Religião

03/01/2020 | domtotal.com

Cristo, Senhor do tempo

O tempo deve ser lugar oportuno da manifestação do amor

Cristo é o Senhor do tempo pois ressignifica a história da humanidade
Cristo é o Senhor do tempo pois ressignifica a história da humanidade (Majid Rangraz/ Unsplash)

 Daniel Couto*

O tempo, “Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”.
(AGOSTINHO, Confissões, XI, 14, 17)

Os seres humanos, cada vez mais, estão sujeitos a uma nova opressão: a escravidão do tempo. Vivemos na era da velocidade, do imediatismo, da “falta de tempo”, da exigência de prazos, da fuga da velhice, da expectativa de vida cada vez mais estendida. Desenvolvemos transtornos psicológicos que estão intimamente relacionados às exigências hodiernas e ficamos aprisionados na inaptidão de lidar com essa “nova ordem”. Estamos mergulhados em saudosismos por um passado que já não mais existe e projeções de um futuro que nos parece inalcançável.

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Como não podemos fugir desta realidade, precisamos, de alguma maneira, ressignificá-la a partir dos elementos da tradição. Se voltarmos o nosso olhar para a “maneira de viver” de outros povos, culturas e tempos, encontraremos diversos exemplos que ajudam a interpretar a vida a partir de outras chaves. As religiões, em suas expressões e, particularmente, nas práticas rituais, buscam inserir os seres humanos na temporalidade do divino. Os cristãos têm, portanto, na figura de Jesus e na história da revelação divina, um modo de viver o tempo que “rompe” com a lógica da sua época e, do mesmo modo, configura-se como modelo para nossa vida.

Antes de refletirmos sobre esse novo olhar sobre o tempo, experimentado de maneira radical pelo Galileu, é preciso entendermos que essa é uma das questões filosóficas/teológicas mais interessantes e discutidas de todos os “tempos”. Qual é a origem do tempo? Qual é a temporalidade na qual se insere a divindade? O tempo existe ou é apenas uma apreensão que temos sobre a realidade? O tempo pode ser explicado ou apenas vivido?

No mundo grego, tomando como exemplo a sociedade e o pensamento da Grécia Antiga, o tempo está ligado ao movimento natural do cosmos. O movimento perfeito, infinito, é o movimento circular, que determina os ciclos, pode ser tomado sobre qualquer ponto, e representa a organização do universo. O tempo, como entidade, também possui uma personalidade que, hora observa os eventos, como uma testemunha universal, ora é o próprio responsável pelo andar do “destino”. De certa maneira, tempo, movimentos celestes e destino sempre estiveram ligados. Lembremos, também, que o “tempo oportuno” do nascimento do messias foi anunciado por meio de um movimento celeste: o aparecimento da estrela.

Aristóteles, por outro lado, busca sistematizar essa contagem temporal, dizendo que o “tempo é o número do movimento, segundo o antes e o depois”. O movimento do universo é ininterrupto, e o que chamamos de tempo é apenas uma medida, tomando como ponto de partida um marco. Quando determinamos essa referência podemos dizer sobre um passado, isto é, um movimento que aconteceu anteriormente ao início da contagem e um futuro, que acontecerá após a medida atual. De qualquer maneira, isso demonstra a inexistência do tempo como substância, valendo-se apenas como medida de um movimento que não depende dele.

O cristianismo, neste mesmo caminho, possui em sua narrativa mitológica, diversos elementos que nos ajudam a entender o tempo segundo a “medida humana” e a “medida divina”. Diferente dos gregos, nós acreditamos em um Deus criador, com o universo gerado a partir de sua palavra, uma ação inicial que provoca o primeiro movimento e, consequentemente, o “início dos tempos”. Somente por isso ele é anterior a tudo, o princípio e o fim, pois é dele que advém toda a temporalidade, materialidade, movimento e criação. O divino está para além do tempo, pois é a criação, por ele gerada, que determina a temporalidade. O tempo está ligado, fundamentalmente, ao mundo e à nossa vida. Sobre a vida de Deus não podemos dizer do tempo, porque ela ultrapassa todas as nossas categorias.

Dentro desta perspectiva, Agostinho elucidará, já no século 3 d.C., que a única existência temporal possível é o “agora”. Sobre o passado não é possível fazer nada além de recordar, ele não existe senão em nossa memória. Mesmo quando relembramos ou trazemos para o presente esses fatos, o que existe é o agora da recordação, não o acontecimento rememorado. Do mesmo modo, o futuro é apenas projeção de uma situação vivida no presente. Só é possível almejar algo que conhecemos elevando as expectativas ou planejando mudanças na rota do “agora”. O ontem é lembrança no agora daquilo que se foi e o amanhã é projeção no agora daquilo que pode vir-a-ser.

O filósofo afirma que o que “parece claro e manifesto é que nem o futuro, nem o passado existem, e nem se pode dizer com propriedade, que há três tempos: o passado, o presente e o futuro. Talvez fosse mais certo dizer-se: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, porque essas três espécies de tempos existem em nosso espírito e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança.” (Confissões, XI, 20, 1)

Portanto, como a mística cristã, pode nos ajudar a viver a temporalidade?

Talvez seja interessante recordarmos o que cantamos na proclamação do Natal: “Hoje nasceu para nós um salvador”. A temporalidade cristã é o agora. É no hoje, no cotidiano, na vida ordinária que a manifestação do divino acontece. Uma presença que não é rodeada de pirotecnias e alardes, mas se expressa na simplicidade e trivialidade do dia-a-dia. Jesus, uma criança, filho de mulher, pertencente a uma história e cultura pela lei e filiação paterna, ressignifica todo o tempo no agora. Ele condensa a tradição do antigo testamento e projeta todo pensamento cristão em si. No agora da pessoa de Jesus Cristo o reino acontece e o Pai se faz visível para os seres humanos. O senhor do tempo, palavra criadora, assume a temporalidade da criação, vive segundo a cronologia, o movimento, a geração e a corrupção da matéria para nos mostrar que a Palavra de Deus vive no hoje. Jesus está presente no meio dos seus porque é na ruptura do tempo, no tempo oportuno da revelação (kairós) que vivemos.

Durante séculos a tradição busca assumir essa maneira de viver apresentada pelo Filho de Deus, principalmente ao buscar respostas para os dilemas existenciais. O caminho não é deixar de lado o trabalho, as questões políticas e sociais, os conflitos e o convívio, mas entender que só existe uma oportunidade de “proclamar a palavra”: o agora. O amor não é para ser vivido no amanhã, nem a caridade planejada para o “tempo da conversão”. Os seres humanos clamam por vida “agora”. As guerras precisam de intervenções de paz “agora”. A fome precisa ser saciada “agora”. A justiça e o Reino são clamores do povo que vive o “hoje da história”. É desta maneira que a Palavra de Deus é atemporal, a mesma ontem, hoje e sempre, porque ela sempre terá o que dizer aos nossos anseios e clamores.

Na história da humanidade, costumeiramente datada a partir do “evento” Jesus Cristo, aprendemos que tudo o que vivemos, tudo o que somos, e tudo o que ainda podemos ser só é experimentado no tempo. Não seria diferente com Deus, que se faz um de nós. O “evento” Jesus não somente marca uma ruptura no tempo/espaço, mas também nos mostra que cotidianamente precisamos viver essa intervenção divina. A encarnação do verbo é profundamente humana, mostrando que são os seres humanos que constroem o tempo, que são os seus senhores, assim como Jesus. Não devemos ser escravos do tempo, uma vez que ele existe apenas por causa da nossa capacidade de racionalizar o movimento, mas é o tempo que deve ser lugar oportuno da manifestação do amor. Ao redor do mundo, esférico é claro, os cristãos celebram suas liturgias, lugar da memória desse encontro entre o céu (dimensão divina) e a terra (dimensão da criação), a presença de Deus “hoje” na história. Hoje o filho se encarna, hoje o Evangelho é anunciado, hoje o pão é partilhado, hoje vivemos a paixão, hoje o Cristo é condenado à morte e ressuscita e hoje somos enviados pelo mundo para restaurar a dignidade de todas as pessoas pelo amor. Cristo é o Senhor do tempo pois ressignifica a história da humanidade mostrando que a vida acontece na dimensão ordinária e cotidiana. Eu, você e todos os seres humanos vivendo, cada dia, a encarnação do amor.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia, bolsista da Fapemig e membro da rede de animação litúrgica Celebra.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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