Religião

03/01/2020 | domtotal.com

Mistério Pascal e cotidianidade

Fazer a experiência do mistério pascal é deixar-se ser contagiado pelo amor

A pessoa cristã é convidada a olhar a realidade, os diversos contextos e dar uma resposta à luz da fé, mesmo quando tudo parece ser trevas
A pessoa cristã é convidada a olhar a realidade, os diversos contextos e dar uma resposta à luz da fé, mesmo quando tudo parece ser trevas (Marc-Olivier Jodoin/ Unsplash)

César Thiago do Carmo Alves*

Esvaziar-se por desapego. Entregar-se por amor. Vida e morte num abraço: mistério pascal. A Palavra assumiu a finitude humana e tornou o humano eterno. Sinal vivaz de um amor oblativo. De um Deus que se compadece da humanidade. Que ama salvando e salva amando. Assumiu a carnalidade para que essa fosse o eixo da própria salvação. Dinâmica da divindade em inserir a humanidade em sua própria vida. No Filho, em sua paixão, morte e ressurreição os seres humanos puderam experimentar a Revelação da Trindade e descobrir na sua diversidade o pleno amor.

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Alcançados pela Palavra em sua pascalidade, a reverência ao seu mistério aquece o coração e a vida dos que mergulharam densa e intensamente no morrer e ressuscitar. A liturgia, epifania por excelência desse mistério pascal, é um verdadeiro convite mistagógico para que humanidade seja capaz de tocar a Deus, da mesma forma que ele é capaz de tocar o ser humano. No cotidiano, morte e vida se abraçam. Sem perceber ou tematizando, somos tocados pelo mistério pascal. No fluir da vida inúmeras são as vezes que as trevas se põem: morte. A esperança parece escapar por dentre os dedos. Tudo se torna escuro. Justamente aí Deus manifesta a sua palavra que é definitiva: vida. Ressurreição.

Morte e ressurreição podem ser experimentadas de modo não definitivo ainda enquanto peregrinamos nesta terra. Quando em cenários catastróficos, com pautas politicas, econômicas, sociais e religiosas, que retiram ou negam o jeito humano de ser; que negam simbolicamente ou até por vezes fisicamente a existência de pessoas, pode-se constatar a experiência de morte. Da mesma forma que o Mestre de Nazaré foi sentenciado pelo Estado à execução sumária sob a bênção dos religiosos de sua época, tantas pessoas ainda são, no cotidiano da vida, sentenciadas à morte paulatinamente quando direitos são negados. Infelizmente, muitas vezes sob a bênção dos religiosos. Insiste-se: dos religiosos e não de Deus mesmo. Mas, as conquistas que pessoas que fazem parte da chamada minoria social, termo em disputa, conquistam são sinais de ressurreição experimentada no já da história. 

A mística espanhola do século XVI, Teresa de Ávila (1515-1582) afirmou que em meio às panelas, também anda o Senhor. Ele está presente na cotidianidade para que no mesmo cotidiano se possa fazer a experiência Dele. Conduzir para a experiência mais profunda que é o da pascalidade. Uma pascalidade que não está fora da realidade. É a partir dela que a pessoa cristã é convidada a olhar a realidade, os diversos contextos e dar uma resposta à luz da fé, mesmo quando tudo parece ser trevas. Quando tudo parece ser terra seca. O olhar pascal faz enxergar a luz que ressurge como vida. Faz contemplar a possibilidade de chuva que regará a terra seca e fazer dela capaz de ser fecunda. Esperança.

No cotidiano da vida, fazer a experiência do mistério pascal é deixar-se ser contagiado pelo amor. É esvaziar-se de si mesmo, superando toda prepotência e arrogância. Permitir que a ternura e o afeto também possam ter seu lugar de fala, superando o narcisismo egoísta. Somente quando se abandona na leveza de ser, deixando pensamentos, modo de viver e agir que mais vão à direção narcísica seja ela estética, afetiva, social intelectual ou religiosa, é que se pode efetivamente morrer para ressuscitar para o amor verdadeiro que não permite o talvez, o mas ou as reticências, pois se ama e ponto. Esse amor que gera tolerância, alteridade e compaixão para com todos os que são irmanados e irmanadas na fraternidade e sororidade universal. O gólgota e a pedra rolada são expressões profundas do existir humano no cotidiano da vida.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). É graduado em Filosofia e Teologia. Possui especialização em Psicologia da Educação. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da Faje.



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