Religião

07/01/2020 | domtotal.com

O papa e o tapa

Não faltou gente nem para acusar e nem para defender Francisco e a fiel, mas com que critérios?

A cerca vaticana faz pensar e repensar um modelo de Igreja que opõe fiéis leigos e hierarquia
A cerca vaticana faz pensar e repensar um modelo de Igreja que opõe fiéis leigos e hierarquia (Cristina Gottardi/ Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*

Parece que já compreendemos que a nossa humanidade se realiza na relação com os outros que se dá no mundo. E, precisamente, são essas relações que nos possibilitam enxergar os traços de nossa humanização ao longo dos tempos. Por essa razão, é impossível pensarmo-nos numa espécie de bolha individualista na qual seja possível nos isentarmos do contato com o outro. A linguagem é o componente humano que nos coloca imediatamente em relação. Não somente a fala e a escrita, mas os gestos próprios do nosso corpo funcionam como uma ponte a ligar dois mundos, o eu e o tu.

Por isso, merece especial atenção os gestos do corpo. Eles, assim como tudo aquilo que compreende o ser humano, também se dão numa atmosfera de ambiguidade. Por isso mesmo eles podem apresentar mais de um sentido. Qualquer gesto realizado por nosso corpo carrega consigo essa qualidade, e dependeremos dos que os realizam e dos contextos para entender se um gesto é aquilo que parece ser. Por exemplo, um abraço pode significar afeto, carinho, amasso, como pode significar retenção, prisão, violência.

Nesse sentido, a cena entre o papa Francisco e a fiel que correu o mundo e logo ganhou espaço nas mídias merece ser pensada na esteira dos gestos corporais. E isso deve acontecer da mesma forma como pensamos, ou deveríamos pensar, todos os gestos que realizamos em relação com os outros ao longo de nossas vidas. Não entraremos no mérito da humanidade ou da desumanidade do primeiro representante católico do mundo ou da pertinência ou importunação da fiel. Muitas pessoas fizeram isso muito bem, cada qual a seu gosto. Não faltou gente nem para acusar e nem para defender Francisco e a fiel. Não faremos esse tipo de apologia aqui.

Desde já, é bom que deixemos registrado que o pontífice merece respeito e apoio pelas fundamentais propostas de mudança empreendidas no governo da Igreja até aqui. Certamente, ele tem orientado a complicada barca dos fiéis para mares mais evangélicos, e essa não é uma tarefa fácil.

Mas vamos lá, temos dois gestos na cena. O ambiente é composto por dois espaços: há uma cerca. O papa está de um lado dessa e os fiéis do outro. Francisco percorre alguns metros a cumprimentar os fiéis que estendem braços e mãos para serem tocados pelo papa. Ao entender que se apartaria dos cumprimentos, uma fiel o puxa pela mão e o segura por alguns instantes. Visivelmente irritado, Francisco dá dois tapas na mão da fiel para que essa o solte. Em seguida, retoma o movimento de ir mais adiante.

Pensemos o gesto de puxar. A fiel puxou o papa pela mão. O gesto em si pode dar a entender que, primeiro, ele poderia o ter realizado por querer reter egoisticamente para si Francisco. Mas ela poderia também, em segundo, ter realizado o gesto por precisar da atenção daquele homem naquele exato momento da vida. Desse modo, a retenção própria desse gesto pode ser pensada tanto na lógica do egoísmo quanto na da necessidade. Alguém que está despencando de um penhasco necessita do gesto amigo e salvador de ser segurado pelas mãos. Talvez a fiel estivesse à beira de um penhasco existencial e visse em Francisco o velho e bom amigo disposto a ajudar. Mas ela também poderia estar ali querendo holofotes por ter consigo alguns segundos com a maior liderança mundial. O que nos faz optar preferencialmente por uma interpretação ou outra? Temos a resposta para essa pergunta?

Pensemos agora o gesto do tapa. O papa deu dois tapas numa fiel. Primeiro, tal gesto pode ser entendido numa lógica do agir violentamente, pressupondo que o papa não goste de ser retido por qualquer pessoa e, por isso, deu dois tapas repreendendo que não o segurassem mais. Em segundo, o tapa se configura como uma autodefesa de um homem idoso frente a um puxão inesperado que poderia tê-lo derrubado ao chão. O que nos faz optar preferencialmente por uma interpretação ou outra? Temos a resposta para essa pergunta?

Como podemos ver, o destino de cada um de nós, também o de Francisco e o da fiel, estão irremediavelmente ligados pelos gestos dos nossos corpos em relação. E esses gestos podem ter mais de um significado e devem ser sempre pensados, refletidos, retomados, a depender dos agentes e dos contextos. Tornam-se perigosos os julgamentos apressados que procuram uma única justificativa para uma cena retomada pela televisão e outras mídias, veículos que não se dispõem a fazer leituras dos acontecimentos todos.

Curiosamente, o que mais despertou minha atenção na cena, para além dos gestos e suas possíveis narrativas, é a cerca. Essa sim me faz pensar e repensar um modelo de Igreja que opõe fiéis leigos e hierarquia, de modo que o acesso aos pastores é sempre frio, rápido, distante. Ela me faz pensar que o calor dos trópicos talvez ainda não tenha superado o gelo vaticano. E que o muro que divide não é um privilégio dos poderosos que têm horror e praticam maldades contra os estrangeiros. Precisamos superar cercas e muros, ou não seremos a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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