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07/01/2020 | domtotal.com

A ingenuidade dos ocidentais frente a Pequim

Segundo Ma Jian, já é tempo do Ocidente abrir os olhos em relação à sede das autoridades de Pequim

Escritor chinês no exílio, Ma Jian posa em sessão de fotos, em 13 de dezembro de 2018, em Paris
Escritor chinês no exílio, Ma Jian posa em sessão de fotos, em 13 de dezembro de 2018, em Paris (AFP/Arquivos)

Lev Chaim*

O escritor chinês Ma Jian, exilado em Londres já há alguns anos, autor do consagrado livro Pequim em coma, está lançando um novo livro para alertar os ocidentais para que não sejam tão ingênuos com relação ao regime comunista de Pequim. Seu novo romance chama-se O sonho chinês. Nessa obra, ele faz uma sátira de um funcionário corrupto do governo chinês. Mas primeiro, vamos a um pequeno histórico deste escritor, antes dele chegar à capital britânica.

Ele tem 66 anos e começou a sua vida como pintor. Em 1983 seu trabalho como pintor foi rejeitado como arte “capitalista” e ele acabou na prisão. A partir daí ele começou a escrever, mas a sua primeira novela foi censurada em 1987, por conter informações sobre o autoconhecimento do próprio autor. Depois de uma longa viagem pela China, ele voltou a Pequim onde participou do protesto da praça de Tiananmen, em 1989. É sobre este episódio o seu mais famoso livro “Pequim em Coma”. Depois, Ma Jian se mudou para Hong Kong e quando os britânicos a entregaram de volta ao regime de Pequim ele se mudou para Londres. Desde 1999, ele mora na capital britânica.

Sobre este seu novo livro recém-lançado, o jornal holandês Trouw traz uma longa entrevista com o autor, em que ele revela que a única ideologia da China atualmente é o poder e nada mais. Eles não estão interessados em fazer com que todos se tornem comunistas, muito pelo contrário, eles sabem que o regime comunista não tem mais como sobreviver, a não ser como o meio de fortalecer a nação perante à Comunidade Internacional.

Para Ma Jian, a cartilha do partido comunista chinês é um perigo para as democracias ocidentais. Eles pregam que a democracia não é uma coisa necessária, que a liberdade é uma coisa prejudicial e a sociedade funciona melhor com o sistema autocrático uni-partidário. E acrescenta que o Ocidente começou a abrir os olhos para com o regime de Pequim. O exemplo dado foi a lei de proteção da democracia, assinada em Washington, para proteger a democracia de Hong Kong e as minorias raciais ou religiosas da China.

Segundo Ma Jian, já é tempo do Ocidente abrir os olhos em relação à sede das autoridades de Pequim de se tornarem um grande poder no mundo. A seu ver, os poderosos de Pequim querem vencer essa batalha e não se importam de mandar milhões de pessoas para campos de concentração e obrigá-los a se encaixar na forma ideal que o governo exige, ou seja, marionetes nas mãos de Pequim. Há muito anos o regime comunista chinês vem realizando uma lavagem cerebral em toda a população do país. Segundo Ma Jian, “a população chinesa não tem a menor capacidade de pensar independentemente, por si própria. Eles acreditam em tudo que o partido comunista diz e não contestam. Por exemplo, Pequim diz que os estudantes de Hong Kong são traidores da pátria.”  

Portanto, os que pensam que Pequim está cedendo espaço para os estudantes de Hong Kong, que lutam por sua democracia, estão muito enganados, segundo Ma Jian. A base do regime comunista chinês é a violência e eles esperam uma primeira oportunidade para fazer uma intervenção severa e calar de vez a todos os estudantes. Aí, segundo ele, fica mais fácil também a intervenção de Formosa. “Enquanto o Partido Comunista Chinês estiver no poder, não há esperanças de mudança”. E ele disse mais: “Quem pensou que mudanças pudessem acontecer na população com a chegada da nova tecnologia digital, enganou-se redondamente: as autoridades chinesas usam esta mesma tecnologia para vigiar a todos e prender os que fogem ao seu controle”.

Ma Jian já foi budista e agora acredita na santidade da individualidade. “A única coisa que pode salvar os chineses é acordarem dessa lavagem cerebral e lutarem por sua própria individualidade. Apenas após isso, poderá vir a democracia em meu país”, acrescenta Ma Jian. Ele receia que, mesmo se os chineses tivessem agora o direito de votar nas eleições, eles votariam em massa no atual presidente Xi Jinping, devido à lavagem cerebral que vêm sofrendo há muito anos. Para Jian, seu povo ainda está preso na banalidade do mal sobre a qual escreveu a filósofa alemã, Hannah Arendt.

Tudo isto me fez recordar uma amiga de minha irmã, que se tornou uma grande professora de geografia, louvada por todos os seus alunos. Quando esta amiga ainda estava no segundo ano primário, e foi perguntada sobre quais as cidades mais importantes do Estado de São Paulo, ela respondeu: Biraci, Sapucaí e Batatais, todas no círculo da região de Franca, onde ela morava. Na ocasião, ela tinha apenas 8 anos de idade. Esta resposta pode muito bem ser explicada pelo grande educador francês, Jean Piaget, que estudou o desenvolvimento do conhecimento em crianças, sobre os círculos concêntricos que as levam a citar as cidades que elas conheciam na época. Se essa professora fosse uma chinesa, segundo as palavras de Ma Jian, que acaba de lançar o livro “O sonho chinês”, ela não teria a menor chance de evoluir e tornar-se uma grande mestra de geografia. Pois é, meu caro leitor, o que você acha de ajudar os chineses a descobrirem que existe um desenvolvimento intelectual individual, gradual, que nos leva à democracia, tal qual explicou Piaget?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.



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