dignidade negadas... Com cada um desses quis o Senhor se identificar e exige de nós conversão para o serviço desmesurado a eles como critério e medida de nossa participação na alegria do amor eterno. Assim, nossa participação no culto deve levar-nos a um compromisso ético de doação da própria vida pelos que tem sua vida negada. É isso que nos afirma o papa Bento XVI: “o Senhor Jesus, pão de vida eterna, incita a tornarmo-nos atentos às situações de indigência em que ainda vive grande parte da humanidade [...]. O alimento da verdade leva-nos a denunciar as situações indignas do homem, nas quais se morre à míngua de alimento por causa da injustiça e da exploração, e dá-nos nova força e coragem para trabalhar sem descanso na edificação da civilização do amor” (papa Bento XVI, Sacramentum caritatis, n. 90). 

Nossa participação na Eucaristia, quando reconhecemos e recebemos a presença real de Cristo, deve levar-nos a um compromisso de reconhecimento da presença Dele nos pobres e compromisso real com Ele: “Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. 

O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis” (papa Francisco, mensagem para o 1º Dia Mundial do Pobre). É isso que pedimos na Oração Eucarística 6D: “Dá-nos olhos para ver as necessidades e sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs. Inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos. Fazei que, a exemplo de Cristo e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade da liberdade, da justiça e da paz para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo”.

Aprendamos, pois, a reconhecer a presença do Senhor em todos, aprendamos a identificá-lo com e em todos para que nosso serviço a Ele seja autêntico, sincero e profético. São os que excluímos e marginalizamos sua presença real em nosso meio.

Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte/MG. Professor e Coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) – Fortaleza/CE.



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