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28/12/2019 | domtotal.com

Hans Fallada faz libelo contra autoritarismo em 'Cada um morre por si'

Livro de 1940 fala de intolerância, notícias falsas e líderes medíocres

O escritor alemão narra a história de um casal na Berlim dos anos 1940
O escritor alemão narra a história de um casal na Berlim dos anos 1940 (wikicommons)

Tadeu Sarmento*

Imaginem um governo cuja ascensão, feita inicialmente por vias democráticas, é consequência direta de uma grave crise política e econômica, e que, uma vez no poder, pouco a pouco começa a tomar medidas autoritárias, amparadas pela figura cada vez mais emblemática de seu líder principal, que passa a ser defendido com abnegação por seguidores cada vez mais cegos, violentos e intolerantes, alimentados diariamente por notícias falsas e pela escolha de um inimigo imaginário; um governo cujo único objetivo é o de acirrar ainda mais a divisão no país, agravada de maneira considerável por uma maioria que prefere lavar as mãos e não enxergar o que está acontecendo.

Imaginaram? Pois não estamos falando dos tempos atuais, mas dos anos de 1940 a 1942, na Alemanha, época em que se passa o romance Cada um morre por si, do escritor alemão Hans Fallada.

A narrativa centra-se na vida de Anna e Otto Quangel e começa em 1940, com a carteira Eva Kluge subindo os degraus do prédio onde o casal mora em Berlim, para entregar-lhes uma carta datilografada que comunica a morte de seu único filho no front da Segunda Guerra. É a partir deste momento de dor que os Quangel, até então um casal pacífico e apolítico (que em seu íntimo acreditava que conseguiria passar sem maiores danos por um governo que, dia a dia, vinha demonstrando suas verdadeiras intenções), passam por um processo de esclarecimento, que culmina na constatação das mentiras e do alcance nocivo do governo na vida das pessoas e na sensação de que não poderiam mais viver ilesos, como se o país ainda estivesse vivendo dentro de uma normalidade.

Interessante notar a maneira com que o narrador em terceira pessoa acompanha a decepção e a tomada de consciência de Anna e Otto, irradiando-as ao longo das páginas, entre o vaivém de outros personagens, à medida em que cresce a certeza entre os dois de que o governo faz uso de mentiras para manipular o povo, sustentando-se em uma máquina teatral alimentada por notícias falsas (ou fake news, para utilizarmos um jargão mais corrente).

Como era de se esperar, diametralmente opostos a este desmascaramento, estão os apoiadores incondicionais do governo (simbolizados no romance pelos vizinhos dos Quangel: a família Persicke), isto é, aqueles que não apenas ajudaram a colocá-lo no poder, mas que passaram a ascender socialmente graças a ele. E não por que fossem competentes (pelo contrário, o romance demonstra que, no geral, são bem medíocres e abaixo da linha da moral) e sim por se encontrarem ideologicamente alinhados, subalternos (a “lealdade com quem é leal”), e mais que isso: porque estão dispostos a entregar qualquer pessoa que fale mal do governo: parentes, amigos, vizinhos, até mesmo professores (não filmando as aulas, que naquela época este recurso não existia). Trata-se, como se diz à certa altura do livro, de “uma sensação desconfortável (...) pois nesse momento pessoas como os Persicke estarão por cima”.

Em Cada um morre por si, diferenciar-se de pessoas tão deploráveis quanto os Persicke é tomar posição para agir. Ao decidir fazer algo e distribuir cartões-postais pelas ruas de Berlim com mensagens claras contra o governo e suas mentiras, o casal Quangel assume as consequências trágicas do seu ato, preferindo estas ao julgamento histórico de, um dia, serem colocados lado a lado dos colaboradores: “o mais importante é sermos diferentes deles, nunca deixar que consigam nos fazer pensar como eles. Nunca seremos nazistas, mesmo que eles conquistem o mundo inteiro”.

Apesar de volumoso, as quase oitocentas páginas do romance de Hans Fallada são vencidas sem maiores percalços, graças à fluidez do texto e ao ritmo de thriller da narrativa. Fallada, que escreveu o romance em 24 dias, ainda no calor dos acontecimentos históricos que retrata e inspirado em um fato real, era um dos principais expoentes do movimento artístico de reação ao Expressionismo, chamado “A Nova objetividade” ou “Realismo social” e que, na literatura, primava pelo corte dos excessos estilísticos ou pelo “medo dessas palavras grandes, que nos deixam tão infelizes”, para utilizarmos livremente um pensamento de James Joyce. Inclusive, a nova tradução, de Sonali Bertuol, feita para a Editora Cambraia, é fiel aos preceitos desta nova objetividade. Comparada à anterior (que saiu pela Estação Liberdade com o nome Morrer sozinho em Berlim), ela deixa de lado, logo nas primeiras páginas, um “resplendor” pela “luz”, e um “aerograma” por uma “carta”.

Cada um morre por si é sobre a luta de pessoas comuns contra um governo de sociopatas mentalmente limitados que, de uma hora para outra, alçam o poder para lançar seu país em uma espiral de loucura e ressentimento, insuflando indivíduos previamente repletos de uma violência e mau-caratismo latentes – sentimentos que deveriam permanecer adormecidos por um Estado cuja premissa histórica é a de humanizar os indivíduos, mas que, de uma hora para outra, passa a autorizar todo tipo de expressão de violência. Um livro de leitura imprescindível para os novos tempos, que insistem em repetir os velhos. Ou por que razão vocês achariam que presidentes que copiam o penteado de Hitler, não iriam também querer copiar suas ideias?

 

CADA UM MORRE POR SI
De Hans Fallada
Tradução Sonali Bertuol
Editora Carambaia
768 páginas
R$ 159,90

Tadeu Sarmento é escritor, autor de ‘E se deus for um de nós?’ (Confraria do Vento), ‘Associação Robert Walser para sósias anônimos’ (Cepe), entre outros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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