Cultura Cinema

30/12/2019 | domtotal.com

'Dois papas', de Fernando Meirelles, mostra grande atuação de dois ótimos atores

Obra de ficção tem bons momentos quando aposta na comédia, mas exagera no didatismo

Anthony Hpkins e Jonathan Pryce brilham em 'Dois papas'
Anthony Hpkins e Jonathan Pryce brilham em 'Dois papas' (Netflix)

Alexis Parrot*
De Roma

Para inicio de conversa, é preciso deixar claro que Dois papas, o filme dirigido por Fernando Meirelles, é uma obra de ficção. A tal longa conversa entre Bento XVI e Francisco nunca ocorreu.  

É pura liberdade poética, o que está longe de ser um problema - literatura, teatro e cinema usam do artifício largamente, atingindo resultados memoráveis. Em Amadeus, por exemplo, o dramaturgo e roteirista Peter Shaffer reinventa a vida de Mozart e Salieri, narrando uma rivalidade que nunca existiu, para construir uma preciosa reflexão sobre a inveja e suas consequências. E, se até Ben-Hur cruzou com Jesus Cristo, tudo é possível na esfera das artes.

Leia também:


Mas, por vários motivos, este Dois papas não é Amadeus, e a liberdade usada como ponto de partida pode ter ido longe demais. Na vida real, declarações públicas de Ratzinger tentam sabotar o pontificado de Bergoglio, inflamando seus opositores dentro e fora da Igreja. Definitivamente, os dois não são amigos e pintar a relação dos religiosos como um bromance é, no mínimo, absurda.    

Fora a discussão intelectualmente rasteira desenvolvida pelos dois, cheia de frases de efeito (é lícito imaginar que alguém ocupando ou em vias de ocupar o trono de Pedro teria mais robusteza teológica), o roteiro decepciona principalmente nos flashbacks.   

O que deveria ser usado como perspectiva histórica, para ajudar a entender o que se passava durante os anos de formação de Bergoglio, começa como aula de telecurso: "Nos anos 1970, o governo foi tomado por uma ditadura militar. Naquele tempo, me tornei o chefe dos jesuítas na Argentina. Todo mundo era suspeito. Trinta mil pessoas foram assassinadas...", ensina Francisco para Bento, como se este fosse um ignorante que nunca tivesse lido um jornal na vida, ou nunca tivesse ouvido falar da Argentina. 

A condescendência com que Meirelles trata o público incomoda, mas não é o maior problema. Dois papas flerta perigosamente com a inverdade ao apresentar o jovem Bergoglio como pau mandado dos militares, apenas para construir dramaticamente o dilema moral supostamente vivido por ele.      

O fato de não ter se levantado publicamente contra a ditadura ou de manter contatos com membros do alto escalão do regime (natural para um provincial jesuíta) não serve para transformá-lo automaticamente em colaboracionista. Se o filme mostra que Bergoglio acolhia secretamente ativistas procurados pelos militares, tendo salvado muitas vidas naqueles tempos, falha ao retratá-lo como submisso e conivente no caso dos padres Jalics e Yorio.   

O cartaz do filme ‘Dois Papas’, na entrada do Vaticano (Foto Alexis Parrot)O cartaz do filme ‘Dois Papas’, na entrada do Vaticano (Foto Alexis Parrot)Os dois jesuítas, que trabalhavam como missionários em uma favela de Buenos Aires, foram sequestrados e durante cinco meses ninguém soube de seu paradeiro. Usando de uma artimanha para substituir o padre que celebrava missas na casa de Jorge Videla, foi Francisco que arrancou do general, o mais poderoso da junta militar que governava o país, a confirmação da prisão dos padres e sua localização. Estavam no pior centro de torturas do regime, a ESMA, Escola de Mecânica da Armada.

Conforme depoimento prestado em 2010, junto ao tribunal que devassou a ditadura argentina, Bergoglio afirma que, após descobrir o paradeiro dos missionários, procurou o almirante Emilio Massera, comandante da ESMA, nos seguintes termos: "Eu disse a ele: 'Olha, Massera, eu os quero de volta vivos.' Levantei-me e saí." Coincidência ou não, Jalics e Yorio foram libertados no dia seguinte.

A minissérie Pode me chamar de Francisco, de 2016, outra produção da Netflix, parece lidar com o assunto de maneira mais eficaz e próxima da verdade. Ao ignorar deliberadamente a versão dada pelo próprio Francisco, Meirelles deixa claro que sua responsabilidade com a verossimilhança se restringe à reprodução da Capela Sistina como cenário.

Até mesmo o conclave já havia sido encenado com mais joie de vivre em Habemus papam, a deliciosa comédia de Nanni Moretti. O filme mistura dogmas católicos e psicanálise, enquanto acompanhamos a crise existencial de um papa recém-eleito, vivido magistralmente por Michel Picolli.   

Em meio a tantos dissabores históricos, o embate entre os dois papas fica em segundo plano. O que de fato vale a pena no filme é o encontro entre os dois atores. Anthony Hopkins e Jonathan Pryce (com lugares já garantidos na corrida ao Oscar) aproveitam ao máximo a maturidade física e profissional em que se encontram e nos brindam com um verdadeiro espetáculo de interpretação. E de comédia.

A química entre os dois lembra muito os eternos parceiros Jack Lemmon e Walther Matthau, em filmes como Um estranho casal, A primeira página ou Dois velhos rabugentos. Se Dois papas tivesse abraçado totalmente o humor ou a farsa, poderia ter sido uma grande comédia. Da maneira como foi feito, é apenas um filme menor que teve a sorte de contar com um elenco fora de série.

Dois papas, de Fernando Meirelles, com Anthony Hopkins e Jonathan Pryce. Em cartaz na Netflix


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Comentários