Religião

27/12/2019 | domtotal.com

As refeições do Natal como uma atualização da manjedoura

A mesa da refeição é mais do que um lugar de saciar a nossa fome de alimento

As refeições natalinas tornam-se atualização da manjedoura
As refeições natalinas tornam-se atualização da manjedoura (Unsplash/ Deleece Cook)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

É Natal. É tempo de alegria e confraternização. Momento especial para muitas famílias se encontrarem e, torno da mesa, se confraternizarem. Tempo de reviver com alegria e gratidão o mistério de um Deus que se faz criança, que assume a nossa condição humana, sem se envergonhar da nossa fragilidade. O Natal é tempo de contemplar o sinal admirável do presépio e se sensibilizar pela ternura de um Deus que se faz Menino para revelar a grandeza do seu amor. “Nascendo no presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura.

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Do presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado” (Papa Francisco, Admirabile signum, n.6). Sem fechar os olhos para o perigo do consumismo que obscurece e desvirtua o sentido mais profundo do Natal, queremos propor uma breve reflexão acerca das refeições natalinas como uma atualização da manjedoura de Jesus. Pois “ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para aquele que se há de revelar como ‘o pão vivo, o que desceu do céu” (Jo 6,51) [...]. ‘Deitado numa manjedoura, torna-se nosso alimento’” (Admirabile signum, n. 2).

A bíblia está permeada de referências alimentares, que vai do primeiro dom do Criador à humanidade, nos poemas da criação, ao banquete de todos os povos junto à mesa do Cordeiro, no Apocalipse. O poeta e exegeta português, agora cardeal, José Tolentino, sintetiza algumas passagens do Antigo Testamento que exemplificam a centralidade do alimento para a religião judaico-cristã. “Não podemos esquecer que o primeiro mandato que Deus estabeleceu para Adão e Eva, no relato do jardim, foi de categoria alimentar (“Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer”) [...]; que a terra prometida é sobretudo definida em termos de seus recursos alimentares, terra onde “corre leite e mel” [...]; que o objetivo da grande marcha de Moisés com o povo, do Mar Vermelho ao rio Jordão, é “comer e regozijar-se” diante do Senhor Deus [...]. A consumação do Êxodo expressa-se numa idealização da comensalidade, no país que o Senhor escolheu, uma comensalidade celebrada na abundância dos frutos da colheita e na solidariedade entre todos os membros do povo, estendendo-se mesmo até às suas fronteiras: “virá então o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem nas tuas cidades, e eles comerão e se saciarão” (2008. p. 163). Ainda poderíamos lembrar do mandamento de comer a Páscoa anualmente como sinal da libertação do Egito (Êxodo 12), o Maná caído do céu (Êxodo 16) que alimentou a caminhada do povo no deserto, etc. Tudo isso mostra como o simples gesto de alimentar-se vai se tornando liturgia na caminhada do povo.

O cristianismo nasceu em torno da mesa. O grande símbolo cristão, a Eucaristia, que começa com a Última Ceia, é algo que se faz em torno da mesa. Depois de ter multiplicado os pães e saciado a multidão faminta (Marcos 8, 1-9), Jesus se oferece Ele mesmo como alimento: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6, 51).  É em torno da mesa da Comunhão que nós cristãos nos reconhecemos como comunidade, corpo de Cristo, como escreve São Paulo: “Como há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, pois participamos todos desse único pão” (1 Cor 10, 17).

A mesa da refeição é, pois, lugar do encontro, da intimidade, da comunhão (ninguém convida um estranho para sentar-se à mesa). “A mesa torna visível e edifica a intimidade familiar. Os amigos sabem que essa permite uma qualidade de encontro que lhes é própria. Dos negócios têm-se a ideia que a mesa os favorece, tal como a busca de resolução para os conflitos mais diversos. É curioso que a euforia comercial com que as nossas sociedades promovem os tempos simbólicos acalma-se, por fim, em torno de uma refeição (é assim no Natal). E, talvez por isso, à mesa pese mais a solidão ou a incomunicabilidade em que muitos vivem” (José Tolentino Mendonça).

A mesa da refeição é mais do que um lugar de saciar a nossa fome de alimento, de suprir nossa necessidade biológica. “A mesa é um momento de excelência para a revelação de si, pois todo o comensal traz como dom a narração da sua história. A hospitalidade experimentada em torno da mesa instaura um implícito pacto de linguagem. É um espaço / tempo onde o contar se realiza no contar-se. Diante dos que escutam, abre-se a possibilidade de cada um se dizer, e assim, de recompor fragmentos, enlaçar fios distantes ou recuperar aqueles quebrados, encontrar palavras que segredem a íntima arquitetura da vida [...]. É verdade que à mesa não nos alimentamos apenas ao mesmo tempo e dos mesmos alimentos. Alimentamo-nos uns dos outros. Somos uns para os outros, na escuta e na palavra, no silêncio e no riso, no dom e no afeto, um alimento necessário, pois é de vida (e de vida partilhada) que as nossas vidas se alimentam” (José Tolentino Mendonça).

Neste sentido, as refeições natalinas tornam-se atualização da manjedoura. Como dizia o Servo de Deus pe. Júlio Maria De Lombaerde: “Belém significa casa do pão. O pão é um alimento; é preciso, pois, depositá-lo num receptáculo de alimento: e este receptáculo é a manjedoura, na qual se costuma depositar milho, farelo, farinha... para alimentar os animais. Jesus querendo ser alimento, devia ser depositado numa manjedoura” (Mistagogia Eucarística, p. 21).

Que as nossas refeições natalinas sejam regadas de encontro, diálogo e fraternidade, que não falte em nossas mesas o tempero do amor, do perdão e da solidariedade, a fim de que o pão seja farto na mesa dos pobres e a alegria do Natal irradie nos rostos daqueles (as) que ainda hoje formam o presépio vivo de Jesus. 

Feliz Natal e um 2020 cheio de alegria e paz a você querido (a) leitor (a) que durante todo este ano se alimentou de nossas humildes reflexões. Que as letras frias dos textos sejam uma pequena brasa a aquecer os vossos corações!

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo, Belo Horizonte - MG.



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