Religião

27/12/2019 | domtotal.com

Entra... Vem comer comigo!

Na noite em que não passamos fome, aí começa o Reinado de Deus

Produzir amor é o que queremos ao redor dessa mesa

O sentido primário da reunião natalina, agora lida em paradoxo à fartura da mesa destas épocas do ano
O sentido primário da reunião natalina, agora lida em paradoxo à fartura da mesa destas épocas do ano (Christiann Koepke/ Unsplash)

Rodrigo Ladeira*

Cumprindo um costume anual, estou na casa dos meus pais para a celebração do Natal. Essa festa, com gosto cristão, sempre me leva a uma “engorda”, sabida, solenemente ignorada nos dias 24 e 25 (não basta a ceia, tem que ter almoço de natal), mas que termina com um ganho de uns 3 quilos de pura barrigudice. É lá onde as gorduras gostam de morar.

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Na ceia natalina, a mesa com os assados, fritos e cozidos são a atração principal. Gorduras, sal e açucares; cheiros, cores e sabores que fazem salivar qualquer mortal. Alimentos lindamente dispostos em travessas que só saem do armário nestas ocasiões. O mote de todo Natal se resume a “se estava na dieta hoje não me lembro”. A decoração cheia de muito vermelho (a cor do faminto). As playlists em geral começam com Noite Feliz e chegarão, certamente, aos sertanejos de tipo Marília Mendonça misturados com os “reboleitionsà la Anitta. Mas é a dieta natalina, sem sombra de dúvidas, a alma desta festa cheia de pisca-piscas, “sapatinhos na janela” e presentes embaixo do pinheiro. À parte os presentes para garotada e as luzinhas, este é o dia de comer e beber como se não houvesse amanhã.

Fiz este arremedo de composição de cena como auxílio para capturar algo que me estrelou o céu do coração ao ler uma frase de um discurso recente do papa Francisco. A certa altura ele diz: “Devemos iniciar processos e não ocupar espaços (...) O tempo começa os processos, o espaço cristaliza-os”.

Aqui recobro o sentido primário da reunião natalina, agora lida em paradoxo à fartura da mesa destas épocas do ano. O motivo de nos reunirmos é o mistério da natividade de Jesus. O recém-nascido, parafraseando Vinícius de Moraes, “Não tinha teto. Não tinha nada” (A Casa). Diferente das nossas ceias e almoços natalinos fartos, no cenário da noite de natal original, “fartou tudo”. Não há travessas chiques, apenas a manjedoura, cocho para a alimentação dos animais. Não existem enfeites, apenas um céu salpicado de estrelas com um sinal guia, a estrela-cometa. Não há comilança, apenas aquele que se tornou, desde o início, indício de contradição. A manjedoura de Belém é já prenúncio da Cruz. “Dono de tudo”, prefere a pobreza. Princípio-sem-princípio, escolhe ser o último. Sua presença altera o modo como contamos a história. “Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da história. Isto leva a privilegiar as ações que geram novas dinâmicas” (Papa Francisco, ibidem).

“O Verbo se fez carne” (Jo 1,14) e, modificando a estrutura do tempo e o modo como compreendemos o amor, que é processo, “ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para aquele que se há de revelar como ‘o pão vivo, o que desceu do céu’ (Jo 6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par doutros padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: ‘Deitado numa manjedoura, torna-se nosso alimento’.” (Papa Francisco, ibidem).

A mesa é sinal idolátrico se a tomamos como espaço de satisfação “idio-gastronômica” (ter o olho maior que a barriga). O cristianismo é a religião do tempo e não do espaço. A encarnação diz que o “sem-tempo” tocou o tempo. Mistério do Amor que nos questiona o sentido da vida dando-se a nós numa travessa-manjedoura colocando-nos na mesa dinâmica do tempo e não do lugar. Não são os alimentos da mesa, mas o “comer juntos”. Não foi isso o que aconteceu naquela noite em que ele se encarnou? Ao redor da mesa-manjedoura estavam reunidos numa grande família extensa – Maria, José, os animais e os convivas, como ainda hoje retratamos no presépio. Se a mesa for lugar apenas de comer então, feito patos que só engolem e não saboreiam, comamos e bebamos. Mas se a mesa é experiência, afeto e abertura ao mistério do outro – não há mesa sem comensais! – então “comamo-nos”. Confraternizemo-nos! Produzir amor é o que queremos ao redor dessa mesa!

É próprio do amor dar-se. Deus não apenas nos ama, ele é O AMOR. (1Jo 1). O paradoxal do AMOR que é Deus, cuja lógica se apalpa no mistério da encarnação do Filho, nosso Irmão, é que na nossa mesa não falte o alimento da “fraternura” em fartura. Na noite em que não passamos fome, aí começa o Reinado de Deus. Não é à toa que no dia em que recordamos a chegada do menino-Deus, somos agraciados com uma mesa farta. É paradoxal que o lugar de impulso motivador do Natal seja a de uma família que não tinha sequer mesa. Mas esta história não é sobre ter ou não alimento, mas de tornar-se alimento. Venha! Senta aqui comigo. Vamos nos fartar de novos tempos. “Tu vens e eu já escuto os teus sinais” (Alceu Valença).

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.



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