Religião

20/12/2019 | domtotal.com

Entre imagens e presenças de Cristo: a importância da ressignificação

Muitas vezes cultivamos imagens de Deus que podem estar prenhes de ideologias que em nada manifestam o Evangelho

Cada pessoa constrói sua própria imagem, a partir das experiências que faz e das influências que recebe e, a partir disso, relaciona-se
Cada pessoa constrói sua própria imagem, a partir das experiências que faz e das influências que recebe e, a partir disso, relaciona-se (Unsplash/ Aaron Burden)

Felipe Magalhães Francisco*

Das esperanças e confianças cristãs, uma das mais significativas e que aparece na base teológica de toda experiência litúrgico-religiosa, é a da presença de Jesus: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18,20). Os evangelhos abordam, em vários contextos, falas de Jesus a respeito de sua presença, mesmo depois que ele voltasse para junto do Pai. O envio do Paráclito, o Espírito Santo, seria uma maneira de manter viva a memória Iesu, bem como um alento de esperança a respeito do reencontro.

O cristianismo só tem razão de ser pela fé em Jesus Cristo, o revelador do Pai. Afirmar este óbvio é deveras importante, sempre, pois o risco do apagamento da presença do Cristo nos meios cristãos é uma constante. Na base litúrgica do catolicismo está a compreensão de que todo culto, verdadeiramente cristão, só pode ser feito na pessoa do Cristo, pois ele é o mediador. Isso pressupõe a confiança na presença desse Cristo, por força sacramental do Espírito Santo. No pentecostalismo e no neopentecostalismo, expressões bastante fortes em nosso país, a autoridade de Jesus Cristo é sempre pressuposta e pedida: ora-se e profetiza-se em nome de Jesus. De alguma forma, isso também supõe a presença crística.

Essa presença pressupõe imagens. Por imagens, aqui, estamos a dizer a maneira como compreendemos a figura de Jesus. Cada pessoa constrói sua própria imagem, a partir das experiências que faz e das influências que recebe e, a partir disso, relaciona-se. Há imagens mais institucionalizadas que outras. Diz respeito, como exemplo, de como se compreende dizer que o pão e o vinho eucarísticos são presenças reais de Cristo. O dogma afirma a presença; a maneira como se compreende como se dá essa presença, no entanto, passa pelas imagens que os cristãos católicos constroem. Muitas vezes, essas imagens podem estar prenhes de ideologias que em nada manifestam o Evangelho.

Isso significa que é preciso que bebamos sempre da fonte, para uma imagem o mais próximo possível de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Importa destacar que mesmo os evangelhos trazem imagens de Jesus, a partir da experiência de fé que fizeram com sua Ressurreição. Mas essas imagens nos apontam para o mais próximo do testemunho daqueles e daquelas que experienciaram o convívio com o Mestre e Senhor. Uma vez que estejamos embebidos da fonte, podemos perceber e ressignificar os modos como compreendemos e experimentamos a presença de Jesus Cristo em nosso meio e em nossa história. Só assim a confiança de que Ele está no meio de nós estará firmada numa esperança que não se manifesta como ilusão.

No primeiro artigo de nosso Dom Especial, Getsêmani, amor e angústia: ou, sobre o perigo de se cristalizar a figura de Deus, Fabiano Veliq nos conduz numa reflexão a respeito de um dos momentos mais dramáticos da vida de Jesus, para abordar a importante questão sobre as imagens de Deus e de Jesus, com as quais nos relacionamos. Tânia Mayer propõe o artigo O homem-Deus escândalo, no qual reflete sobre a imagem de Jesus, na perspectiva da categoria escândalo, mostrando que, muitas vezes, encontrar o Cristo nos tira nossas próprias convicções e projeções. Por fim, Antônio Ronaldo Nogueira Vieira fecha nosso Especial com o artigo Ele está no meio de nós: sabemos reconhecê-lo?, em que retoma a fundamental compreensão evangélica de que Jesus se mostra no rosto dos empobrecidos e empobrecidas de nossa história, refletindo a partir da espiritualidade do Advento.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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