Religião

24/12/2019 | domtotal.com

O menino Jesus não irá nascer

O nascimento de Jesus, a cada dia, é ato de resistência às forças do mal e da opressão

O menino não vai nascer, mas, se nascer, será atacado pelas forças da morte
O menino não vai nascer, mas, se nascer, será atacado pelas forças da morte (Unsplash/ Barbara Alçada)

Tânia da Silva Mayer*

Então é natal e o menino Jesus não irá nascer. Seus pais são refugiados e é muito difícil que uma mulher grávida consiga cruzar as fronteiras de sua terra e chegar com vida a uma terra vizinha. Além do mais, ela corre sério risco de ser alvejada na barriga por uma bala perdida (disparada pela polícia ou por outros bandidos?). Essa bala pode matar a mãe e matar o menino. Ele não vai mesmo nascer, não dará tempo de ser socorrido em um hospital público, uma vez que seus pais são pobres e não gozam das comodidades de um caríssimo plano de saúde.

Tudo bem, vamos supor que cheguem ao hospital público para a hora do parto, ainda assim o menino não deve nascer. A mãe dele não é mulher branca e sua pele escura, ainda mais queimada pelo sol do caminho, a colocará numa situação de preconceito racial. Mulheres não brancas, sobretudo mulheres negras, são vítimas constantes de violência obstétrica, física e até psicológica, e isso pode comprometer o parto. E se tratam assim a mãe, imagina o que não farão ao bebê! Mesmo assim, vai ser muito difícil sobreviver.

Vai ser muito difícil sobreviver mesmo e passar da infância ou da adolescência. Acontece que ele pode ser facilmente cooptado pelo tráfico de drogas, e feito de aviãozinho, morre logo pelos seus ou pelos rivais. Ainda assim, se ele resolver estudar, vestir o uniforme, pegar a mochila e ir andando para a escola, poderá ser "confundido" com um bandido (é livre matar?) e ser morto por uma bala policial qualquer, porque o defensor da ordem viu no estudante uma ameaça para o sistema que ele julga proteger. Ele poderá ainda estar dentro da Kombi com a mãe e levar o único tiro disparado em direção ao veículo. A situação é deveras catastrófica, ou se morre de fome ou a violência do sistema mata. O menino não deve viver muito para se tornar homem.

Mas suponhamos que, por ironia do destino, o menino se torne homem. Como não é branco, estará constantemente ameaçado. Em cada loja que entrar os seguranças irão vigiá-lo, pois supõem que ele irá roubar algo. Também na rua, será revistado pela guarda em cada quarteirão ou esquina, pois "parece" um homem perigoso. Ele não é branco. E como todo não branco encontrará resistência para que não estude, não ocupe cargos de prestígio nas empresas e não se desenvolva na vida.

Se ele decidir ir com a família a um chá de bebê, deve morrer por oitenta balas que sairão das armas dos homens do Exército. Não é possível escapar. O carro em movimento e as balas descontroladas acertarão seu corpo sem que ele saiba de nada. Mas o menino pode também se tornar um cantador de lixo que tentará ajudar uma família a fugir de oitenta balas, mas outras também serão disparadas em sua direção e ele morrerá "na contramão, atrapalhando o trânsito".

Por essas razões e fatos é que a celebração do natal é antes de tudo uma celebração de resistência ao sistema de morte que movimenta o mundo se impondo contra as vidas periféricas. Resistência àqueles hipócritas que defendem fetos e não defendem os meninos e meninas, suas mães e pais, de modo a negar-lhes direitos básicos e inalienáveis que conferem dignidade e vida. Ainda hoje, o mundo é inóspito ao menino Jesus e sua família, porque esses três colocam em evidência as desigualdades e os preconceitos que uma elite quer esconder.

O natal nada tem de magia e alienação, trata-se da ação subversiva de Deus que desobedece às regras do mundo e confronta os poderosos em seus planos de exclusão e segregação. É só por causa dessa teimosia em contrariar os que arrotam caviar enquanto a massa come ovos que se pode acreditar no nascimento dessa criança como a flecha da esperança que nos moverá para luta pela necessária transformação desse mundo.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.



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